A Rua General Silva Freire e a Guerra Colonial

Placa Tipo IV (Foto: Sérgio Dias)

Placa Tipo IV
(Foto: Sérgio Dias)

A Rua General Silva Freire, que começa e finda na Rua dos Lojistas,   nasceu da junção das Ruas C e D da Célula A da Zona dos Olivais Norte, por Edital municipal de 13/02/1963, e nela fixou um militar «Morto em Angola ao Serviço da Pátria – 1961», conforme perpetua a legenda.

Após o eclodir da guerra colonial em Fevereiro de 1961, em Angola, as atribuições toponímicas dessa década na cidade de Lisboa passaram também a consagrar os militares mortos “ao serviço da pátria nas províncias ultramarinas”, sobretudo na zona norte dos Olivais.

Neste Edital de 13/02/1963 para além da Rua General Silva Freire foram também atribuídas a Rua 1º Cabo José Martins Silvestre, a Rua Alferes Barrilaro e, a Rua Sargento Armando Monteiro Ferreira, todas referentes a militares mortos em Angola e todas as artérias em  Olivais Norte.

Passados 7 meses, o Edital de 09/09/1963 acrescentou nos arruamentos de  Olivais Norte a Rua Capitão Santiago de Carvalho  e a Rua Capitão Tenente Oliveira e Carmo, falecidos em Damão e Dio. E no ano seguinte, pelo Edital de 6/11/1964, também em Olivais Norte foi a vez da Rua Furriel João Nunes Redondo (morto na Guiné) e da Rua Sargento José Paulo dos Santos (morto em Angola).

Aliás, a Ata da reunião da Comissão Consultiva Municipal de Toponímia de 18 de janeiro de 1963 é clara ao mencionar que recebera do Gabinete do Ministro do Exército «elementos respeitantes às biografias de militares do Exército falecidos na província de Angola, ao serviço da Pátria, a fim dos seus nomes serem atribuídos a arruamentos da Zona dos Olivais.»

Freguesia dos Olivais (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia dos Olivais
(Foto: Sérgio Dias)

O militar consagrado nesta artéria é Carlos Miguel Lopes da Silva Freire (Lisboa/29.07.1907 – 10.11.1961/Chitado-Angola) que seguira para Angola em maio de 1961, sucedendo no cargo de comandante militar de Angola ao general Monteiro Libório. Foi comandante chefe das Forças Armadas, desenvolvendo notável acção no planeamento e orientação suprema das operações de guerra, na fase mais acesa da luta, tendo vindo a falecer aos 54 anos em Angola.

Em 1968 (Foto: Armando Serôdio, Arquivo Municipal de Lisboa)

Em 1968 (Foto: Armando Serôdio, Arquivo Municipal de Lisboa)

A Avenida Gomes Pereira já nascida em Benfica alfacinha

Em 1968  (Foto: Arnaldo Madureira)

Em 1968 (Foto: Arnaldo Madureira, Arquivo Municipal de Lisboa)

A Avenida Gomes Pereira  é uma artéria que deve ter nascido na passagem do século XIX para o XX, após a Freguesia de Benfica transitar do domínio da Câmara Municipal de Belém para o da edilidade lisboeta, em homenagem a um militar então ainda vivo que havia participado na prisão de Gungunhana em 1895.

Benfica era um sítio essencialmente rural até às décadas de 40 e 50 do século XX, altura em que cresceu urbanisticamente com o loteamento de quintas e espaços agrícolas, tendo como eixo principal a velha Estrada de Benfica. Porém,  tinha uma carreira de Omnibus desde 1852 e comboio a partir de 1887.

De 1852 a 1885 Benfica fazia parte do município de Belém e, só em 1885 passou a integrar o concelho de Lisboa. Treze anos depois encontramos um documento (de 14/12/1898) em que uma Joaquina de Azevedo Gomes Pereira faz uma escritura de cedência da Quinta de Marrocos para a Avenida Gomes Pereira. E no ano de 1900 (4 de abril) essa mesma Joaquina assina outra escritura para entregar à CML a Avenida Gomes Pereira.

Mais tarde, em 1908, na Planta Topográfica de Lisboa, de Júlio Silva Pinto e Alberto de Sá Correia, já aparece referido este arruamento como Rua Gomes Pereira. Em 1943, após a formação da Comissão Consultiva Municipal de Toponímia, esta começou por proceder a um levantamento e revisão da toponímia alfacinha e registou a Avenida Gomes Pereira mantendo este topónimo  e, passados 14 anos, na reunião de 4 de junho de 1957, avançou mesmo que este topónimo passasse a ter como legenda  «1856-1926».

E assim chegamos ao alfacinha Guilherme Augusto Gomes Pereira (Lisboa/20.01.1856-1926), nascido na então freguesia de Santo André, filho de João Carlos Gomes Pereira e de Maria Evaristo Conceição Couto e, irmão mais novo de José Carlos Gomes Pereira (nascido a 07.01.1849) que também foi militar. Foi um major de Infantaria que protagonizou as campanhas de África que culminaram em 1895 com o combate de Chaimite e a prisão de Gungunhana. Aliás, toda a sua carreira se distingue por cargos exercidos em África, nos países que na época eram colónias portuguesas, quer como chefe dos concelhos de Porto Alexandre e de Humpata (1900), quer como comandante militar interino das Terras de Lourenço Marques (1897) ou, secretário geral interino do governo de Moçambique (1893) e até governador do Distrito de Angola (1892) e da Ilha do Príncipe (1898).

A Avenida Gomes Pereira, a partir de 1913, também acolheu nos seus nºs 15 a 19 a antiga Fábrica de Malhas Simões.

(Foto: João H. Goulart, s/d, Arquivo Municipal de Lisboa)

(Foto: João H. Goulart, s/d, Arquivo Municipal de Lisboa)

Freguesia de Benfica

Freguesia de Benfica

A Rua do Engº de profissão e conde literato por paixão

Branco e Negro, 20.12.1896

Branco e Negro, 20.12.1896

A Rua Conde de Arnoso homenageia na antiga Rua 41 do Sítio de Alvalade o engenheiro militar que por paixão se dedicou às Letras, fruto do edital municipal de 20/10/1955 que ali fixou toponímia ligada às Artes e às Letras, por sugestão do olisipógrafo Luís Pastor de Macedo à Comissão Consultiva Municipal de Toponímia na sua reunião de 20 de julho de 1955.

Pelo mesmo edital, foram também atribuídos no mesmo sítio os nomes de outros três membros do grupo de onze intelectuais e políticos conhecido como «Vencidos da Vida»: Carlos Lobo d’ Ávila, Conde de Ficalho e Marquês d0 Soveral.

O 1º Conde de Arnoso foi Bernardo Pinheiro Correia de Melo (Guimarães/27.05.1855 – 21.05.1911/Vila Nova de Famalicão) que seguiu a carreira militar como oficial de Engenharia, após cursar Matemáticas na Universidade de Coimbra e usou o pseudónimo literário Bernardo Pindela, já que era filho do 1º visconde de Pindela.

Mas como membro dos «Vencidos da Vida» e particularmente amigo de Eça de Queirós tomou a literatura como paixão. Aliás, foi o Conde de Arnoso que em 15 de março de 1901 apresentou na Câmara dos Pares um projeto de lei para conceder uma pensão à viúva e filhos de Eça de Queirós assim como desenvolveu esforços para ser erguido o monumento do Largo do Barão de Quintela a Eça de Queirós, que ele próprio entregou à cidade de Lisboa em 9 de novembro de 1903.

O primeiro livro que publicou foi Azulejos (1886), sobre a sua vida de estudante na Universidade Coimbra e com prefácio de Eça de Queirós. Depois, colaborou com o Conde de Sabugosa no livro de contos De Braço Dado (1894), que foi um êxito na sociedade elegante de então. Seguiu com Jornadas pelo Mundo (1895), um livro de viagens onde descreve a China e o Japão,em resultado de ter acompanhado o conselheiro general Tomás Rosa em 1887 numa viagem oficial a essas paragens.  Também apresentou com êxito nos palcos as peças Primeira Nuvem (1894) e O Suave Milagre (1901), a partir do conto de Eça. Espalhou também os seus textos pelas revistas A Arte e a NaturezaA imprensaA semana de Lisboa, Revista de Portugal e Brasil-Portugal, entre outras.

Bernardo Pindela foi também amigo e secretário particular do rei D. Carlos I, que lhe concedeu o título de conde de Arnoso por decreto de 28/09/1895, tendo acompanhado o monarca na sua viagem a Inglaterra, em janeiro de 1901, para assistir ao funeral da Rainha Vitória. Também foi nomeado Par do Reino por Carta Régia de 29 de dezembro de 1900, tendo tomado assento na Câmara dos Pares na sessão de 6 de março de 1901.

Em 1961 (Foto: Arnaldo Madureira, Arquivo Municipal d Lisboa)

Em 1961 (Foto: Arnaldo Madureira, Arquivo Municipal de Lisboa)

Freguesia de Alvalade

Freguesia de Alvalade

A Rua Direita de Neves Costa no seu 240º aniversário

Em 1967 (Foto: Armando Serôdio, Arquivo Municipal de Lisboa)

Em 1967 (Foto: Armando Serôdio, Arquivo Municipal de Lisboa)

No ano seguinte à implantação da República a antiga Rua Direita de  Carnide passou a homenagear o engenheiro militar Neves Costa, que comandou exércitos portugueses contra tropas espanholas e francesas em 1797 e, a quem alguns autores atribuem a ideia das Linhas de Torres Vedras.

A edilidade lisboeta  formalizou o procedimento através do seu edital de 07/08/1911, na freguesia onde Neves Costa havia nascido e, colocando no topónimo Rua Neves Costa a legenda «Engenheiro Militar/1774 – 1841».

José Maria das Neves Costa (Lisboa/14.08.1774 – 19.11.1841/Lisboa) destacou-se em 1809, quando era major,  pela execução da carta topográfica da área a norte de Lisboa, para melhor defesa da capital portuguesa, por encomenda do Ministério da Guerra. Aliás, este levamento surgiu na sequência de uma exposição que havia feito em 26 de novembro de 1808,  aquando das invasões francesas, lembrando a importância do relevo do terreno a norte de Lisboa para a defesa da capital.

Neves Costa havia sido comandante do Corpo do Exércitos que lutou no Alentejo contra os espanhóis e franceses em 1797 e, em 1802 foi nomeado para o Estado-Maior da inspeção  das praças e fortes de fronteira e costas marítimas. Na primeira divisão de engenheiros coube-lhe o reconhecimento da fronteira do Alentejo bem como a carta da península de Setúbal. Em 1806 foi escolhido pelo Marquês de Marialva para organizar o Arquivo Militar e, cindo anos depois, para dirigir os trabalhos de fortificação da praça de Almeida. No período de guerra civil foi nomeado governador do forte da Graça e, em 1835, a Câmara dos Pares incumbiu-o de propor um plano de reforma do sistemas de pesos e medidas.

Da sua obra publicada salientam-se Observações sobre o plano de ataque e defesa do reino de Portugal em relação à sua Geografia e topografia (1801), Discurso em que se trata  do Elogio da Nação Portuguesa, Provas da Superioridade do seu Espírito  e Carácter Militar (1811) e Considerações militares tendentes a investigar as localidades parciais cuja topografia se precisa conhecer.

Em 1968 (Foto: Arnaldo Madureira, Arquivo Municipal de Lisboa)

Em 1968 (Foto: Arnaldo Madureira, Arquivo Municipal de Lisboa)

Freguesia de Carnide

Saldanha, de Belver às Avenidas Novas

Freguesia da Misericórdia

Rua Marechal Saldanha – Freguesia da Misericórdia                                                   (Foto: Rui Pereira)

João Carlos de Saldanha Oliveira e Daun , mais conhecido como Duque ou Marechal Saldanha dá nome a duas artérias de Lisboa, uma rua na freguesia da Misericórdia desde 1885 e,  uma praça nas freguesias das Avenidas Novas e de Arroios desde 1902.

A Rua Marechal Saldanha, com a legenda «1790 – 1876», foi um topónimo atribuído por edital municipal de 31 de dezembro de 1885, 9 anos após a morte do homenageado, na Rua da Cruz de Pau que por sua vez resultara da junção da Rua da Cruz de Pau e do Largo da Cruz de Pau num arruamento único pelo edital do Governo Civil de Lisboa de 1 de Setembro de 1859.

A Praça do Duque de Saldanha nasceu mais tarde, pela publicação do edital camarário de 22 de agosto de 1902, na que era a Praça Mouzinho de Albuquerque (edital de 03/09/1897)  e antes fora a Rotunda das Picoas. Foi neste arruamento que em 1889  foi erigido um monumento em sua homenagem que foi oficialmente inaugurado em 1909 pelo Rei D. Manuel II.

De seu nome completo João Carlos Gregório Domingos Vicente Francisco de Saldanha Oliveira e Daun (Lisboa/17.11.1790 – 20.11.1876/Londres), neto materno do Marquês de Pombal, foi  militar desde 1806 e político agraciado com o título de Duque em 1846, que se notabilizou no combate contra as invasões francesas (1807-1813), na Guerra contra Artigas que lhe valeu em 1821 ser nomeado capitão-general da Província do Rio Grande do Sul, bem como nas guerras liberais tendo em 1833 sido nomeado por  D. Pedro chefe do Estado-Maior do Exército. Como político desempenhou os cargos de chefe de governo nos anos de 1835, 1846-49, 1851-56 e 1870, de ministro das pastas da Guerra (1826) e dos  Negócios da Fazenda e, ainda foi Embaixador de Portugal em Londres.

Praça Duque de Saldanha - Fregeusia de Arroios e mais qqq coisa

Praça Duque de Saldanha – Freguesias das Avenidas Novas e de Arroios                              (Foto: Rui Mendes)

 

A Rua do Dantas, pim!

Freguesias das Avenidas Novas e de Campolide (Foto: José Carlos Batista)

Freguesias das Avenidas Novas e de Campolide (Foto: José Carlos Batista)

Júlio Dantas, que nos dias de hoje é mais conhecido pelo poema-manifesto que Almada Negreiros lhe dedicou em 1915, passou a nome de rua lisboeta pelo Edital de 17/12/1963, como Rua Dr. Júlio Dantas, com a legenda «Escritor e Eminente Académico/1876 – 1962», crismando assim o arruamento que era conhecido como Rua A à Rua Ramalho Ortigão, ou Rua A à Rua Fialho de Almeida ou ainda, Rua A à Avenida Ressano Garcia.

Júlio Dantas (Lagos/19.05.1876 – 25.05.1962/Lisboa),  estudou no Colégio Militar e em 1900 formou-se em Medicina na Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa, com a tese «Pintores e poetas de Rilhafoles», e dois anos depois ingressou no Exército como oficial médico, no campo da psiquiatria, mas rapidamente abandonou esta área, tendo-se destacado mais como dramaturgo e político.

Das suas obras destaque-se A Severa (1901)A Ceia dos Cardeais (1902)Os Crucificados (1902), A CastroRosas de Todo o Ano (1907) ou O Reposteiro Verde (1921), que alcançaram grande êxito, sendo que a primeira enunciada serviu de base ao 1º filme sonoro português, de Leitão de Barros, em 1931. Consoante as épocas, Júlio Dantas escrevia uma peça que se adequava e assim, quando da Lei da Separação do Estado e da Igreja de Afonso Costa  publicou a peça A Santa Inquisição (1910); com o Estado Novo lançou Frei António das Chagas, um «elogio de quem se sacrifica, se imola pela Pátria» e, com o final da II Guerra, prevendo a queda do salazarismo introduziu na peça Antígona (1946) uma crítica velada a Salazar equivalendo-o ao personagem Creonte. Do ponto de vista estilístico, a sua obra situa-se entre o romantismo e o parnasianismo, sendo predominantes  os temas históricos no teatro e nas novelas , sendo Nada (1896) o seu 1º livro de poesia e, destacando-se ainda a sua novela Pátria Portuguesa (1914) e, as diversas colaborações que manteve em jornais e revistas. 

Foi ainda Comissário do Governo junto do Teatro D. Maria II, Professor de História da Literatura e Diretor da Secção Dramática no Conservatório Nacional bem como, um dos fundadores da Sociedade de Escritores e Compositores Teatrais Portugueses (SECTP) de que também foi o 1º presidente, assim como se tornou desde 1908 sócio da Academia das Ciências de Lisboa de que viria a ser Presidente a partir de 1922.

Na política, foi deputado na Monarquia (1905),  ministro da Instrução Pública e dos Negócios Estrangeiros na Primeira República (1921-1923) e, no Estado Novo, deputado, embaixador (no Brasil) e Presidente da Comissão Executiva dos Centenários (1938-1940). 

Júlio Dantas casou-se no registo civil e determinou para si uma cerimónia fúnebre exclusivamente civil para além de ter sido agraciado com o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade do Brasil (1949) e de Coimbra(1954), bem como com a Ordem Militar de Santiago da Espada (1920 e 1930) e a Ordem Militar de Cristo (1930).

na Ilustração Portuguesa 14.03.1904

na Ilustração Portuguesa de 14.03.1904

 

Rua Venceslau de Morais no seu 160º aniversário

Venceslau de Morais-02 -FOTO DO 1ºLIVRO

Neste dia em que o oficial da Marinha e escritor Venceslau de Morais faria 106 anos, recordamos a rua a que dá nome na Freguesia de Santo António – arruamento  entre a Rua Rodrigo da Fonseca e a Rua de Artilharia Um -, sete anos após o seu falecimento, através do Edital de 20/02/1936.

Nascido Wenceslau José de Sousa de Moraes (Lisboa/30.05.1854 – 01.07.1929/Tokushima- Japão), no nº 4 da Rua Cruz do Torel, destacou-se mais como o escritor de viagens que divulgou os costumes do Japão com títulos como Doi-Nippon, O Culto do Chá, Traços do Extremo Oriente e Relance da História do Japão, país onde aliás se fixou por mais de 30 anos.

Numa nota biográfica que lhe pediram, escreveu «Sou português. Nasci em Lisboa (a capital do país) no dia 30 de Maio de 1854. Estudei o curso de Marinha e dediquei-me a oficial de marinha de guerra. Em tal qualidade fiz numerosas viagens, visitando as costas de África, da Ásia, da América, etc. Estive cerca de cinco anos na China, tendo ocasião de vir ao Japão a bordo de uma canhoneira de guerra e visitando Nagasaki, Kobe e Yokohama. Em 1893, 1894, 1895 e 1896 voltei ao Japão, por curtas demoras, ao serviço de Macau, onde estava comissionado na capitania do porto de Macau. Em 1896 regressei a Macau, demorando-me por pouco tempo e voltando ao Japão (Kobe). Em 1899 fui nomeado cônsul de Portugal em Hiogo e Osaka, lugar que exerci até 1913».

Casa onde nasceu no nº 4 da Rua Cruz do Torel

Casa onde nasceu no nº 4 da Rua Cruz do Torel

Venceslau de Morais completou a Escola Naval em 1875 e ingressou na Marinha portuguesa. Em 1885 foi pela 1ª vez a Macau e aí se estabeleceu como imediato da capitania do Porto e professor do Liceu de Macau, para além de ter feito amizade com Camilo Pessanha e casado com Vong-Io-Chan (Atchan), uma chinesa de quem teve dois filhos.

Em 1889 viajou para o Japão, país ao qual regressará várias vezes no exercício das suas funções nos anos seguintes, até em 1898 abandonar mulher e filhos para se mudar definitivamente para o Japão, como cônsul em Kobe, crescendo também a sua ocupação literária e jornalística – nomeadamente, nas revistas Branco e Negro, Brasil-Portugal ou Serões - para divulgar o quotidiano japonês e, mantendo um relacionamento amoroso com a japonesa Ó-Yoné Fukumoto e, após a morte desta, com a sua sobrinha Ko-Haru. Venceslau de Morais determinou para si um funeral budista com a suas cinzas ao lado das de Ko-Haru no cemitério de Chionji.

A TAP deu o seu nome a uma das suas aeronaves e, no Japão teve direito a um estátua na praça principal de Kobe, bem como na principal avenida de Tokushima, onde existe também  um Museu Wenceslau de Moraes.

Edital  Wenceslau de Morais

 

A Travessa da Manutenção Militar do Estado

Freguesia do Beato  (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia do Beato
(Foto: Sérgio Dias)

Tal como a Rua da Manutenção, a Travessa da Manutenção consagra a Manutenção Militar, um estabelecimento fabril do exército português destinado a assegurar o fornecimento de víveres às forças militares.

 Ambos os topónimos começaram por ser «da Manutenção do Estado» mas viram a sua denominação encurtada por deliberação camarária de 22/06/1921 e Edital de 30/06/1921.

A Manutenção Militar foi criada pelo Decreto de 11 de junho de 1897,  em conformidade com o disposto no art.º 4.º da Carta de Lei de 19 de Julho de 1888, e foi instalada no antigo Convento de freiras carmelitas ou Grilas, no Beato. Já no ano anterior, a 13 de janeiro, o Governo determinara que o Ministério da Guerra tomasse posse do edifício, já em adaptação pelo risco do Engº Renato Baptista, que sobre essa matéria publicou o livro Manutenção Militar. A Manutenção incluía uma fábrica de moagem, de panificação e de bolacha, depósitos, armazéns, cocheiras e cavalariças.

O primeiro diretor da Manutenção Militar foi o Comandante Augusto Eugénio Alves, no período de 1897 a 1900, mas a toponímia lisboeta apenas regista um outro diretor, Artur Xavier da Mata Pereira, que a dirigiu de 1942 a 1944.

No entanto,a responsabilidade pela alimentação militar foi atribuída ao Estado em 1772.  Trinta e nove anos depois, em 1811, foi criado o Comissariado de Víveres do Exército e, cinquenta anos depois, por iniciativa do então Ministro da Guerra, Marquês de Sá da Bandeira, iniciou-se a a título experimental o fabrico e fornecimento de pão ao Exército por administração direta do Estado sendo criada então no ano seguinte a Padaria Militar,  no Aterro da Boa Vista, junto à rocha do Conde de Óbidos, que virá a originar a Manutenção Militar do Estado. O 1.º Regulamento da Manutenção Militar nasceu em 1907 e nele se especifica «que é um estabelecimento com sede em Lisboa (Beato) com sucursais e depósitos noutros pontos do País, destinado à preparação e distribuição de víveres ao Exército e a outras instituições oficiais.»

Placa Tipo II (Foto: Sérgio Dias)

Placa Tipo II
(Foto: Sérgio Dias)

A Rua do Comandante do Caça – Minas Augusto de Castilho

Freguesia de Arroios e Penha de França (Foto: Artur Matos)

Freguesias de Arroios e da Penha de França (Foto: Artur Matos)

A Azinhaga do Areeiro passou por deliberação camarária de 08/08/1924 a designar-se Rua Carvalho Araújo, 6 anos após o falecimento deste oficial da Marinha, a combater os alemães em plena I Guerra Mundial e, no mesmo ano em que na sua terra de infância foi homenageado com um monumento do escultor Anjos Teixeira e a atribuição do seu nome a uma Avenida.

O homenageado é José Botelho de Carvalho Araújo (Porto/18.05.1881 – 14.10.1918/mar dos Açores), oficial de marinha portuguesa que morreu no seu posto em combate contra os alemães e, a título póstumo, atingiu a patente de capitão-tenente. No dia 14 de outubro de 1918, quando Carvalho Araújo comandava o Caça – Minas Augusto de Castilho no mar dos Açores, em escolta ao vapor São Miguel, para proteger o barco com 206 pessoas de ser afundado pelo submarino alemão U 139, comandado pelo às dos ases dos submarinos Lothar von Arnauld de la Perière, atacou a unidade alemã e aguentou durante 2 horas, apesar de apenas dispor de duas peças de artilharia de proa com as quais investiu contra o submarino poderosamente armado de 6 tubos lança-torpedos e de dois canhões de tiro rápido com calibre de 150 milímetros, surpreendendo assim o comandante do submarino e permitindo que o São Miguel se afastasse.

Refira-se ainda que Carvalho Araújo era um republicano que colaborou em vários jornais, nomeadamente no Vilarrealense, e que após a implantação da República integrou a Assembleia Nacional Constituinte eleito por Vila Real. Carvalho Araújo foi condecorado com a Medalha de Cobre de Filantropia e caridade (socorros e naufrágios), a Medalha Militar de Prata de comportamento exemplar, a Medalha de Prata comemorativa das campanhas do Exército Português – com a legenda «Sul de Angola 914/915» – e, a título póstumo, com a Cruz de Guerra de 1ª classe, a Medalha de Prata comemorativa das campanhas do Exército Português no mar 1916/17/18 e o 2º Grau da Ordem da Torre e Espada.

O troço desta Rua Carvalho Araújo a norte da Alameda D. Afonso Henriques passou a denominar-se Rua Abade Faria no ano de 1957, por Edital municipal de 7 de fevereiro.

Freguesias de Arroios e da Penha de França

Freguesias de Arroios e da Penha de França