A Rua de O Século de 97 anos

 

Freguesia da Misericórdia

Freguesia da Misericórdia (Foto: Artur Matos)

O jornal diário matutino de Lisboa O Século, que viveu 97 anos, publicado entre 8 de junho de 1880 e 12 de fevereiro de 1977, foi perpetuado na toponímia lisboeta logo após a implantação da República em Portugal, por deliberação camarária de 27 de outubro e Edital de 18 de novembro de 1910.

Segundo o olisipógrafo Norberto de Araújo,  esta artéria era até aí conhecida por Rua Formosa, denominação do séc. XVIII que acabou por ser legalizada pelo Edital do Governo Civil de 1 de setembro de 1859. Ainda antes o arruamento era chamado Rua do Longo, provavelmente por ali morado na 2ª metade do séc. XVII um homem de seu apelido «Longuo» que faleceu em 1669 e cuja referência ainda hoje se mantém no Alto do Longo, arruamento que nasce no topo norte da Rua de O Século.

A atribuição do topónimo Rua de O Século pela vereação republicana pretendeu homenagear o jornal fundado em 1880 por Magalhães Lima, que foi o seu primeiro diretor e um ardente paladino republicano, considerando que a sua propaganda tinha contribuído para a democratização do povo português e a consequente implantação da República em Portugal.

O matutino nasceu no rescaldo das comemorações do tricentenário da morte de Camões e, na sua fase inicial (1880-1896) empenhou-se, sobretudo, na afirmação do projecto republicano. Foi seu primeiro director, Sebastião Magalhães Lima, o qual fundou o jornal com Anselmo Xavier, António Pinto Leão de Oliveira, João de Almeida Pinto e José Campelo Trigueiros de Martel.

A partir de 1896, José Joaquim da Silva Graça foi o novo diretor e, promoveu a expansão do jornal através de uma rede de correspondentes e, a inclusão de novos suplementos («O Século Humorístico», «Modas e Bordados», «Brasil e Colónias») e de mais publicações como o Almanaque d’ O Século, o Século Cómico, a Ilustração Portuguesa, Os Sports e Século Agrícola. O jornal passou a ostentar no cabeçalho a divisa «o jornal de maior circulação em Portugal» até em 1920 se instalar uma crise, pelas repercussões da violenta campanha contra a Companhia Portugal e Colónias, em que O Século denunciou os abusos monopolistas referentes à questão do pão, e as divergências entre Silva Graça e o seu filho relativamente à orientação do jornal. A Companhia investiu numa grande ofensiva para controlar o periódico e consegui-o em 1922, e até até finais de 1924, sob a orientação de vários directores, entre os quais Cunha Leal.

Em seguida,  num contexto de preparação da opinião pública para a eclosão de um golpe de estado destinado a impor uma ditadura militar, adquiriram o jornal e a sua empresa editora em novembro de 1924, João Pereira da Rosa, ex-funcionário do jornal desde 1920, Carlos Oliveira, um dos fundadores da Companhia Portugal e Colónias, e Moisés Amzalak, economista e presidente da Associação Comercial de Lisboa e da Comunidade Judaica,  atribuindo a sua direção ao jornalista e diplomata Henrique Trindade Coelho e a administração a João Pereira da Rosa. Porém, na sequência do triunfo do 28 de maio, Trindade Coelho, abandonou a direção em junho de 1926 e sucedeu-lhe o administrador delegado.

João Pereira da Rosa melhorou  o parque gráfico e lançou novas publicações (O Cinéfilo, O Século Ilustrado e A Vida Mundial) assim como  suplementos para um público infantil, com o «Pim-Pam-Pum» e a  «Joaninha». A popularidade do jornal também cresceu com iniciativas sociais, como a Colónia Balnear Infantil, iniciada em 1908 e retomada em 1927. Em 1938, na qualidade de accionista maioritário, João Pereira da Rosa fez entrar os seus dois filhos para a administração que enveredaram pela diversão pública, organizando e promovendo variadas iniciativas populares e desportivas. Todavia, o recrudescer da oposição com o final da II Guerra, levou O Século a revelar indícios de ambiguidade face à continuidade do regime o que lhe valeu o afastamento da organização da Feira Popular entre 1948 e 1950, sendo esta a principal fonte de receita da Colónia Balnear, pelo que o jornal a retomou em 1960, no espaço do antigo Mercado Geral do Gado, em Entrecampos.

Após a morte de João Pereira da Rosa, em 1962, sucedeu-lhe Guilherme Pereira da Rosa que procurou responder à concorrência da televisão, mas no início dos anos 70 estas estratégias revelaram-se insuficientes e o jornal passou a evidenciar um claro alinhamento com a oposição ao regime marcelista. Em Setembro de 1972, Guilherme Pereira da Rosa vendeu a sua posição ao grupo económico de Jorge Brito e, para gerir a empresa foi nomeado o chefe adjunto da redação, Manuel Figueira que acabou por pedir a demissão em 1975 e, a 14 de fevereiro o Conselho de Ministros nomeou uma nova administração para a Sociedade Nacional de Tipografia. No final desse ano surgiu o projecto de lei da imprensa estatizada e, em Julho de 1976, o decreto da nacionalização das posições privadas das empresas, sendo assim criada a Empresa Pública dos jornais Século e Popular. Contudo, em virtude do estado de falência técnica e dos problemas herdados de gestões anteriores, aquela empresa foi considerada em situação irrecuperável e o jornal terminou em 1977, titulando na 1ª página da sua última edição «Não Dizemos Adeus». Nos seus últimos anos de vida O Século teve como diretores, entre outros, Adelino Tavares da Silva, João Gaspar Simões e Manuel Magro.

Rua de O Século Placa

(Foto: Artur Matos)

 

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