Rua Ricardo Jorge no Dia Mundial da Saúde

Rua Ricardo Jorge em 1961 (Foto: Arnaldo Madureira, Arquivo Municipal de Lisboa)

Rua Ricardo Jorge em 1961
(Foto: Arnaldo Madureira, Arquivo Municipal de Lisboa)

Hoje é o Dia Mundial da Saúde, razão para evocarmos a Rua Ricardo Jorge, na Freguesia de Alvalade, em homenagem ao maior sanitarista da história da medicina portuguesa.

O topónimo foi atribuído por Edital de 28/01/1950 à  Rua 26 do Sítio de Alvalade e, vinte anos mais tarde, por parecer da Comissão Municipal de Toponímia de 15/05/1970, homologado pelo Presidente da CML, passou a incluir a legenda «Higienista/1858 – 1939» nas suas placas toponímicas.

Ricardo de Almeida Jorge (Porto/09.05.1858 – 29.07.1939/Lisboa) foi um médico formado pela Escola Médico-Cirúrgica do Porto em 1879, cuja dissertação de licenciatura, «O nervosismo no Passado», aborda a história da Neurologia e, logo no ano seguinte Ricardo Jorge foi convidado a integrar o corpo docente da Escola. Realizou também várias deslocações a Estrasburgo e a Paris para procurar nos hospitais locais uma aprendizagem impossível de adquirir em Portugal, onde o saber neurológico era ainda incipiente.

Todavia, em 1884 Ricardo Jorge abandonou a Neurologia para se dedicar à Higiene Social Aplicada à Nação Portuguesa, tema de uma série de conferências, que lhe granjearam um enorme prestígio em todo o país. Aos 27 anos, apresentou no Conselho Superior Público (do qual fazia parte como delegado do Porto), um relatório sobre o ensino médico em Portugal, que considerava obsoleto face às orientações modernas que vira praticadas noutros países europeus e este relatório veio a servir de base ao Regulamento Geral de Saúde de 1901. Entre 1891 e 1899, foi médico municipal do Porto, ficando também responsável pelo Laboratório Municipal de Bacteriologia e, em 1895, tornou-se o professor titular da cadeira de Higiene e Medicina Legal da Escola de Medicina do Porto. Este facto, juntamente com a publicação das suas conferências de 1884, consolidaram o seu prestígio como higienista. Em junho de 1899 conseguiu a consagração a nível nacional e internacional quando, chegou à prova «clínica e epidemiológica» da peste bubónica que assolou a cidade do Porto, sendo esta depois confirmada «bacteriologicamente» por ele próprio e  Câmara Pestana.

Contudo, as operações profilácticas que liderou no sentido de eliminar a peste, como a evacuação de casas e a desinfecção de domicílios, desencadearam a fúria popular que incentivada por grupos políticos, obrigaram Ricardo Jorge a abandonar a cidade e, em outubro de 1899, foi transferido para Lisboa, sendo nomeado Inspector-Geral de Saúde e  professor de Higiene da Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa. Em 1903, foi também incumbido de organizar e dirigir o Instituto Central de Higiene, que passaria a ter o seu nome a partir de 1929: Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge.

Prosseguiu a sua carreira organizando a Assistência Nacional Contra a Tuberculose e o Congresso Internacional de Medicina de 1906, no qual presidiu à Secção de Higiene e Epidemiologia. Colaborou também na reforma do ensino médico de 1911, e em 1912 iniciou os seus trabalhos no Office Internacional de Higiene, em Paris. Nos anos de 1914 e 1915 presidiu à Sociedade das Ciências Médicas e nos anos seguintes visitou formações sanitárias na zona de guerra em França. Organizou depois a luta contra a epidemia de gripe pneumónica, do tifo exantemático, varíola e difteria, que surgiram como consequência das deficientes condições sanitárias do pós-guerra. Foi ainda escolhido para representar Portugal no Comité de Higiene da Sociedade das Nações e, em 1929, foi nomeado Presidente do Conselho Técnico Superior de Higiene.

Acresce que os interesses de Ricardo Jorge não se limitaram ao campo da medicina e as suas preocupações revelam um verdadeiro humanista, já que a sua vasta obra inclui publicações sobre arte, literatura, pedagogia, história e política. Entre elas, refira-se Caldas do Gerez: guia thermal (1891), Origens & desenvolvimento da população do Porto: notas históricas e estatísticas (1897), Cartas de Ribeiro Sanches (1907), Ramalho Ortigão (1915), De que faleciam os conegos regrantes (1918), A intercultura de Portugal e Espanha no passado e no futuro (1921), Camilo e António Ayres (1925).

Ricardo_Jorge