A Rua do pioneiro do cinema português

Freguesia de Benfica (Foto: José Carlos Batista)

Freguesia de Benfica
(Foto: José Carlos Batista)

A partir de uma sugestão da Secretaria de Estado da Cultura, por ocasião do centenário da morte do cineasta pioneiro Aurélio da Paz dos Reis, foi este perpetuado na Rua F à Quinta das Pedralvas, também conhecida por arruamento de ligação da Estrada de Benfica ao Bairro das Pedralvas, pelo Edital de 04/12/1981.

Aurélio da Paz dos Reis (Porto/28.07.1862 – 18.09.1931/Porto) é considerado o pioneiro do cinema em Portugal por ter realizado e  produzido o primeiro filme português em 1896, A Saída do Pessoal Operário da Fábrica Confiança, a exemplo do que os irmãos Lumière haviam rodado em França no ano anterior (La Sortie de l’usine Lumière à Lyon). Foi este seu filme apresentado em sessão pública no Porto, no Teatro do Príncipe Real (depois Teatro Sá da Bandeira), em 12 de novembro de 1896. 

Paz dos Reis realizou mais de 30 filmes de  1896  a 1898, dos quais destacamos os dedicados aos arruamentos de Lisboa como Movimento e Ruas de Lisboa, Rua AugustaAvenida da LiberdadeA Rua do Ouro,  a que acrescem mais os seguintes documentários : Feira de Gado na Corujeira, Azenhas no Rio Ave, Barcelos, Braga, A Caninha Verde, Caricaturas por Pina Vaz, Cenas da Vida Parisiense,  Chegada de um Comboio Americano a Cadouços, Cinira Polónio Dizendo uma Cançoneta, Coimbra, Cortejo Eucarístico saindo da Sé do Porto no Aniversário da Sagração do Eminentíssimo Cardeal Américo, Costumes da Aldeia, A Dança Serpentina, A Feira de S. BentoO Jogo do Pau, Manobras de Bombeiros, Mercado do Porto, No Jardim, Porto, A Ribeira – no Porto, Rio Douro, Saída de Dois Vapores – Marinha no Tejo, Torre de Belém, O Senhor de Matosinhos, O Senhor Morgado, Um Arraial no Bonfim, Uma Salva de Artilharia na Serra do Pilar, O Vira, Vista da Praia de Ourigo, Vista de Moinhos – Santo Tirso e, O Zé Pereira na Romaria de Santo Tirso.

Aurélio Paz dos Reis era também fotógrafo amador e apreciava particularmente tirar retratos a gentes do teatro. Tinha cartão de jornalista e a imprensa, sobretudo a Illustração Portugueza, recorria às suas imagens para publicação. 

p aurelio da paz dos reis

De profissão era comerciante e floricultor, com casa comercial aberta em 1893, A Flora Portuense, na Praça de D. Pedro (mais tarde, Praça da Liberdade) e, criando flores no jardim do seu palacete no nº 125 da Rua de Nova Sintra.  Logo  aos vinte anos de idade passou a integrar a Comissão Executiva dos Empregados do Comércio e, o seu sentido cívico também se manifestou pela sua participação em numerosas colectividades culturais e de beneficência, como sócio fundador da Associação Portuguesa do Asilo de S. João, membro da Associação de Proteção à Infância Desvalida, diretor do Ateneu Comercial, no Orfeão Portuense, no Clube dos Fenianos e na criação do Conservatório de Música, para além de compilar recortes de jornais para discussão na sua Loja maçónica. 

Paz dos Reis tomou ainda parte no movimento revolucionário do 31 de Janeiro de 1891, pelo que foi julgado em Conselho de Guerra, a bordo de um navio fundeado no Porto de Leixões, como sucedeu a Miguel Verdial, ao Capitão Leitão, ao jornalista João Chagas, a Santos Cardoso e ao tenente Coelho. A sua opção política enquanto membro da Maçonaria do Vale do Porto e do Partido Republicano também lhe valeram dois encarceramentos na Cadeia da Relação.

Paz dos Reis foi ainda autarca na cidade do Porto, como Vereador e Vice-presidente (em 1919 e 1921/22),  e Presidente (em 1923). 

Placa Tipo II (Foto: José Carlos Batista)

Placa Tipo II
(Foto: José Carlos Batista)

A Rua do homem que fotografou Eusébio a chorar

na Freguesia do Campo Grande - na futura Freguesia de Alvalade

na Freguesia do Campo Grande – na futura Freguesia de Alvalade

Nuno Ferrari que fotografou Eusébio a chorar em 1966 quando a Selecção Nacional perdeu para a inglesa, está perpetuado em Lisboa no arruamento que era designado por Rua 4.4 à Azinhaga das Galhardas, na sequência da Moção 22/CM/96 e a deliberação unânime da CML de 16/04/1997 que produziram o Edital de 29/04/1997 que lhe dá existência, com a legenda «Fotojornalista Desportivo/1935 – 1996».

Nuno José da Fonseca Ferreira (06.03.1935 – 18.09.1996/Estádio da Luz-Lisboa), conhecido por Nuno Ferrari, já que adoptou o nome de um dos pioneiros da fotografia desportiva em Portugal, era fotógrafo de jornais desportivos e adepto fervoroso do Sport Lisboa e Benfica tendo falecido aos 61 anos enquanto em trabalho fotografava uma partida disputada pelo seu clube no antigo Estádio da Luz.

Nuno Ferrari iniciou-se na profissão no jornal A Bola,  a 7 de Março de 1953 e, desde aí foi presença certa nas competições nacionais, europeias e nos Campeonatos do Mundo, captando instantes inolvidáveis em fotos que constituem parte da história maior do jornalismo desportivo. Foi o fotógrafo oficial da Federação Portuguesa de Futebol no Mundial de 1966, onde ficou célebre a sua imagem de Eusébio, a chorar, quando abandonava o estádio de Wembley, no dia da derrota com a Selecção de Inglaterra, amparado curiosamente por Fernando Marques.

Sócio fundador do CNID (Associação dos Jornalistas de Desporto), onde dá nome a um Prémio para fotografia da área do desporto, foi também distinguido várias vezes, em Portugal e no estrangeiro, nomeadamente com a medalha de Mérito Desportivo (1992) e a Ordem do Infante (1993).

Foto de Nuno Ferrari em 1966

Foto de Nuno Ferrari em 1966

O pai do fotojornalismo português numa rua de Lisboa

rua joshua benoliel - placa

Placa Tipo V

Considerado o pai do fotojornalismo português, muito por ter registado momentos históricos decisivos das primeiras décadas do século XX, Joshua Benoliel completaria no próximo domingo 140 anos de idade.

A Câmara Municipal de Lisboa procurou preservar a memória deste fotógrafo lisboeta na toponímia da cidade no decorrer da década de 80 do século passado. Com a legenda «Repórter Fotográfico/ 1873 – 1932» foi dado o seu nome à Rua C da Urbanização das Amoreiras (situada entre a Rua Carlos Mota Pinto e a Rua Silva Carvalho) por Edital municipal de 08/07/1986. Contudo, após a morte de Maria Ulrich – fundadora da Escola Superior de Educadoras de Infância – que residia na Rua Silva Carvalho, no Palácio Ulrich (também denominado Casa Veva de Lima), o próprio Presidente da Câmara Municipal, que era então o Engº Krus Abecasis, sugeriu que ela fosse inscrita num arruamento das proximidades da sua residência, o que era o caso da Rua Joshua Benoliel que tinha ainda a vantagem de não ter moradores ou comerciantes estabelecidos que pudessem ser afetados pela alteração da nomenclatura e assim, pelo Edital de 03/05/1989 a Rua Joshua Benoliel tomou o nome de Rua Maria Ulrich e o fotojornalista  passou para o arruamento construída no prolongamento da Rua José Gomes Ferreira, desde a sua confluência com a Rua Carlos Alberto da Mota Pinto até à Rua Silva Carvalho.

Joshua Benoliel (Lisboa/13.01.1873 – 03.02.1932/Lisboa – Rua Ivens) nasceu numa família judaica que se instalara em Gibraltar e, por isso possuía cidadania britânica, da qual não abdicou até à morte. Destacou-se pela cobertura fotográfica de acontecimentos marcantes da história portuguesa do início do século XX, como as eleições de 1908, o regicídio, a implantação da República em Lisboa – quer na Rotunda quer nos Paços do Concelho -, as exéquias fúnebres a Miguel Bombarda e Cândido dos Reis nos Paços do Concelho de Lisboa, as greves dos primeiros anos da República, a participação do exército português na Flandres durante a I Guerra Mundial ou o consulado de Sidónio Pais e, a partida para o exílio de Bernardino Machado. Benoliel também dedicou particular atenção a Lisboa, cidade de que fotografou os arruamentos, a zona ribeirinha com as fragatas do Tejo e as fainas portuárias, as lojas emblemáticas do Chiado e da Baixa, os quiosques e os diversos vendedores ambulantes que calcorreavam e abasteciam a capital.

Ainda como amador, publicou a sua primeira fotografia na revista Tiro Civil, em 1898, mas trabalhou essencialmente para O Século e para a revista do mesmo jornal, a Ilustração Portuguesa, de 1903 a 1918 e de 1924 até à sua morte, bem como para as revistas Ocidente e Panorama. Também trabalhou para imprensa estrangeira como o ABC de Madrid ou a Ilustration de Londres.

Publicou em fascículos a  obra Arquivo Gráfico da Vida Portuguesa, ilustrada com fotografias de 1903 a 1918 e, prefácio de Rocha Martins. Refira-se que para além da atividade jornalística Joshua trabalhou também como despachante alfandegário até 1904 e, de 1918 a 1924, foi relações públicas dos hotéis Alexandre de Almeida. Além disto, Benoliel ainda representou em Portugal a livraria Maggs Brothers, de Londres, para a qual disputava nos grandes leilões as melhores obras que iam à praça.

Joshua Benoliel foi galardoado com a Medalha de Ouro da Exposição de Artes Gráficas de Leipzig (1915) e condecorado com a Ordem de Santiago (1909 e 1929) e a Ordem de Mérito Civil espanhola (1930). O seu vasto espólio encontra-se essencialmente no Arquivo Fotográfico da CML e também no Museu da Assembleia da República, Museu de Marinha, Automóvel Clube de Portugal e Guarda Nacional Republicana. O seu filho Judah Benoliel seguiu também a carreira de foto-repórter.