A Rua do criador das Ciências Musicais Luís de Freitas Branco

O compositor alfacinha Luís de Freitas Branco, pai do musicólogo João de Freitas Branco e compositor multifacetado que desenvolveu uma reforma do Conservatório de Música, foi perpetuado na memória da cidade pelo 4º Edital de Toponímia após o 25 de Abril, de 28/07/1975, com a legenda «Músico/1890 – 1955».

Esta artéria denominava-se Rua António Ferro, desde o Edital de 14/06/1967 , sendo que antes era identificada como Rua H à Alameda das Linhas de Torres. Em 1978, a Rua Luís de Freitas Branco foi prolongada já que a Rua A à Alameda das Linhas de Torres foi integrada neste arruamento, conforme despacho de 27 de novembro.

Luís Maria da Costa de Freitas Branco (Lisboa/12.10.1890 – 27.11.1955/Lisboa),  irmão do maestro Pedro de Freitas Branco, aprendeu as bases do solfejo com uma preceptora irlandesa no seu espaço familiar. Prosseguiu a sua formação musical com mestres como Augusto Machado (Harmonia), padre Tomás Borba (Contraponto), Luigi Mancinelli (Instrumentação), Timóteo da Silveira (Piano) e Andrès Goñi (Violino). Compôs a 1ª obra do seu catálogo aos 13 anos – a canção Aquela moça-  e três anos depois escreveu a 1.ª sonata para violino e piano, com a qual obteve o 1.º Prémio com Distinção do Concurso de Música Portuguesa. Por intermédio do seu tio João conheceu  o compositor belga Désiré Pâque que residia então em Lisboa e o influenciou em ousadas experiências de atonalidade. É com ele que em 1910 irá para Berlim e, depois a Paris, onde se  aperfeiçoou nas áreas de composição,  música antiga e metodologia da história da música.

A obra de Luís de Freitas Branco avançou pela música coral sinfónica, orquestral, música de câmara, peças instrumentais de piano e órgão, obras vocais e música sacra. E se numa primeira fase, espelhou as inovações harmónicas do impressionismo e do expressionismo, tanto mais que conhecera Claude Debussy em Paris, já numa segunda, juntou-lhe um neoclassicismo de raiz beethoveniana. O seu poema sinfónico Paraísos artificiais, composto em 1910 mas, só estreado em 1912 e com algum escândalo,  marcou a introdução do modernismo na música orquestral portuguesa. A sua 4.ª sinfonia, concluída em 1952, foi a obra-prima da maturidade de Luís de Freitas Branco, onde alcançou a síntese das pulsões aparentemente inconciliáveis que percorreram toda a sua carreira. Refira-se que também criou partituras para  filmes: Gado Bravo ( António Lopes Ribeiro e Max Nosseck) e Douro, Faina Fluvial (Manoel de Oliveira), ambos estreados em 1931 e, para Frei Luís de Sousa (1950) de António Lopes Ribeiro.

Em 1907, aos 17 anos, iniciou a sua longa carreira de crítico musical no Diário Ilustrado. Em 1915, foi professor na Escola Académica onde se ligou ao grupo do Integralismo Lusitano e foi membro do Conselho de Arte Musical, cargo que ocupou até à sua extinção em 1930. Em 1916 foi nomeado professor no Conservatório de Lisboa e, em 1919, assumiu funções de subdirector – até 1924-, em colaboração com Viana da Mota, que assim concretizaram a reforma daquela instituição com a adopção exclusiva do solfejo entoado, a criação de cadeiras de cultura geral e a inclusão da classe de Ciências Musicais, dividida em Acústica, História da Música e Estética Musical, que o próprio Freitas Branco passou a leccionar até 1930, década em que o Estado Novo neutralizou esta reforma.

Freitas Branco também exerceu funções de diretor artístico de Teatro Nacional de São Carlos (1925), de membro do Conselho Disciplinar do Ministério da Instrução Pública e vogal do Instituto para a Alta Cultura (1930), professor de Pedagogia Geral da Música no Liceu Normal de Pedro Nunes (1931).

Em 1937, Luís de Freitas Branco apresentou ao ministro da Educação Nacional, Eduardo Bases para uma Nova Lei Orgânica do Conservatório Nacional de Música mesmo que sem esperanças por não se orientar pela política do Estado Novo e, na mesma época defendeu Fernando Lopes-Graça que se encontrava preso por razões políticas desde 1931. E a partir de 1939 será progressivamente afastado das diversas funções que detinha , sendo suspenso de docente no Conservatório na década  de quarenta, mantendo contudo a colaboração com a Emissora Nacional até 1951, ano em que também foi afastado da rádio pelo facto de ter usado uma gravata vermelha no dia seguinte à morte do então Presidente da República, Óscar Carmona. Nesse mesmo ano, escreveu duas canções revolucionárias de conteúdo claramente subversivo, sobre poemas de Fernando Mouga e José Gomes Ferreira e, começou a trabalhar numa ópera inspirada na luta de classes, A Voz da Terra, reveladora de uma aproximação romântica ao homem comum e ao universo dos neorrealistas. Em 1952, sucedeu a Tomás Borba na direcção artística da Academia de Amadores de Música.

Como crítico musical colaborou em periódicos como Diário IlustradoMonarquiaCorreio da ManhãDiário de NotíciasDiário de Lisboa e o Século e, em 1929 fundou a revista Arte Musical,que dirigiu durante vinte anos. O seu interesse pela  Musicologia também ficou nas suas obras teóricas: A Música em Portugal (1928), Acústica e História da Música (1930), Tratado de Harmonia (1930), Vida de Beethoven ( 1943), A Personalidade de Beethoven (1947). E a sua influência estendeu-se à  geração seguinte de compositores, nomeadamente António Fragoso, António Nuno Barreiros, Armando José Fernandes, Fernando Lopes-Graça, Joly Braga Santo, José Atalaya e Maria Helena de Freitas.

Freguesia do Lumiar - Em 1968 (Foto: João H. Goulart, Arquivo Municipal de Lisboa)

Freguesia do Lumiar – Em 1968
(Foto: João H. Goulart, Arquivo Municipal de Lisboa)

 

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  9. Cada vez estou mais encantada com este site. Interessantíssimo.

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