A Triste Feia

Triste feia sd Artur Goulart

Triste Feia no século XX (Foto: Artur Goulart, Arquivo Municipal de Lisboa)

Triste Feia é a denominação de uma artéria que não é rua, nem travessa, nem largo, nem avenida, na confluência da Rua Maria Pia, Rua da Costa e Rua Prior do Crato, nas proximidades da estação de comboios de Alcântara-Terra.

Após a remodelação paroquial de 1770, já a encontramos nas plantas e descrições das freguesias de Lisboa na «Nova Freguezia do Snr Jezus da Boa Morte» como «Rua da Triste Feya» e igualmente como «rua chamada a Triste-fea». No Atlas de Filipe Folque, a planta nº 39 de 1856 menciona a Triste Feia e a calçada da Triste Feia. E a partir daí, tanto nos levantamentos de Francisco Goulard (1882) como de Silva Pinto e Alberto Correia de Sá (1910) surge sempre designada como Triste Feia.

Tal como a Triste Feia existem em Lisboa outros topónimos que se fixaram na memória de Lisboa sem uma prévia designação do tipo de arruamento como o Caracol da Graça, a Costa do Castelo, as Cruzes da Sé, as Escolas Gerais, o Poço do Borratém, ou o Telheiro de S. Vicente que Appio Sottomayor, na sua comunicação às 3ªs Jornadas de Toponímia de Lisboa, apelidou justamente como «A Toponímia das Ruas que o não são».

E é também nessa comunicação de Appio Sottomayor que encontramos a história da Triste Feia: « E ficou para o fim aquela rua sem indicação de rua que tomo como a mais reveladora da delicada poesia natural que brotava de quem punha nomes aos sítios lisboetas. Fica esta em Alcântara, paredes meias com a estação de Alcântara Terra e é irmã siamesa da Rua da Costa. Chama-se, muito singelamente, Triste Feia. O nome desencantado teve, no entanto, honras de citação pelo poeta António Nobre, quando este escreveu: ‘Ó Lisboa das ruas misteriosas!/ da Triste Feia, de João de Deus,/Beco da Índia, Rua das Formosas/Beco do Fala-Só (os versos meus…)’. Da mulher que foi a Triste Feia não se sabe o nome exacto nem, rigorosamente, o tempo em que viveu. O que se sabe ao certo é que foi o povo, foram os seus vizinhos quem imortalizou as suas características. Diz a tradição que ali moraram três irmãs, sendo duas delas raparigas normais e com o viço próprio dos verdes anos; a terceira, porém, possuía feições tão pouco agradáveis à vista que os rapazes que passavam em busca de conversadas fugiam comentando: ‘que focinho de porca!’, ‘que medonha seresma!’. Claro que as irmãs casaram e ela ficou sozinha, vendo chegar a velhice e agravar-se a fealdade. Mas, ao que rezam as crónicas, a simpatia nada tinha a ver com os atributos físicos. Assim, muita gente vencia a relutância por um ser tão feio e conseguia entabular conversa e até quase travar amizade. Mas a vida da pobre era passada quase sempre sentada à sua porta, numa melancolia doente. O certo é que morreu – e ninguém a esqueceu. Ficou o sítio conhecido pelos desagradáveis atributos da mais notável moradora. E Triste Feia se manteve até hoje, sem o designativo de rua que não precisa.»

PENTAX Image

Triste Feia em 2013 (Foto: José Carlos Batista)

Anúncios

3 thoughts on “A Triste Feia

  1. Pingback: 365 PÉROLAS ESCONDIDAS DE LISBOA. #21-30 - acrushon.com

  2. Minha avó paterna Teresa Coteira era dessa Aldeia e casou c José Antônio Sobrinho. Ela teve as irmãs Maria Luiza, Maria José e outras.
    Vieram p o Brasil é foram p interior de S . Paulo, campos Novos. Teria descendente ainda no lugar?
    Marly

    Gostar

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s