Ser ou não ser Carlos Daniel

Os moradores do Bairro dos Retornados solicitaram à edilidade, no final da década de 90 do século XX, que a denominação do Bairro fosse alterada para Bairro do Oriente e tal veio acontecer, até com uma inauguração de novos topónimos nos seus arruamentos, no dia 7 de maio de 1999, neles consagrando nomes do panorama teatral e musical português, a saber, os cantores António Variações e Carlos Paião, o compositor Jaime Mendes, o artista plástico e ilustrador Fernando Bento, o Palhaço Luciano e, os atores Mário Viegas e Carlos Daniel, cabendo a este último a Rua A do Bairro dos Retornados.

De seu nome completo Carlos Daniel da Silva Gonçalves Fernando (Lisboa/11.05.1952 – 09.04.1996/Lisboa), nasceu no rés-do-chão do nº 17 da Travessa da Memória, na Ajuda e, sonhou ser padre, decorador e finalmente ator, palco de criação que abraçou para toda a sua vida e que só um ataque cardíaco fulminante aos 43 anos interrompeu.

Carlos Daniel foi um ator de talento excecional que se diplomou com o 1º prémio no Curso Superior de Teatro e Encenação do Conservatório de Lisboa mas que ainda antes, aos 17 anos, se estreou na Antígona de Sófocles, no palco do Teatro Popular de Lisboa e, no ano seguinte, ingressou na Companhia Metrull.

Aos 20 anos foi para o elenco do Teatro Experimental de Cascais (TEC) e mais tarde, em 1975, com Carlos César, António Assunção e Francisco Costa fundou o TAS – Teatro de Animação de Setúbal, no qual permaneceu até 1978, ano em que integrou o Teatro Nacional D. Maria II, em cujo palco principal representou 17 peças, entre as quais O Alfageme de Santarém de Almeida Garrett, Felizmente Há Luar de Luís de Sttau Monteiro, O Traído Imaginário de Molière, As Três Irmãs de Tchekov, Jardim Zoológico de Cristal de Tenesse Williams, Fígados de Tigre de Gomes de Amorim, O Gebo e a Sombra de Raúl Brandão  ou Mãe Coragem de Brecht. Foi ainda no palco do Nacional que foi o protagonista de D. João de Molière e em 1995, de Ricardo II de Shakespeare.

Realizou o sonho da sua vida de ator ao encarnar Hamlet, encenado por Carlos Avilez para a Fundação Gulbenkian e, também foi protagonista de Les Galanteries du Duc d’Ossone, Vice-Roi de Napoles, de Jean-Marie Villégier, apresentada no Théâtre Municipal de Caen e no Théâtre National de Chaillot em 1988, bem como integrou o Amor de Perdição encenado por Ricardo Pais para a Europália 91.

Na televisão, Carlos Daniel participou em programas de teatro, de poesia, em telenovelas (Chuva na Areia, Desencontros e, Pedra Sobre Pedra para a Globo do Brasil) e ainda séries, para além de no cinema ter dado corpo ao rei louco D. Afonso VI em O Processo do Rei (1988) e ao operário suburbano de O Fim do Mundo (1993), ambos do realizador João Mário Grilo, para além de um português galerista no telefilme francês L’Absent (1996).

Freguesia do Parque das Nações (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia do Parque das Nações
(Foto: Sérgio Dias)