O Largo do escritor Castro Soromenho

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Castro Soromenho deu nome ao  Largo situado no início da Rua Cidade de Tete onde se encontram implantados os Lotes 515 a 518, na  freguesia dos Olivais, pelo 5º Edital de Toponímia após o 25 de Abril, de 14 de agosto de 1975, com a legenda «Escritor/1910 – 1968».

Fernando Monteiro de Castro Soromenho (Moçambique – Chinde/31.06.1910 – 18.06.1968/Brasil – São Paulo) foi um jornalista, romancista, etnólogo e editor, cujos  progenitores nasceram  ambos no Porto, sendo a mãe de ascendência de família radicada em Cabo Verde e o pai um governador de Luanda, pelo que passou parte da infância e da juventude em Angola, embora tenha feita feito os seus estudos primários e secundários como interno num colégio do Sardoal, entre 1916 e 1925Regressou depois a Angola para trabalhar na Companhia de Diamantes de Angola e mais tarde, como funcionário do  quadro administrativo de Angola, lugar que abandonou para ser redator do jornal Diário de Luanda colaborador do Jornal de Angola.

Largo Castro Soromenho na Freguesia dos Olivais

Largo Castro Soromenho na Freguesia dos Olivais

Aos 27 anos veio para Lisboa e dedicou-se ao jornalismo, como chefe de redação do semanário Humanidade e, colaborando também em jornais e revistas como o Diário Popular, A Noite, o Jornal da Tarde, O Século,  O Diabo, O Mundo Português, O Primeiro de Janeiro, a Seara Nova e, o jornal literário brasileiro Dom Casmurro. Iniciou também uma carreira de escritor,  sendo Nhárí o seu primeiro livro escrito embora o 3º a ser publicado, inserido no movimento neorrealista português, embora ele próprio se venha também a assumir como escritor angolano pelo contexto histórico e etnográfico colonial dos seus contos e romances.

Em 1948, Castro Soromenho, Adolfo Casais Monteiro e António Pedro foram os responsáveis pela propaganda eleitoral na rádio do General Norton de Matos, candidato oposicionista à presidência da República e, no ano seguinte Castro Soromenho embarcou para o Brasil como correspondente do Diário Popular. No Rio de Janeiro, acertou com o editor Arquimedes de Melo Neto, a constituição da editora Sociedade de Intercâmbio Cultural Luso-Brasileira que acabou dissolvida pelos sócios em 1953 e, Castro Soromenho fundou a Editorial Sul, em sociedade com seu cunhado Raúl Mendonça, que aparece, nos documentos oficiais, como sendo o responsável pela empresa, pois o escritor sabia que as autoridades não permitiriam o funcionamento da editora se o seu nome figurasse nos documentos oficiais. Aí publicou O românico em Portugal (1955) e  O azulejo em Portugal (1957), ambos do Prof. Reinaldo dos Santos; a edição de luxo em 3 volumes de Guerra e paz (1956), de Tolstoi,  traduzida por João Gaspar Simões e ilustrada por Júlio Pomar ou  Azazel: peça em 3 actos (1956) de José-Augusto França. Em 1957, a  Ulisseia publicou Viragem de Castro Soromenho e, não tendo o livro sido proibido, fecharam a Editorial Sul sob a alegação de irregularidades administrativas e, Castro Soromenho só continuou editor de forma encoberta, com a ajuda do seu sócio Rogério de Moura.

De 1959 a 1960 Castro Soromenho integrou  uma rede de conspiração para o derrube do regime salazarista e, quando no início de abril de 1960 apareceu numa praia o cadáver de um dos membros da conspiração  – episódio que inspirou Balada da praia dos cães de José Cardoso Pires – pensou ser um assassinato da PIDE e resolveu exilar-se, pelo que algumas semanas depois quando a PIDE lhe invadiu a residência na Praça das Águas Livres para prendê-lo já não o encontrou.

Castro Soromenho exilou-se em França até 1965, onde trabalhou como leitor de português e espanhol na editora Gallimard e colaborou nas revistas Présence Africane e Révolution, nas quais publicou contos e dois ensaios sobre a rainha Jinga. Fez apenas um hiato de cerca de uma ano no qual esteve nos Estados Unidos da América como professor de Literatura Portuguesa na Universidade do Wisconsin. Posteriormente, foi viver para o Brasil onde  se dedicou ao estudo da etnografia angolana, tendo sido um dos fundadores do Centro de Estudos Africanos da Universidade de São Paulo e, regeu cursos na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São de Paulo e na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Araraquara.

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A rua do diretor da Biblioteca Nacional que foi médico na I Guerra

Jaime Cortesão na década de vinte do século vinte (Foto: Arquivo Municipal)

Jaime Cortesão na década de vinte do século vinte na Sociedade de Geografia de Lisboa (Foto: Arquivo Municipal)

Trinta e três anos após a sua morte foi Jaime Cortesão perpetuado em Lisboa, no arruamento de ligação entre a Rua Salgueiro Maia e a Avenida João Paulo II, na freguesia de Marvila, com a legenda «Historiador e político/1884-1960».

Jaime Zuzarte Cortesão (Cantanhede – Ançã/29.04.1884 – 14.08.1960/Lisboa) formou-se em Medicina em 1909 mas rapidamente enveredou para a carreira de professor liceal, na cidade do Porto, a partir de 1911, até ser eleito deputado do Porto pelo Partido Democrático de Afonso Costa em 1915. Tendo ingressado na Maçonaria em 1911, Cortesão participou activamente na propaganda republicana e foi um defensor incondicional do republicanismo democrático, do igualitarismo reformista e idealista, em que a missão das elites surge continuamente afirmada.

Defendeu a participação de Portugal na Primeira Guerra Mundial quer como director do diário O Norte, quer como redactor de A Cartilha do Povo e ele próprio se empenhou no combate como médico voluntário do Corpo Expedicionário Português, na campanha da Flandres, onde foi gravemente ferido e condecorado com a Cruz de Guerra, experiência que publicou com o título Memórias da Grande Guerra (1919). Em 1918, ainda convalescente de uma doença apanhada na frente de batalha foi preso na Penitenciária de Coimbra às ordens de Sidónio (e, curiosamente, o liceu dessa cidade que se chamava Sidónio Pais é nos dias de hoje a Escola Secundária Jaime Cortesão).

Em 1919 foi nomeado director da Biblioteca Nacional e exerceu esse cargo até 1927, ano em que foi demitido por ter participado numa tentativa de derrube da ditadura militar em fevereiro, presidindo à Junta Revolucionária estabelecida no Porto. Fugiu então para Espanha mas após o bombardeamento de Barcelona pela aviação de Franco, atravessou a pé os Pirenéus cobertos de neve com outros refugiados para continuar o exílio em França.

Jaime Cortesão que a si se definia como «poeta da acção», organizara o Cancioneiro Popular e Cantigas do Povo para as Escolas, ambos publicados em 1914, integrado no programa pedagógico e cultural da República e que tem nele um dos principais animadores. Também em 1912, com o nascimento das Universidades Populares em várias cidades do país, deu nelas gratuitamente lições de História e de Literatura e, entre 1912 e 1914, publicou uma série de artigos dedicados a esta temática n’ A Vida Portuguesa e, em 1921 principiou a publicar as suas Cartas à Mocidade. Da sua vasta obra de poeta, dramaturgo, ficcionista, pedagogo, historiador e político, destacam-se os livros de poesia A Morte da Águia (1910), Glória Humilde (1914) e Divina Voluptuosidade ( 1923), os contos Daquém e Dalém Morte (1913), os dramas históricos O Infante de Sagres (1916), Egas Moniz (1918) e Adão e Eva (1921), os volumes de ensaio histórico como Do sigilo nacional sobre os Descobrimentos (1924), A Expansão dos Portugueses na História da Civilização (1930), Os Factores Democráticos na Formação de Portugal (1930), Teoria Geral dos Descobrimentos Portugueses (1940), A Política de Sigilo nos Descobrimentos nos Tempos do Infante D. Henrique e de D. João II (1960), os 2 volumes de Os Descobrimentos Portugueses (1960-1962) e Portugal – A Terra e o Homem (1966). Ainda no campo literário, com Leonardo Coimbra e outros intelectuais, fundou em 1907 a revista Nova Silva e, em 1910, com Teixeira de Pascoaes, colaborou na fundação da revista A Águia, tal como em 1912 iniciou a Renascença Portuguesa que publicava o boletim A Vida Portuguesa, que abandonará em 1921 para abraçar a fundação da revista Seara Nova.

No ano de 1940, com a invasão de França pelo exército alemão, Jaime Cortesão regressou a Portugal e foi preso, em Peniche, tempo que aproveitou para dar lições de História aos presos antes de ser expulso  do país com o carimbo de «banido» no passaporte. Seguiu para o Brasil, onde passou a residir no Rio de Janeiro e, a exercer como professor universitário, especializando-se na História dos Descobrimentos Portugueses e na Formação do Brasil. Em 1952, organizou a Exposição Histórica de São Paulo, para comemorar o 4.º centenário da fundação da Cidade. Só regressou a Portugal em 1957, para logo no ano seguinte, quando contava 74 anos de idade ser novamente preso, por 4 dias, com António Sérgio, Vieira de Almeida e Azevedo Gomes, por estarem envolvidos na campanha de Humberto Delgado. Ainda nesse ano Cortesão foi eleito presidente da Sociedade Portuguesa de Escritores.

Placa Tipo IV - Freguesia de Marvila (Foto: Sérgio Dias)

Placa Tipo IV – Freguesia de Marvila (Foto: Sérgio Dias)

Julião Quintinha: de alfaiate a jornalista

Julião Quintinha

Na Ilustração Portuguesa de 08.12.1923

O escritor e jornalista Julião Quintinha dá nome ao arruamento formado pelos  Impasses I e IA à Azinhaga da Fonte ou à Rua Dr. João Couto, na freguesia de Benfica, desde a publicação do  5º Edital de toponímia após o 25 de Abril, de 14 de agosto de 1975.

A sugestão de topónimo surgiu de uma carta de Adelino Martins Simão a que se juntou uma carta dos moradores no Impasse I à Azinhaga da Fonte, solicitando atribuição de nomenclatura própria ao arruamento e, assim nasceu a  Rua Julião Quintinha pelo Edital 80/75, o qual também colocou o escritor Castro Soromenho numa artéria próxima.

Julião Quintinha (Silves/19.12.1885 – 23.07.1968/Lisboa) começou a trabalhar jovem na sua terra natal, como operário, e depois aprendeu o ofício de alfaiate, com estabelecimento aberto na cidade de Silves até à implantação da República. Paralelamente, ainda jovem, iniciou as suas actividades jornalísticas a dirigir o jornal Alma Algarvia e, como correspondente de órgãos republicanos de Lisboa.

Entre 1912 e 1914 administrou os concelhos de Portimão e Silves  e,  foi chefe de secretaria da Câmara Municipal de Silves, a partir dessa data até 1920, altura em que veio para Lisboa e, acabou por se dedicar totalmente ao jornalismo, tendo sido o editor da revista Seara Nova, subchefe de redacção do jornal República, chefe de redacção  do Diário da TardeDiário da NoiteJornal da Europa e ainda colaborou com  as publicações Alma Nova, A Batalha, ContemporâneaO DiaboDiário do Alentejo, Diário Liberal, Diário de LisboaDiário PopularMala da EuropaO Século e Voz do Sul, nomeadamente, com reportagens sobre África que foram muito aplaudidas.

Julião Quintinha escreveu ainda contos, novelas, peças de teatro, estudos literários e ensaios, de que salientamos A Solução Monárquica do Sr. Alfredo Pimenta (1916),  No Fim da Guerra. Comentário político (1917), o seu primeiro livro de fição Vizinhos do Mar  (1921),  Terras de Fogo (1923) África Misteriosa – Crónicas de Viagem (1928), Ouro Africano – Crónicas de Viagem (1929), o esboço histórico A Derrocada do Império Vátua e Mouzinho de Albuquerque (1930), Terras do Sol e da Febre – Reportagem em Colónias Estrangeiras (1932),  Novela Africana (1933) e os estudos literários Imagens de Actualidade (1933).

Em Portimão foi iniciado na Maçonaria onde escolheu o nome simbólico de Danton e, foi também por várias vezes dirigente de associações de jornalistas.

Durante o Estado Novo teve alguns problemas com a PIDE e apoiou as candidaturas goradas de Cunha Leal e de Ferreira de Castro, em 1958, antes de se confirmar a candidatura de Humberto Delgado. E na década de cinquenta do séc. XX era frequentador habitual da tertúlia da Pastelaria Veneza, em Lisboa, com Ferreira de Castro, Luís da Câmara Reis, Roberto Nobre e Augusto Casimiro. 

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A Rua Simões de Almeida no seu 170º aniversário

Simões de Almeida e obras suas, Ilustração Portuguesa 17.04.1017

Simões de Almeida e obras suas, Ilustração Portuguesa  de 17.04.1917

 

Completa-se hoje o 170º do escultor  Simões de Almeida que desde o Edital de 14/05/1979 dá o seu nome à Rua que era o Impasse 3 da Urbanização do Bairro D. Leonor, à Rua dos Soeiros, na Freguesia de São Domingos de Benfica.

O mesmo Edital atribuiu na mesma freguesia a Rua Anjos Teixeira, registando um escultor que foi discípulo de Simões de Almeida.

José Simões de Almeida Júnior (Figueiró dos Vinhos/24.04.1844-13.12.1926) foi um escultor aluno de Vítor Bastos, Jouffroy e Monteverde e, professor de desenho e escultura durante 31 anos na Escola de Belas Artes de Lisboa, que foi o autor das  estátuas lisboetas do Duque da Terceira (inaugurada em 24 de julho de 1877) [na foto: à esquerda, em cima] e de  O Anjo da Vitória, no Monumentos aos Restauradores (inaugurado em 28 de abril 1886) [na foto: à direita, em cima] e, que também é referido como Simões de Almeida (Tio) já que teve um sobrinho com o mesmo nome, nascido em 1880 e, também  escultor .

Simões de Almeida iniciou-se com 11 anos de idade (1855) como aprendiz na oficina de fundição de ferro do Arsenal da Marinha, onde seu pai era chefe. Dez anos depois passou a aluno da Escola de Belas-Artes de Lisboa (1865) e ganhou uma bolsa de estudos de aperfeiçoamento em França e Itália (até 1872).  No regresso, tornou-se professor de desenho e escultura da Escola de Belas-Artes, onde era conhecido como mestre Simões. Em 1905 foi também diretor da escola bem como director interino do Museu Nacional (antepassado do Museu Nacional de Arte Antiga), entre 9 de março e 5 de julho de 1905.

Seguia um academismo que toda a sua vasta obra demonstra, e da qual destacamos o túmulo de Guilherme Cossoul no Cemitério dos Prazeres e a estátua de Júlio César Machado no cemitério do Alto de São João,  os bustos de Luz Soriano [na foto: à esquerda, em baixo] e de Fontes Pereira de Melo, o Cristo Crucificado existente na capela dos Jerónimos, e a estátua em bronze Puberdade (1877), que foi exposta em Paris em 1878. Fora de Lisboa são de mencionar a sua estátua de José Estêvão (1886) em Aveiro e, na sua terra natal uma réplica do Cristo dos Jerónimos e um Camões em mármore, oferecido por Simões de Almeida ao Clube Figueirense.

A Puberdade  (Foto:  Armando Serôdio, 1959, Arquivo Municipal de Lisboa)

A Puberdade
(Foto: Armando Serôdio, 1959, Arquivo Municipal de Lisboa)

 

No Dia Mundial do Livro, a Jangada de Pedra no Parque das Nações

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Neste Dia Mundial do Livro e Direitos de Autor discorremos sobre a Rua Jangada de Pedra, na Freguesia do Parque das Nações, que evoca o livro de José Saramago com esse título, publicado em 1986.

A Rua Jangada de Pedra, que nasce na Avenida Fernando Pessoa, refere-se a uma obra de José Saramago, publicada em 1986, no qual se conta a separação geográfica da Península Ibérica do resto da Europa, acontecimento sem explicação científica, precedido de outros quatro acontecimentos igualmente sobrenaturais que unem as personagens Joana Carda, Joaquim Sassa, José Anaiço e Maria Guavaira, Pedro Orce e Cão, os quais vão percorrer uma longa jornada em busca de algo que lhes tire das almas o tormento de se sentirem culpados pelo ocorrido.

Esta artéria nasceu com a realização da Expo 98, subordinada ao tema «Os oceanos: um património para o futuro», na qual foram nomeados os arruamentos do evento com topónimos ligados aos oceanos, aos Descobrimentos Portugueses, aos aventureiros marítimos da literatura e banda desenhada mundiais, a figuras de relevo para Portugal, a escritores portugueses ou obras de sua autoria e, ainda alguns ligados à botânica. Com a reconversão da zona em Parque das Nações foram estes 102 topónimos oficializados pelo Edital de 16/09/2009 e, a Rua Jangada de Pedra é um deles.

Esta área da cidade de Lisboa comporta ainda mais 6 topónimos que evocam livros de autores portugueses, a saber: a Rua do Adeus Português (poema de Alexandre O’Neill, 1950) , a Rua Corsário das Ilhas (Vitorino Nemésio, 1956), a Rua Finisterra (Carlos de Oliveira, 1978), a Rua Gaivotas em Terra (David Mourão-Ferreira, 1959), a Rua Menina do Mar (Sophia de Mello Breyner Andresen, 1958) e  a Rua Sinais de Fogo (Jorge de Sena, 1979).

 

A Rua do Companheiro Vasco

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Vasco Gonçalves foi o 2º Primeiro-Ministro após o 25 de Abril de 1974, liderando do II ao V Governos Provisórios, de 18 de julho de 1974 a 10 de setembro de 1975, nos tempos do Processo Revolucionário em Curso (PREC) e do Verão Quente, tendo-se destacou-se pela criação em Portugal do Salário Mínimo Nacional, do Subsídio de Férias e do Subsídio de Natal, e ainda do Subsídio de Desemprego pelo que ficou na memória do povo português como o Companheiro Vasco.

Vasco dos Santos Gonçalves (Lisboa/03.05.1921 – 11.06.2005/Almansil) foi estudante do Liceu Camões, da Faculdade de Ciências de Lisboa e da Academia Militar e foi já como Coronel de engenharia que em dezembro de 1973 aderiu ao Movimento dos Capitães, na reunião da Costa de Caparica e, integrou a Comissão de Redação do Programa do MFA. Como Primeiro-Ministro destacou-se pela criação em Portugal de medidas de âmbito social como o Salário Mínimo Nacional, do Subsídio de Férias, do Subsídio de Natal e do Subsídio de Desemprego, que lhe valeram a palavra de ordem «Vasco amigo, o Povo está contigo!» e, uma canção de Carlos Alberto Moniz e Maria do Amparo com o refrão «Força, força, companheiro Vasco, nós seremos a muralha de aço!». Vasco Gonçalves foi igualmente mentor da Reforma Agrária e das Nacionalizações.

A autarquia lisboeta consagrou Vasco Gonçalves no próprio ano da sua morte, na Rua H 2 do Plano de Urbanização no Alto do Lumiar, com a legenda «Político/1921-2005», pelo Edital de 06/10/2005. Refira-se ainda que dada a proximidade das datas de falecimento o mesmo edital que atribuiu a Rua General Vasco Gonçalves consagrou também na mesma freguesia do Lumiar os nomes de Eugénio de Andrade e Álvaro Cunhal em Avenidas.

Freguesia de Santa Clara ou do Lumiar (Foto: José Carlos Batista)

Freguesia do Lumiar
(Foto: José Carlos Batista)

O 1º presidente da Assembleia da República após o 25 de Abril

Vasco da Gama Fernandes no 25 de Abril de 1981  (Foto: José Neves Águas, Arquivo Municipal de Lisboa)

Vasco da Gama Fernandes no 25 de Abril de 1981
(Foto: José Neves Águas, Arquivo Municipal de Lisboa)

 

Vasco da Gama Fernandes foi o 1º Presidente da Assembleia da República após o 25 de Abril de 1974, no período de  julho de 1976 a outubro de 1978, escolhido por unanimidade de todos os partidos.

Foi perpetuado em Lisboa na Rua C (troço Norte da Avenida 4 do Alto do Lumiar), pelo edital municipal de 07/05/2001 que também atribuiu em mais 4 artérias do Alto do Lumiar um conjunto de topónimos referentes a políticos que se destacaram na vida nacional após o 25 de Abril e faleceram no final da década de noventa do século XX, a saber: Luís Sá, Melo Antunes, Octávio Pato e Tito de Morais.

Vasco da Gama Lopes Fernandes (Cabo Verde – S. Vicente/04.11.1908 – 09.08.1991/Lisboa) foi um estudante do Liceu Passos Manuel e um advogado licenciado pela  Faculdade de Direito de Lisboa, que desde os tempos de estudante se destacou como opositor ao Estado Novo, tendo sido por diversas vezes preso pela polícia política, desde a greve académica de 1928 por extinção da Faculdade de Direito de Lisboa até a presidente da Federação Académica e a dirigente da Liga dos Estudantes Republicanos.

Concluída a licenciatura optou  pela advocacia, tendo sido estagiário de Leopoldo do Vale e defensor de inúmeros presos políticos. Embora centrada em Leiria, a sua advocacia estendia-se por todo o País e, acabou por se fixar em Lisboa em 1971. Patrocinou vários implicados em movimentos de Oposição ao regime, como Henrique Galvão.

Este cidadão que sempre lutou pela democracia portuguesa, aderiu na década de 30  à Aliança Republicana e Socialista (ARS); em 1943, ao Movimento de Unidade Nacional Antifascista (MUNAF) e, dois anos mais tarde, foi um dos fundadores do Movimento de Unidade Democrática (MUD). Em 1947 colaborou na fundação do Partido Trabalhista e, depois interveio na campanha eleitoral de Norton de Matos (1949) enquadrado na sua comissão central. Participou em quatro campanhas eleitorais para a Assembleia Nacional a que a oposição concorreu, sendo candidato da Oposição pelo Distrito de Lisboa em 1953. Também foi presença empenhada na campanha eleitoral de Humberto Delgado (1958) . Apresentou duas teses ao II Congresso Republicano de Aveiro (1969)  e participou na preparação do III Congresso (1973), para o qual também produziu duas teses, uma delas com a proposta de criação do Ombudsman o que viria a verificar-se após o 25 de Abril de 1974, com a criação do Provedor de Justiça. Em 1973, foi um dos fundadores do Partido Socialista (PS) na clandestinidade. Após o 25 de Abril de 1974, foi eleito Deputado pelo PS por Leiria e Vice-Presidente da Assembleia Constituinte e, quando reeleito Deputado, foi o primeiro Presidente da Assembleia da República Portuguesa (1976-1978). Em 1979 demitiu-se do Partido Socialista e aderiu à Frente Republicana e Socialista (FRS), sendo na década seguinte um dos fundadores do Partido Renovador Democrático (PRD), pelo qual voltou a ser eleito Deputado nas eleições legislativas de 1985 e 1987 e, apoiante da candidatura de Zenha à Presidência.

Vasco da Gama Fernandes já havia com Cunha Leal fundado a revista A Vida Contemporânea, na qual foi o principal redator, mas ao longo da sua vida colaborar em diversos jornais, sendo de salientar O Povo, o República, A Capital, o Diário de Lisboa e a revista Seara Nova.

Foi ainda vice-presidente do Conselho Distrital de Coimbra da Ordem dos Advogados (1953-1956), presidente da Liga Portuguesa dos Direitos do Homem e da Associação do Atlântico Norte e assessor jurídico da Presidência da República.  Refira-se ainda que promoveu a fundação do Ateneu Desportivo de Leiria, mas não chegou a exercer as funções de presidente da direcção para que tinha sido eleito, porque foi vetado pelo então Ministro da Educação Nacional, José Hermano Saraiva.

Freguesia de Santa Clara

Freguesia de Santa Clara

 

 

A Rua do 1º Primeiro-Ministro após o 25 de Abril

 

A tomada de posse de Palma Carlos (capa da Vida Mundial de 24.05.1974)

A tomada de posse de Palma Carlos (capa da Vida Mundial de 24.05.1974)

Adelino da Palma Carlos foi a personalidade de ideais liberais escolhida pelo General Spínola para ser o primeiro-Ministro do I Governo Provisório e como tal, o 1º após o 25 de Abril de 1974.

A sua inclusão na toponímia de Lisboa partiu de uma sugestão da Casa do Algarve, região de onde Palma Carlos era natural, ficando por Edital de 20/09/1993 no troço da Estrada Militar compreendido entre a Calçada do Poço e a Rua Prof. Barahona Fernandes, na Freguesia de Santa Clara, como Rua Prof. Adelino da Palma Carlos, com a legenda «Jurista e Político/1905-1992». Mais tarde, em 2009, por despacho publicado no Boletim Municipal de 1 de outubro, foi a artéria prolongada até ao arruamento de entroncamento entre a Rua Hugo Casaes e a Rua Varela Silva.

Adelino Hermitério da Palma Carlos (Faro/03.03.1905-25.10.1992/Lisboa) foi um jurista formado em 1926 com 18 valores pela Faculdade de Direito de Lisboa,  na qual  se tornou catedrático em 1958 com a dissertação intitulada «Os Novos Aspectos do Direito Penal. Ensaio sobre a Organização de um Código de Defesa Social». Exerceu advocacia na capital, sendo de destacar a sua defesa dos revolucionários da Revolta de 7 de fevereiro de 1927, dos implicados no movimento revolucionário de 10 de abril de 1947, de várias personalidades ligadas à oposição ao Estado Novo –  como Bento de Jesus Caraça, Mário de Azevedo Gomes, o  Dr. João Soares, Vasco da Gama Fernandes -, de ter sido mandatário perante o Supremo Tribunal de Justiça de Norton de Matos  no processo da sua candidatura à Presidência da República ou no processo de validade do testamento de Calouste Gulbenkian. Foi também professor no Instituto de Criminologia de 1930 a 1935, tendo sido exonerado pelo regime salazarista. Também só a  partir de 1951 lhe foi possível leccionar Direito Processual e Civil bem como Prática Extrajudiciária na Faculdade de Direito de Lisboa, onde exerceu também os cargos de bibliotecário e de director (1966-1970). Publicou colaboração dispersa em jornais e revistas e cursos académicos como Direito Processual Penal, Direitos Reais e Direito Processual Civil.

Após o 25 de Abril de 1974 presidiu ao I Governo Provisório, de 17 de Maio a 18 de Julho de 1974, demitindo-se após o Conselho de Estado recusar as propostas do Presidente da República, General Spínola, para concentração do poder nas instâncias presidencial e governamental. Afirmando-se eanista voltou à política como mandatário nacional da recandidatura presidencial do General Ramalho Eanes em 1980 e, em 1985,  após a constituição do Partido Renovador Democrático (PRD) ainda pertenceu ao seu conselho consultivo.

Palma Carlos foi ainda fundador da Liga da Mocidade Republicana (1923), bastonário da Ordem dos Advogados (1951 a 1956), presidente da Union Internationale des Avocates (1952) e grão-mestre do Grande Oriente Lusitano. Desde 1928 que era casado com Elina Guimarães, uma jurista e militante feminista que também foi homenageada na toponímia lisboeta por edital de 12/11/1991.

Foi agraciado com a francesa Legião de Honra (1958), a mexicana Ordem do Direito e da Cultura (1961), a Ordem da Liberdade (1982), a Grã-Cruz da Ordem de Cristo (1984) e a Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique (1991), bem como com a Medalha de Ouro da Ordem dos Advogados (1991) e a instituição do Prémio Bastonário Doutor Adelino da Palma Carlos (2004), da Ordem dos Advogados, para distinguir o melhor trabalho sobre deontologia profissional elaborado de um Advogado Estagiário.

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A Rua do criador das Ciências Musicais Luís de Freitas Branco

O compositor alfacinha Luís de Freitas Branco, pai do musicólogo João de Freitas Branco e compositor multifacetado que desenvolveu uma reforma do Conservatório de Música, foi perpetuado na memória da cidade pelo 4º Edital de Toponímia após o 25 de Abril, de 28/07/1975, com a legenda «Músico/1890 – 1955».

Esta artéria denominava-se Rua António Ferro, desde o Edital de 14/06/1967 , sendo que antes era identificada como Rua H à Alameda das Linhas de Torres. Em 1978, a Rua Luís de Freitas Branco foi prolongada já que a Rua A à Alameda das Linhas de Torres foi integrada neste arruamento, conforme despacho de 27 de novembro.

Luís Maria da Costa de Freitas Branco (Lisboa/12.10.1890 – 27.11.1955/Lisboa),  irmão do maestro Pedro de Freitas Branco, aprendeu as bases do solfejo com uma preceptora irlandesa no seu espaço familiar. Prosseguiu a sua formação musical com mestres como Augusto Machado (Harmonia), padre Tomás Borba (Contraponto), Luigi Mancinelli (Instrumentação), Timóteo da Silveira (Piano) e Andrès Goñi (Violino). Compôs a 1ª obra do seu catálogo aos 13 anos – a canção Aquela moça-  e três anos depois escreveu a 1.ª sonata para violino e piano, com a qual obteve o 1.º Prémio com Distinção do Concurso de Música Portuguesa. Por intermédio do seu tio João conheceu  o compositor belga Désiré Pâque que residia então em Lisboa e o influenciou em ousadas experiências de atonalidade. É com ele que em 1910 irá para Berlim e, depois a Paris, onde se  aperfeiçoou nas áreas de composição,  música antiga e metodologia da história da música.

A obra de Luís de Freitas Branco avançou pela música coral sinfónica, orquestral, música de câmara, peças instrumentais de piano e órgão, obras vocais e música sacra. E se numa primeira fase, espelhou as inovações harmónicas do impressionismo e do expressionismo, tanto mais que conhecera Claude Debussy em Paris, já numa segunda, juntou-lhe um neoclassicismo de raiz beethoveniana. O seu poema sinfónico Paraísos artificiais, composto em 1910 mas, só estreado em 1912 e com algum escândalo,  marcou a introdução do modernismo na música orquestral portuguesa. A sua 4.ª sinfonia, concluída em 1952, foi a obra-prima da maturidade de Luís de Freitas Branco, onde alcançou a síntese das pulsões aparentemente inconciliáveis que percorreram toda a sua carreira. Refira-se que também criou partituras para  filmes: Gado Bravo ( António Lopes Ribeiro e Max Nosseck) e Douro, Faina Fluvial (Manoel de Oliveira), ambos estreados em 1931 e, para Frei Luís de Sousa (1950) de António Lopes Ribeiro.

Em 1907, aos 17 anos, iniciou a sua longa carreira de crítico musical no Diário Ilustrado. Em 1915, foi professor na Escola Académica onde se ligou ao grupo do Integralismo Lusitano e foi membro do Conselho de Arte Musical, cargo que ocupou até à sua extinção em 1930. Em 1916 foi nomeado professor no Conservatório de Lisboa e, em 1919, assumiu funções de subdirector – até 1924-, em colaboração com Viana da Mota, que assim concretizaram a reforma daquela instituição com a adopção exclusiva do solfejo entoado, a criação de cadeiras de cultura geral e a inclusão da classe de Ciências Musicais, dividida em Acústica, História da Música e Estética Musical, que o próprio Freitas Branco passou a leccionar até 1930, década em que o Estado Novo neutralizou esta reforma.

Freitas Branco também exerceu funções de diretor artístico de Teatro Nacional de São Carlos (1925), de membro do Conselho Disciplinar do Ministério da Instrução Pública e vogal do Instituto para a Alta Cultura (1930), professor de Pedagogia Geral da Música no Liceu Normal de Pedro Nunes (1931).

Em 1937, Luís de Freitas Branco apresentou ao ministro da Educação Nacional, Eduardo Bases para uma Nova Lei Orgânica do Conservatório Nacional de Música mesmo que sem esperanças por não se orientar pela política do Estado Novo e, na mesma época defendeu Fernando Lopes-Graça que se encontrava preso por razões políticas desde 1931. E a partir de 1939 será progressivamente afastado das diversas funções que detinha , sendo suspenso de docente no Conservatório na década  de quarenta, mantendo contudo a colaboração com a Emissora Nacional até 1951, ano em que também foi afastado da rádio pelo facto de ter usado uma gravata vermelha no dia seguinte à morte do então Presidente da República, Óscar Carmona. Nesse mesmo ano, escreveu duas canções revolucionárias de conteúdo claramente subversivo, sobre poemas de Fernando Mouga e José Gomes Ferreira e, começou a trabalhar numa ópera inspirada na luta de classes, A Voz da Terra, reveladora de uma aproximação romântica ao homem comum e ao universo dos neorrealistas. Em 1952, sucedeu a Tomás Borba na direcção artística da Academia de Amadores de Música.

Como crítico musical colaborou em periódicos como Diário IlustradoMonarquiaCorreio da ManhãDiário de NotíciasDiário de Lisboa e o Século e, em 1929 fundou a revista Arte Musical,que dirigiu durante vinte anos. O seu interesse pela  Musicologia também ficou nas suas obras teóricas: A Música em Portugal (1928), Acústica e História da Música (1930), Tratado de Harmonia (1930), Vida de Beethoven ( 1943), A Personalidade de Beethoven (1947). E a sua influência estendeu-se à  geração seguinte de compositores, nomeadamente António Fragoso, António Nuno Barreiros, Armando José Fernandes, Fernando Lopes-Graça, Joly Braga Santo, José Atalaya e Maria Helena de Freitas.

Freguesia do Lumiar - Em 1968 (Foto: João H. Goulart, Arquivo Municipal de Lisboa)

Freguesia do Lumiar – Em 1968
(Foto: João H. Goulart, Arquivo Municipal de Lisboa)