A rua do diretor da Biblioteca Nacional que foi médico na I Guerra

Jaime Cortesão na década de vinte do século vinte (Foto: Arquivo Municipal)

Jaime Cortesão na década de vinte do século vinte na Sociedade de Geografia de Lisboa (Foto: Arquivo Municipal)

Trinta e três anos após a sua morte foi Jaime Cortesão perpetuado em Lisboa, no arruamento de ligação entre a Rua Salgueiro Maia e a Avenida João Paulo II, na freguesia de Marvila, com a legenda «Historiador e político/1884-1960».

Jaime Zuzarte Cortesão (Cantanhede – Ançã/29.04.1884 – 14.08.1960/Lisboa) formou-se em Medicina em 1909 mas rapidamente enveredou para a carreira de professor liceal, na cidade do Porto, a partir de 1911, até ser eleito deputado do Porto pelo Partido Democrático de Afonso Costa em 1915. Tendo ingressado na Maçonaria em 1911, Cortesão participou activamente na propaganda republicana e foi um defensor incondicional do republicanismo democrático, do igualitarismo reformista e idealista, em que a missão das elites surge continuamente afirmada.

Defendeu a participação de Portugal na Primeira Guerra Mundial quer como director do diário O Norte, quer como redactor de A Cartilha do Povo e ele próprio se empenhou no combate como médico voluntário do Corpo Expedicionário Português, na campanha da Flandres, onde foi gravemente ferido e condecorado com a Cruz de Guerra, experiência que publicou com o título Memórias da Grande Guerra (1919). Em 1918, ainda convalescente de uma doença apanhada na frente de batalha foi preso na Penitenciária de Coimbra às ordens de Sidónio (e, curiosamente, o liceu dessa cidade que se chamava Sidónio Pais é nos dias de hoje a Escola Secundária Jaime Cortesão).

Em 1919 foi nomeado director da Biblioteca Nacional e exerceu esse cargo até 1927, ano em que foi demitido por ter participado numa tentativa de derrube da ditadura militar em fevereiro, presidindo à Junta Revolucionária estabelecida no Porto. Fugiu então para Espanha mas após o bombardeamento de Barcelona pela aviação de Franco, atravessou a pé os Pirenéus cobertos de neve com outros refugiados para continuar o exílio em França.

Jaime Cortesão que a si se definia como «poeta da acção», organizara o Cancioneiro Popular e Cantigas do Povo para as Escolas, ambos publicados em 1914, integrado no programa pedagógico e cultural da República e que tem nele um dos principais animadores. Também em 1912, com o nascimento das Universidades Populares em várias cidades do país, deu nelas gratuitamente lições de História e de Literatura e, entre 1912 e 1914, publicou uma série de artigos dedicados a esta temática n’ A Vida Portuguesa e, em 1921 principiou a publicar as suas Cartas à Mocidade. Da sua vasta obra de poeta, dramaturgo, ficcionista, pedagogo, historiador e político, destacam-se os livros de poesia A Morte da Águia (1910), Glória Humilde (1914) e Divina Voluptuosidade ( 1923), os contos Daquém e Dalém Morte (1913), os dramas históricos O Infante de Sagres (1916), Egas Moniz (1918) e Adão e Eva (1921), os volumes de ensaio histórico como Do sigilo nacional sobre os Descobrimentos (1924), A Expansão dos Portugueses na História da Civilização (1930), Os Factores Democráticos na Formação de Portugal (1930), Teoria Geral dos Descobrimentos Portugueses (1940), A Política de Sigilo nos Descobrimentos nos Tempos do Infante D. Henrique e de D. João II (1960), os 2 volumes de Os Descobrimentos Portugueses (1960-1962) e Portugal – A Terra e o Homem (1966). Ainda no campo literário, com Leonardo Coimbra e outros intelectuais, fundou em 1907 a revista Nova Silva e, em 1910, com Teixeira de Pascoaes, colaborou na fundação da revista A Águia, tal como em 1912 iniciou a Renascença Portuguesa que publicava o boletim A Vida Portuguesa, que abandonará em 1921 para abraçar a fundação da revista Seara Nova.

No ano de 1940, com a invasão de França pelo exército alemão, Jaime Cortesão regressou a Portugal e foi preso, em Peniche, tempo que aproveitou para dar lições de História aos presos antes de ser expulso  do país com o carimbo de «banido» no passaporte. Seguiu para o Brasil, onde passou a residir no Rio de Janeiro e, a exercer como professor universitário, especializando-se na História dos Descobrimentos Portugueses e na Formação do Brasil. Em 1952, organizou a Exposição Histórica de São Paulo, para comemorar o 4.º centenário da fundação da Cidade. Só regressou a Portugal em 1957, para logo no ano seguinte, quando contava 74 anos de idade ser novamente preso, por 4 dias, com António Sérgio, Vieira de Almeida e Azevedo Gomes, por estarem envolvidos na campanha de Humberto Delgado. Ainda nesse ano Cortesão foi eleito presidente da Sociedade Portuguesa de Escritores.

Placa Tipo IV - Freguesia de Marvila (Foto: Sérgio Dias)

Placa Tipo IV – Freguesia de Marvila (Foto: Sérgio Dias)

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