A engenharia sísmica em destaque numa rua de Carnide

Placa Tipo II

A somar aos 49 engenheiros inscritos na toponímia de Lisboa, está uma figura de referência da engenharia das estruturas a nível nacional e internacional e, particularmente da engenharia sísmica, o Engº Ferry Borges, cujo nome ficou perpetuado num novo arruamento da Quinta das Camareiras /Azinhaga do Serrado, na freguesia de Carnide –  na Rua D à Avenida Prof. Francisco da Gama Caeiro- , firmado pelo Edital municipal de 15/12/2003, tal como o professor universitário João Morais Barbosa passou a denominar a Rua A .

A sugestão do seu nome para topónimo de Lisboa surgiu na Comissão Municipal de Toponímia de Lisboa por um ofício do Eng.º Joaquim Moura Esteves que em si congregava ofícios do Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC), da Ordem dos Engenheiros, da Sociedade Portuguesa de Engenharia Sísmica, da Associação Portuguesa de Engenharia de Estruturas e do Grupo Português de Betão Estrutural.

Júlio Ferry do Espírito Santo Borges (Lisboa/1922 – 1993/Lisboa) foi um engenheiro que se distinguiu como investigador do Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC), seu diretor durante 10 anos e, em seguida, Presidente do seu Conselho Consultivo e ainda, como um especialista em engenharia sísmica.

O LNEC nasceu em 1946 e logo no ano seguinte o Eng.º Ferry Borges começou a trabalhar lá como investigador, tendo também desempenhado as funções de chefe do Serviço de Edifícios e Pontes (1962), chefe da Secção de Estruturas (1969), Subdiretor (1969), Diretor (1974) e Presidente do Conselho Consultivo (1984). Distinguiu-se na engenharia sísmica, através da regência de cursos sobre «Segurança de Estruturas» e «Engenharia Sísmica» que originaram dois livros em coautoria com os engenheiros Mário Castanheta e Artur Ravara, bem como na organização de um Simpósio sobre a Ação dos Sismos (1955) de que resultou a publicação em 1958 do 1º regulamento antissísmico português, assim como dinamizou a instalação no campus do LNEC de uma grande plataforma sísmica, que enriqueceu o parque científico de Lisboa e é única em Portugal, integrando a lista das grandes instalações cientificas europeias de interesse comunitário, sendo hoje o Centro de Estudos e Equipamentos de Engenharia Sísmica do LNEC, sediado no Edifício Ferry Borges do LNEC, para além de ter sido fundador da Sociedade Portuguesa de Engenharia Sísmica, do Grupo Português de Pré-Esforçado e do Grupo Português de Engenharia de Estruturas e ainda, diretor e vice-presidente da Associação Internacional de Engenharia Sísmica e vice presidente da Associação Europeia de Engenharia Sísmica e ainda, vice-presidente da Federação Internacional do Pré-Esforçado.

Vários projetos de betão armado da autoria deste professor catedrático estão patentes em Lisboa, como é o caso dos edifícios da lota do Porto de Pesca, do Palácio da Justiça ou da sede do Banco Espirito Santo e, refira-se que também lecionou no Instituto Superior Técnico, de 1945 a 1947 e, como catedrático, a partir de 1981.

De entre as inúmeras funções que preencheram a sua carreira foi ainda vogal do Conselho Superior de Obras Públicas (1955), relator do comité Conjunto de Segurança Estrutural (1972-1985), membro do Conselho de Administração do Comité Euro-Internacional do Betão (1977-1983), Conselheiro da Universidade Técnica de Lisboa (1984).

Foi agraciado com os doutoramentos Honoris causa do Instituto Superior Técnico (1982), da Universidade Federal do Rio de Janeiro (1989) e da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (1991), para além de ter recebido o Prémio de Mérito Internacional de Pontes e Estruturas da Associação Internacional de Pontes e Estruturas (1985) e ter sido condecorado com a Ordem do Cruzeiro do Sul (Brasil), a Ordem Nacional de Mérito francesa e, em Portugal, a título póstumo, com a Ordem de Santiago de Espada e Ordem do Infante D. Henrique (1995).

A Alameda da Grande Alma

Placa Tipo IV – Freguesia do Lumiar

Porque amanhã é o Dia Internacional da Tolerância evocamos hoje um arruamento alfacinha ladeado de árvores que é a Alameda Mahatma Gandhi.

Num troço da Azinhaga do Jogo da Bola foi atribuído por Edital de 18 de Maio de 1992 o nome da Grande Alma (maha atma) Gandhi, falecido 44 anos antes.

Mohandas Karamchand Gandhi (Índia – Porbandar/02.10.1869 – 30.01.1948/Nova Deli – Índia), foi um líder político que advogou o princípio da resistência passiva e uma estratégia de não-violência (satyagraha) e que após anos de lutas pelos direitos dos hindus na África do Sul conseguiu que a Índia se tornasse um país independente, tendo iniciado em 1919 movimentações no seu país natal para expulsar os ingleses e, concretizado o seu sonho após 28  anos, em 1947, com a criação da União Indiana.

A Índia tinha cooperado com a Inglaterra durante a guerra e, não obstante via as liberdades civis serem reduzidas pelo que em 1919, Gandhi promoveu manifestações contra os poderes arbitrários do Rowlatt Act com um dia de greve geral. Publicou também dois semanários, o Índia Jovem em língua inglesa e, o Navajivan em gujarati, com que iniciou uma campanha de âmbito nacional de não cooperação com o governo britânico. Depois, realizou várias viagens ao longo de todo o território hindu, para consciencializar as pessoas para a necessidade da prática da desobediência civil e do uso da não-violência. Gandhi exibia os dedos da sua mão e sintetizava o seu programa em cinco pontos: igualdade; nenhum uso de álcool ou droga; unidade hindu-muçulmano; amizade; e igualdade para as mulheres.

Mahatma Gandhi, como ficou conhecido, era licenciado em Direito pela University College de Londres e, foi um líder político indiano acarinhado mas que um hindu radical assassinou a tiro por ele ter reconhecido a independência do Paquistão e, a União Indiana não ser um estado de confissão hinduísta.

O Largo Agostinho da Silva no Dia Mundial da Filosofia

Hoje comemora-se o Dia Mundial da Filosofia e é por isso a ocasião apropriada para falarmos do Largo lisboeta dedicado a Agostinho da Silva, que aliás foi também inaugurado no mês de Novembro mas no ano de 1996.

Este Largo delimitado pelas Ruas Marcos Portugal, do Monte Olivete e Professor Branco Rodrigues nasceu pelo Edital municipal de 24/09/1996 e, em resultado de uma Moção de Pesar da Câmara, pertinho da Praça das Flores e, da Travessa do Abarracamento de Peniche onde o filósofo residiu desde o seu regresso a Portugal em 1969.

George Agostinho Baptista da Silva (Porto/13.02.1906 – 03.04.1994/Lisboa), descendente de alentejanos e algarvios, foi um filósofo, professor universitário e investigador, novelista e poeta que passou grande parte da sua vida no Brasil. Defendeu a Liberdade como a mais importante qualidade do ser humano e combinou panteísmo, milenarismo e ética da renúncia no seu pensamento. Considerou bactéria perigosa a mania dos homens e das mulheres em mandar nos outros homens e mulheres e, que o homem deve ter a liberdade de ser um criador sem nenhuma espécie de inibição.

Licenciado em Filologia Clássica com 20 valores (1928), colaborou desde logo e até 1938 na revista Seara Nova e publicou, entre outras obras, a sua dissertação de doutoramento Sentido Histórico das Civilizações Clássicas (1929), A Religião Grega (1930), Glosas (1934), Conversação com Diotima (1944), Sete cartas a um jovem filósofo (1945), Reflexão (1957), Um Fernando Pessoa (1959), As aproximações (1960), Fantasia Portuguesa para Orquestra de História e de Futuro (1981) e Educação de Portugal (1989).

Em 1931 foi encarregado pela Junta Nacional de Educação de fundar o Centro de Estudos Filológicos da Universidade de Lisboa e, a partir de 1933, foi professor do ensino secundário oficial, do qual foi demitido em 1935 por se recusar a cumprir a «Lei Cabral», com a qual o Estado Novo obrigava todos os funcionários públicos a declararem por escrito que não participavam em organizações secretas e se comprometiam a nunca seguir a ideologia comunista. Agostinho da Silva considerava esta lei um atentado à sua liberdade de pensamento e saiu do país, com uma bolsa do Ministério das Relações Exteriores de Espanha para investigar no Centro de Estudos Históricos de Madrid. A iminência da Guerra Civil Espanhola fez com que regressasse em 1936 dedicando-se então à criação do Núcleo Pedagógico Antero de Quental (1939) e, a partir do ano seguinte começa a publicar Iniciação: cadernos de informação cultural. É preso pela PIDE em 1943 e no ano seguinte abandona o país em direção ao Uruguai, Argentina e Brasil. A partir de 1947 instala-se no Brasil e ensina em diversas universidades do Brasil (Fluminense, da Paraíba, Pernambuco, Bahia), sendo também o impulsionador de várias, como a Universidade Federal de Paraíba, a de Santa Catarina (onde foi Diretor de Cultura do Estado), a de Brasília (onde criou e dirigiu o Centro Brasileiro de Estudos Portugueses), para além de ter criado também o Centro de Estudos Africanos e Orientais da Universidade Federal da Bahia e o Centro de Estudos Goianos. Em 1958 foi-lhe mesmo concedida a naturalidade brasileira.

No ano da morte de Salazar, da sua substituição por Marcelo Caetano e da chegada do homem à Lua, Agostinho da Silva regressa a Portugal para escrever e ensinar em diversas universidades portuguesas, para além de vir a dirigir o Centro de Estudos Latino-Americanos da Universidade Técnica de Lisboa (1983), de ser consultor do Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, e de ter conduzido uma série de treze entrevistas para a RTP1 sob o título de Conversas Vadias (1990).

O Homem da Maratona em Lisboa

Freguesia dos Anjos – futura Freguesia de Arroios

Francisco Lázaro foi o primeiro desportista a ficar consagrado na toponímia de Lisboa, pelo Edital municipal de 09.12.1924 e, com a legenda «Pedestrianista Falecido em Estocolmo em 1912», naquela que era antes a Travessa do Borralho e onde, desde 1 de Dezembro de 1923, tinha sede uma instituição desportiva, o Lisboa Ginásio Clube.

Foi a Francisco Lázaro que coube empunhar o estandarte português no desfile de abertura dos Jogos Olímpicos de Estocolmo de 1912 e, dar a conhecer a recém-oficializada bandeira portuguesa, na primeira delegação portuguesa a uns Jogos Olímpicos, chefiada pelo esgrimista Fernando Correia e que também integrava Armando Cortesão e António Stromp no atletismo, e os lutadores António Pereira e Joaquim Vital.

A Maratona como prova olímpica evoca o drama do lendário soldado grego Phillipiades, que morreu de esgotamento físico, após ter percorrido a distância que medeia a localidade de Maratona de Atenas, para anunciar a vitória dos gregos sobre os Persas e, Lázaro foi também vítima desta prova disputada no dia 14 de Julho de 1912, sob um sol abrasador e 32º de temperatura, em que ele correu de cabeça descoberta e untado de sebo o que lhe impedia a transpiração, caindo ao quilómetro 29 e vindo a falecer na madrugada do dia seguinte. A sua morte por desidratação, aos 24 anos e, a primeira dos Jogos Olímpicos da Era Moderna, causou em Portugal uma profunda consternação e o mito de uma medalha de ouro inalcançável.

Francisco Lázaro (Lisboa/21.01.1888 – 15.07.1912/Estocolmo), era carpinteiro de uma fábrica de carroçarias de automóveis na Travessa dos Fiéis de Deus (Bairro Alto) e, sem treinador, corria diariamente de Benfica até S. Sebastião da Pedreira, após o trabalho. Em 1908 começou a ser notado nas competições pedestres ao participar na primeira Maratona Nacional, uma corrida de 24 Km. Em Março de 1911 transferiu-se do Velo Clube de Lisboa para o Sport Lisboa e Benfica e, em 7 de Maio ganhou o primeiro Corta-Mato Nacional (realizado no Lumiar) com 20m e 25s e, logo em 18 de Junho ganhou a Maratona nos Jogos Olímpicos Nacionais com 3h 9m e 53s. Ainda em 1911, a 9 de Julho obteve outra vitória na prova de 30 Km do Grande Prémio do Sport Grupo Progresso, com o tempo de 2h e 10 m e, no início de 1912 transferiu-se do Benfica para o Lisboa Sporting Clube (fundado no ano anterior) e correu a Maratona Nacional, na distância de 42 800m, com a meta colocada no topo da Calçada de Carriche, com o tempo de 2h 52m 8s o que augurava um bom resultado em Estocolmo, já que o vencedor da maratona olímpica de Londres, quatro anos antes, conseguira o tempo de 2h55m.

Francisco Lázaro dá também nome ao estádio do Clube Futebol de Benfica, na Rua Olivério Serpa e, o escritor José Luís Peixoto inspirou-se nele para o seu romance Cemitério de Pianos.

A azinhaga da quinta de Ana Joaquina Salgado

Freguesia de Marvila

Lisboa cidade capital do país ainda guarda muito das suas memórias rurais, nomeadamente nas 58 azinhagas que nela sobrevivem e, a Azinhaga da Salgada é uma delas.

Nesta artéria que hoje se estende da Rua da Quinta dos Ourives ao Alto das Conchas está a entrada para a Quinta da Salgada ou Salgadas, uma referência histórica de Marvila, mais precisamente do sítio do Alto das Conchas ou Alto de Chelas, pelo que esta Azinhaga da Salgada, foi também por vezes referida como Azinhaga das Salgadas ou Azinhaga das Conchas. O seu nome é recolhido na Quinta mais próxima, como era costume acontecer para nomear as azinhagas, que eram os caminhos rurais entre as quintas. Sabemos também que no final do século XIX, este arruamento foi alargado mediante um projeto camarário de Augusto César dos Santos, Alberto Pedro da Silva e do condutor de obras Pedro Joyce, datado de 14 de Outubro de 1899.

A Quinta da Salgada, também conhecida como Quinta das Conchas, é uma construção de palácio, ermida e jardins do século XVIII cuja origem toponímica radica no nome daquela que foi a sua proprietária, D. Ana Joaquina Salgado. Segundo um auto de habilitação de herdeiros de 1790, existente na Torre do Tombo, D. Ana Joaquina Salgado,  era natural do Recife (Brasil) e filha do mestre de campo José Vaz Salgado e de D. Teresa Maria de Jesus, casada com o capitão António Pinheiro Salgado, com quem teve o filho José Pinheiro Salgado.

Pela proximidade, a edilidade também atribuiu em 1999 o Largo da Quinta das Salgadas, pelo Edital de 7 de Dezembro.

Freguesia de Marvila

O Gosto pela Música de João de Freitas Branco numa Rua de Lisboa

Freguesia de São Domingos de Benfica

João de Freitas Branco chegou aos ouvidos dos portugueses de 1956 a 1985, pela antena da Rádio pública portuguesa, como o autor do programa de rádio O Gosto pela Música. E passado pouco mais de um mês sobre o seu falecimento, pelo último edital de toponímia de 1989, foi consagrado num troço da Rua Soeiros (compreendido entre a Rua Mateus Vicente e a Avenida Lusíada), junto com o pintor João Hogan e a Cidade de Rabat que ocuparam os outros dois troços do mesmo arruamento.

João Pedro de Freitas Branco (Lisboa/10.01.1922 – 17.11.1989/Caxias) que este ano completaria 90 anos, foi um matemático e musicólogo, filho único do compositor português Luís de Freitas Branco e sobrinho de Pedro de Freitas Branco que também têm placa toponímica em Lisboa.

Desde criança que estudou música e a partir dos 16 anos começou a ajudar o seu pai como crítico musical do jornal O Século e depois de concluir o curso do Conservatório Nacional iniciou funções de assistente de programas musicais na Emissora Nacional, em 1944, ano em que também concluiu a Licenciatura em Ciências Matemáticas e entrou no grupo de investigação matemática dirigido por Rui Luís Gomes. João de Freitas Branco desenvolve uma carreira preenchida em que integra os fundadores da Juventude Musical Portuguesa (1948), acompanha Stravinsky quando este esteve em Lisboa, rege o curso de História da Música na Exposição Mundial de 1967 no Canadá e também na Fundação Gulbenkian, dirige o Teatro de São Carlos (de 1970 a 1974) e mais tarde é o Administrador-Diretor Artístico e da Produção (1985), é o Diretor-Geral dos Assuntos Culturais e Secretário de Estado da Cultura e Educação Permanente (em 1974 e 1975).

João de Freitas Branco que abasteceu a produção musicológica portuguesa com uma História da música portuguesa (1959), Alguns aspectos da música portuguesa contemporânea (1960), Viana da Mota uma contribuição para o estudo da sua personalidade e da sua obra (1972), A música na obra de Camões (1979), Camões e a música (1982), Chopin um improviso em forma de diálogo (1999), foi Doutor Honoris Causa em Filosofia pela berlinense Universidade Humboldt e, em 1987 foi agraciado com a Medalha de Mérito da Secretaria de Estado da Cultura.

Prista Monteiro, o médico escritor

Prista Monteiro nasceu há 90 anos em Lisboa, na Ajuda e, desde há 15 anos que está na toponímia de Lisboa, bem perto de outro dramaturgo, Virgílio Martinho, tanto mais que ambos deram nome a ruas da Urbanização da Horta Nova  pelo Edital municipal de 30/09/1997.

Helder Prista Monteiro (Lisboa/30.05.1922 – 30.10.1994/Lisboa) foi um médico especialista em pneumologia, com trabalhos publicados nesta área e que, no Bairro do Alto de Santo Amaro onde nasceu, montou consultório e tornou-se o médico de muitos dos seus amigos de infância, dos pais deles e, de muitos funcionários da Carris dada a proximidade de localização desta empresa. Durante 30 anos foi também o médico de pneumologia da Associação de Socorros Mútuos dos Empregados no Comércio de Lisboa e, a constante subida das escadinhas que vão da Rua da Madalena à sede daquela Associação inspiraram-lhe A Caixa (1980), que tal como a sua primeira peça «Os Imortais» (escrita em 1959 mas só publicada em 1968), foram adaptadas ao cinema por Manoel de Oliveira (como Inquietude e A Caixa).

É que em paralelo com a medicina Prista Monteiro dedicou mais de 30 anos da sua vida a ser escritor de peças de teatro, sendo em Portugal o representante do que se convencionou designar «teatro do absurdo», na linha de Ionesco e Beckett. Destaque-se A Rabeca (1960), O Meio da Ponte (1960), O Anfiteatro (1960) e A Bengala, escrita em 1960 e publicada em 1971, obra proibida pela Censura e que recebeu em 1974 o Prémio Marcelino Mesquita da Sociedade Portuguesa de Escritores Médicos. Em 1972, escreveu O Candidato, peça que a RTP emitiu passados 4 anos e, em 1973, publicou no Expresso o seu primeiro conto «Não é proibido morrer», para além de ensinar no Conservatório, até 1976, os cursos de «Anatomia aplicada ao Teatro» e «Anatomia aplicada ao Ballet».

Prista Monteiro publicou ainda Folguedo do Rei Coxo (1961) e O Fio (1980) – que foi Prémio Marcelino Mesquita em 1983 -, tendo ambas as peças integrado um repertório nacional de Teatro por indicação da Secretaria de Estado da Cultura. São também obra sua Os Faustos (1979), Não é preciso ir a Houston (1986) – que foi Menção Honrosa da SEC em 1989 – e, O Mito (1988) que foi premiado pelo Círculo de Cultura Teatral do Porto e pela Câmara Municipal de Lisboa com o Prémio Eça de Queiroz. Refira-se ainda as peças A Vila (1984) – que obteve o prémio comemorativo do 60º aniversário da Sociedade Portuguesa de Autores e o Prémio de Teatro da Sociedade de Escritores Médicos-, Naturalmente! Sempre! (1988), De Graus (1989) – que recebeu o Prémio Garrett 89 da SEC, a integração no Repertório da SPA em 1991 e a subida ao palco pela Companhia de Teatro de Almada em 1994 – sendo a última edição de Prista Monteiro o Auto dos Funâmbulos (1994).

Freguesia de Carnide (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de Carnide
(Foto: Sérgio Dias)

O galã António Vilar no bairro dos actores da Ameixoeira

O dedicado cronista de Lisboa Appio Sottomayor, enquanto membro da Comissão Municipal de Toponímia de Lisboa propôs a inclusão do nome de António Vilar na toponímia da cidade e, tal veio a suceder pelo Edital de 14 de Julho de 2004, que o colocou nas então novas ruas do Vale da Ameixoeira, conjuntamente com os também actores Arnaldo Assis Pacheco, José Viana, Raul de Carvalho e Varela Silva, que assim se juntaram às ruas Fernanda Alves e Fernando Gusmão que haviam sido dadas uns 3 meses antes, pelo Edital de 19 de Abril de 2004.

Foi desta forma que a edilidade lisboeta constituiu no Vale da Ameixoeira um novo bairro de actores e, de outras figuras ligadas ao teatro, a que se juntou a actriz Glicínia Quartin, pelo edital de 16/09/2009.

Nascido na freguesia de Alcântara como António Justiniano dos Santos Júnior (Lisboa/31.10.1912 – 15.08.1995/Madrid), foi o mais internacional galã do cinema português. Estreou-se nos palcos em 1931 na peça Romance, no Nacional e, no mesmo ano conseguiu um pequeno papel no primeiro filme sonoro português, Severa, de Leitão de Barros. Em 1934, no filme Gado Bravo, de António Lopes Ribeiro – de quem havia sido colega no Liceu Pedro Nunes – desempenhou as mais variadas funções, desde assistente a caracterizador, mas será como Carlos Bonito no Pátio das Cantigas (1941- 42), de Ribeirinho, que passará a ter apenas papel de actor e de galã, encarnando a partir daí o Simão Botelho de Amor de Perdição (1943), o Primo Basílio (1959), D. Pedro de D. Inês de Castro (1944), D. Juan (1950), Cristóvão Colombo (1950) ou, Camões que lhe valeu o Prémio do SNI ao Melhor Actor em 1946.

António Vilar também fez inúmeros filmes noutros países, como Espanha, França, Itália, Argentina e Brasil, sendo que entre 1946 e 1978, protagonizou perto de 40 filmes castelhanos e, nessa carreira internacional contracenou com nomes como Brigitte Bardot, Orson Welles, Anna Karina, Maria Félix ou Joan Fontaine, entre outros.

Em 1978 foi a última vez que integrou o elenco de um filme (Estimado Señor Juez) e, a partir daí acalentou inteiramente às suas custas o projecto de realizar um filme sobre a epopeia de Fernão de Magalhães, tendo até lançado à água uma réplica da Nau Trinidad, que aliás após a sua morte foi oferecida à Comissão Nacional dos Descobrimentos Portugueses.

Paris em Lisboa

Placa especial, copiando o modelo usado na cidade de Paris

Finda a Segunda Guerra Mundial que fez com que muitas nacionalidades circulassem por Lisboa, Paris instalou-se numa placa toponímica de Lisboa, até fisicamente semelhante às da Capital francesa,  pelo Edital municipal de 29 de julho de 1948.

Procurava então a edilidade lisboeta imprimir algum cosmopolitismo à cidade através da atribuição de topónimos de cidades estrangeiras e de personalidades de cariz internacional. Refira-se que para além de Paris, o mesmo Edital consagrava também o escritor  Vítor Hugo e o cientista Pasteur, ambos franceses, em ruas. Acrescentava também uma Praça de Londres, uma  Avenida Madrid e uma Rua Cervantes,  o inventor italiano Marconi e o americano Edison, uma Avenida Rio de Janeiro  e os escritores brasileiros Afrânio Peixoto e João do Rio.

Finalmente, neste lote de topónimos foi ainda fixado o nome de João XXI numa Avenida, o único papa português e, como tal, uma figura portuguesa de relevo internacional.

Freguesia do Areeiro (Foto: Artur Matos)

Freguesia do Areeiro
(Foto: Artur Matos)

A feminista e republicana Ana de Castro Osório

A feminista e republicana Ana de Castro Osório entrou na Toponímia de Lisboa quarenta e um anos após a sua morte, com mais três mulheres da passagem do século XIX para o XX – Adelaide Cabete, Guiomar Torresão e Maria Veleda -, por via do Edital de 19.06.1976.

Ao analisar uma «(…) Carta de Maria de Lourdes Pais Guerreiro da Franca, juntando petição com algumas dezenas de assinaturas, no sentido de ser dado o nome de Maria Veleda a um arruamento de Lisboa.», a Comissão Municipal de Toponímia na reunião de 15.06.1976, considerou que
« Tendo em vista que em execução do plano de urbanização da Quinta dos Condes de Carnide, designado por UNOR 36, encontram-se construídos alguns arruamentos ainda sem nomenclatura própria e que à obra da Maria Veleda, como fundadora da Obra Maternal, estão intimamente ligados os nomes de Ana de Castro Osório e Adelaide Cabete, a Comissão emite parecer favorável, sugerindo que os arruamentos do plano de urbanização da Quinta dos Condes de Carnide – Unor 36, abaixo referidos, tenham as denominações que vão indicadas: Rua B – Rua Ana de Castro Osório/Escritora /1872 – 1935; Impasse Um – Rua Adelaide Cabete/Médica/1877 – 1935; Impasse três e quatro – Rua Maria Veleda/ Escritora/1871- 1955;Rua E – Rua Guiomar Torresão/Escritora/1844 – 1898 ”
.

Ana de Castro Osório (Mangualde/18.06.1872 – 23.03.1935/Setúbal) enquanto escritora publicou as suas primeiras crónicas aos 23 anos (1895), mas logo em 1905 publicou As Mulheres Portuguesas, o primeiro manifesto feminista português e, foi pioneira na luta pela igualdade de direitos entre homens e mulheres, tendo fundado a revista A Sociedade Futura bem como a Liga Republicana das Mulheres Portuguesas (1909) no 2º andar do nº 6 da Rua dos Castelinhos, a Associação de Propaganda Feminista (1912) e, a Comissão Feminina Pela Pátria (1916), a partir da qual se formou, no mesmo ano, a Cruzada das Mulheres Portuguesas.

Ana de Castro Osório também colaborou com Afonso Costa, então Ministro da Justiça, na feitura da lei do divórcio e, em 1915, foi a única mulher a participar no Congresso Municipal de Évora, como delegada da autarquia de Cuba, e apresentou a tese «A mulher na agricultura, nas indústrias regionais e na administração municipal». Também se envolveu na Guerra de 1914-18 através de propaganda patriótica e assistência aos soldados.

Casada com o poeta e membro do Partido Republicano Paulino de Oliveira, acompanhou-o em 1911 quando este foi nomeado cônsul em São Paulo e aí foi professora e escreveu vários livros, entre os quais Lendo e Aprendendo e Lição de História, dois manuais que escolas brasileiras e portuguesas seguiram. Ana de Castro Osório foi também considerada a fundadora da literatura infantil em Portugal, muito pela publicação da coleção em fascículos Para as Crianças (1897- 1935), obra marcante na sua época e que durou até à sua morte.

Ana de Castro Osório foi mãe dos escritores João de Castro Osório e José Osório de Oliveira.