A Avenida Eugénio de Andrade no 90º aniversário do poeta

Eugénio de Andrade 1998 foto de Alfredo Cunha 2

Eugénio de Andrade em 1998                                  (Foto: Alfredo Cunha)

Poeta por paixão e funcionário público por profissão, Eugénio de Andrade completaria amanhã 90 anos de idade e permanece em Lisboa, a dar nome a uma Avenida, desde o ano do seu falecimento.

Falecido a 13 de junho de 2005, este poeta de grande prestígio nacional e internacional recebeu um Voto de Pesar da edilidade lisboeta e a atribuição do seu nome à Rua H 1 do Plano de Urbanização no Alto do Lumiar, pelo Edital de 6 de outubro de 2005.

De seu nome próprio José Fontinhas (Fundão – Póvoa da Atalaia/19.01.1923 – 13.06.2005/Porto) fixou-se em Lisboa logo aos 10 anos, quando a sua mãe se separou do seu pai e, assim frequentou o Liceu Passos Manuel e a Escola Técnica Machado de Castro e, por cá viveu 17 anos, com uma interrupção de 1943 a 1946, em Coimbra. Com o serviço militar cumprido tornou-se funcionário público a partir de 1947 e durante 35 anos, como Inspetor Administrativo dos Serviços Médico-Sociais. Uma transferência de serviço obrigou-o a instalar-se no Porto em 1950 onde ficou a viver, distanciando-se da vida social, literária ou mundana, tendo o próprio justificado as suas raras aparições públicas com «essa debilidade do coração que é a amizade».

Começou a escrever poemas aos 13 anos e, em 1938 chegou mesmo a enviar uma carta com três ou quatro poemas seus a António Botto e, no ano seguinte publicou o seu poema «Narciso» mas o poeta já com o pseudónimo de Eugénio de Andrade nasce a partir de 1942 com o livro Adolescente, conseguindo consagração em 1948, com a publicação de As mãos e os frutos, com aplausos de críticos como Jorge de Sena ou Vitorino Nemésio.

A obra poética de Eugénio de Andrade é essencialmente lírica e entre as dezenas de obras que publicou destacam-se na poesia, Os amantes sem dinheiro  (1950), As palavras interditas  (1951), Escrita da Terra  (1974), Matéria Solar  (1980), Rente ao dizer  (1992), Ofício da paciência  (1994), O sal da língua  (1995), Os lugares do lume  (1998), Os sulcos da sede (2003)   e, em prosa Os afluentes do silêncio  (1968), Rosto precário  (1979) e  À sombra da memória  (1993), além das histórias infantis como História da égua branca  (1977) e Aquela nuvem e as outras  (1986). Foi publicado em 20 línguas e em 20 países como a Espanha,  França,  Itália, Alemanha, Luxemburgo,  México, Venezuela, China, ou Estados Unidos da América,  o que torna Eugénio de Andrade, a par de Pessoa , o poeta português mais divulgado no mundo.

Foi ainda o tradutor de obras dos espanhóis Federico García Lorca e Antonio Buero Vallejo, da poetisa grega clássica Safo, do grego moderno Yannis Ritsos, do francês René Chair e do argentino Jorge Luis Borges.

Eugénio de Andrade foi distinguido com o Prémio da Associação Internacional de Críticos Literários  (1986), o Prémio D. Dinis (1988), o Grande Prémio de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores  (1989), o Prémio Camões  (2001) e o prémio de poesia do Pen Clube Português (2003), para além de ter sido galardoado com a Ordem Militar de Santiago da Espada (1982) e a Grã-Cruz da Ordem de Mérito (1989).

Na Quinta das Conchas podemos ver a Avenida Eugénio de Andrade, a ela encostada, ao contrário do poema dele que reproduzimos:

Passamos pelas coisas sem as ver,

gastos, como animais envelhecidos:

se alguém chama por nós não respondemos,

se alguém nos pede amor não estremecemos,

como frutos de sombra sem sabor,

vamos caindo ao chão, apodrecidos.

Freguesia do Lumiar (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia do Lumiar 
(Planta: Sérgio Dias)