Abel Varzim, o padre da Rádio Renascença que trouxe o Tintin

Placa Tipo IV  (Foto: Sérgio Dias)

Ligado intimamente à Liga Operária Católica, à fundação da Rádio Renascença e à reintegração social das prostitutas enquanto Pároco da Encarnação, o Padre Abel Varzim cujos 110 anos do nascimento se comemoram tem a sua memória exposta numa rua de Lisboa desde há 34 anos, quando deu nome à Rua F da Quinta das Laranjeiras à Estrada de Moscavide (Edital de 27/02/1978), cabendo os arruamentos próximos aos escritores Câmara Reis, Padre Joaquim Alves Correia, Manuel Mendes e, Ramada Curto.

Abel Varzim da Cunha e Silva (Barcelos-Cristelo/29.04.1902-20.08.1964/Porto) foi um sacerdote católico, formado em Teologia, depois colocado no Seminário Menor de Serpa como professor e prefeito, desde a sua inauguração em 21 de novembro de 1925 e durante 5 anos, de onde seguiu para a Universidade de Lovaina, na Bélgica, e se doutorou em Ciências Políticas e Sociais, com a tese Le Boerenbond Belge (1934) : o estudo daquela estrutura agrária católica belga, numa visão simultaneamente corporativa e cooperativa.

Regressado a Portugal em 1934, Abel Varzim esteve também na fundação da Liga Operária Católica e dela foi o 1º Assistente Geral, de 1936 a 1948, ano em que também deixou as funções de director do Secretariado Económico-Social da Acção Católica. Em 1936, redigiu os Estatutos da Acção Católica Portuguesa  (ACP), com o Padre Manuel Rocha da Juventude Operária Católica e, mau grado a oposição do Estado Português, este documento foi aprovado pela Santa Sé.

Ainda em 1934, é convidado pelo seu companheiro de escola primária e seminário, Padre Manuel Lopes da Cruz, para com ele fundar a Rádio Renascença. Abel Varzim foi também o grande impulsionador em 1934 do quinzenário O Trabalhador (órgão da Juventude Operária Católica e da Liga Operária Católica), que viria a ser proibido em 9 de julho de 1948. Como jornalista, foi ainda Chefe da Redação da revista Lúmen (para o clero) e, colaborou em vários órgãos de comunicação social, como o Novidades, o Jornal de Notícias, Comércio do Porto, Correio do Minho, Jornal de Barcelos, Boletim da Acção Católica Portuguesa e periódicos dos Movimentos Operários da Acção Católica. Também foi Abel Varzim, que se correspondia com Hergé, que convenceu os responsáveis da revista juvenil da Rádio Renascença, O Papagaio, a publicar As Aventuras de Tim-Tim na América do Norte o que se iniciou no número 53  ( 16 de abril de 1936).

Da Bélgica trouxe o interesse pelos problemas sociais e, inicialmente aceitou a solução imposta por Salazar de um Estado Unitário Corporativo, mas depois foi deputado à Assembleia Nacional, na legislatura de 1938/1942, e aí apresentou um “Aviso-Prévio” (17/01/1939) sobre os Sindicatos Nacionais, em que criticava a organização sindical Corporativa, e mencionava a ineficácia do Instituto Nacional do Trabalho e Previdência. Também manifestou discordância (06/02/1941) com os termos do Decreto-Lei n.º 31.107, que regulamentava as condições económicas do casamento dos militares em serviço. Também assumiu publicamente o envio de uma carta a Salazar, em 15 de maio de 1942, reclamando o estabelecimento do salário familiar, face à difícil situação económica das famílias dos trabalhadores após o que começou a conhecer a perseguição política.

O Padre Abel Varzim envolveu-se ainda como impulsionador da 1ª série das Semanas Sociais Portuguesas, mentor da Cooperativa Popular de Portugal (1935- 1972), Professor do Instituto de Serviço Social (1938-48), Assistente do Centro de Estudos de Acção Social para Universitários (1941-45), responsável pela Peregrinação Operária a Fátima (1943) e pelo Congresso dos Homens Católicos (1950).

Em 1948, foi afastado das suas responsabilidades na Acção Católica, já sob vigilância da polícia política e, em 1951 foi nomeado Pároco da Freguesia de Nossa Senhora da Encarnação, abrangendo Chiado e Bairro Alto, e aí fundou a Casa de Trabalho com várias valências, como Posto Médico e Sopa dos Pobres, bem como a Liga Nacional contra a Prostituição – como uma Casa-abrigo para raparigas situada na quinta do Bosque, na Amadora -, obra de reintegração social das prostitutas, que estendeu a outras zonas da cidade e, também ao Porto.

Em Outubro de 1957, voltou para a sua terra natal e, apesar da vigilância da polícia política ainda promoveu a criação da sociedade cooperativa Avícola do Minho (SAMI). Em novembro de 1994, foi galardoado a título póstumo, com a Ordem da Liberdade.

Freguesia dos Olivais (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia do Parque das Nações (Foto: Sérgio Dias)