No centenário de Francisco Lyon de Castro a sua rua alfacinha

francisco lyon de castro

Passa hoje o centenário do alfacinha Francisco Lyon de Castro, o homem das Publicações Europa-América e da criação do livro de bolso em Portugal, que ficou na memória de  uma rua lisboeta desde a publicação do Edital municipal de 16 de setembro de 2009.

Francisco Lyon de Castro (Lisboa/24.10.1914 – 11.04.2004/Rio de Mouro) distinguiu-se como o editor que fundou a Europa-América em 1945 e que muito contribuiu para a democratização do livro e da leitura, com as suas edições de bolso, na ousadia de transformar o livro num produto barato e de consumo generalizado, mas nunca descurou a sua participação cívica empenhada como simbolizava a sua boina basca de que tanto gostava .

Benjamim de 10 irmãos, de um casal de um comerciante de Óbidos e de cidadã de ascendência escocesa, começou com 14 anos como aprendiz de Artes Gráficas na Imprensa Nacional e de discussões de final de dia no Jardim do Príncipe Real com os outros tipógrafos, os metalúrgicos do Arsenal da Marinha e os sindicalistas da CGT. Em 1932 fundou o jornal Mocidade Livre e a União Cultural Mocidade Livre, para promover a cultura dos jovens operários e estudantes. No ano seguinte aderiu ao Partido Comunista Português e no final desse mesmo ano participou na preparação do movimento contra a publicação do Estatuto do Trabalho, a extinção dos sindicatos livres e a sua substituição por sindicatos corporativos, que culminou na greve em 18 de Janeiro de 1934 e na insurreição da Marinha Grande e, Francisco acabou por passar à clandestinidade, exilando-se em Espanha. Aí participou com a Passionaria no socorro às levas de mineiros asturianos que chegavam a Madrid escapando às razias de Franco para passarem clandestinamente para França e organizou  em 1935, uma exposição com material de propaganda das organizações comunistas portuguesas, do Socorro Vermelho Internacional e de jornais de prisão, que mais tarde cede ao jornal Monde, para se divulgar a luta em Portugal contra o regime de Salazar. Atravessou clandestinamente os Pirenéus, em pleno Inverno, percorrendo 80 quilómetros de automóvel e a pé, episódios que vieram a ser romanceados por Fernando Namora em Os Clandestinos.

Lyon de Castro regressou ao nosso país e, em Novembro, foi preso, ficando incomunicável em várias esquadras da PSP, no Aljube, Caxias e Peniche e, condenado a 4 anos de cadeia e desterro, 8 mil escudos de multa e 10 anos de suspensão de direitos políticos,  sendo deportado para a Fortaleza de São João Baptista, prisão da qual só saiu em 1940.  Em 1939, casou por procuração e desligou-se  do PCP por causa do pacto germano-soviético entre Hitler e Estaline. Fora da prisão vê recusada a sua readmissão na Imprensa Nacional e nos 5 anos seguintes trabalhou na pequena empresa familiar de madeiras, foi  aprendiz de alfaiate, organizou passagens de modelos e colaborou em jornais.

No ano final da II Guerra Mundial, contava Francisco 31 anos, juntou-se ao seu irmão Adelino para fundarem a editora Publicações Europa-América, em cujo nome se traduzia a aliança gerada pela guerra e a esperança de um mundo novo. Pretendiam realizar a importação de livros e publicações periódicas estrangeiras mas muitas delas eram apreendidas nos serviços dos Correios, que colaboravam com a PIDE.  O primeiro livro a sair do prelo foi Centelha de Vida de Erich Maria Remarque, que tinha por tema a vida clandestina. Na década seguinte Lyon de Castro começou  a coleção de bolso com Os Esteiros de Soeiro Pereira Gomes. Ousou também publicar outros «autores proibidos» como Alves Redol, Gabriel Garcia Marquez e Jorge Amado. Em abril de 1952, criou o jornal Ler – Jornal de Letras, Artes e Ciências, no qual usou o artifício que permitia que os boletins bibliográficos não fossem à censura mas, a publicação acabou por ser suspensa pela Censura em Outubro do ano seguinte, sob o pretexto de que o editor, Adelino Lyon de Castro, havia falecido. Francisco voltou a ser preso, tendo estado de novo no Aljube por mais duas vezes, acusado de importar publicações de natureza política subversiva e contrárias ao regime vigente.

Entre 1962 e 1964 Lyon de Castro conseguiu a construção da nova sede da sua editora, com uma cantina e dois autocarros para assegurar o transporte dos funcionários. Em 1962, no decorrer de um Congresso da União Internacional de Editores, em Barcelona, Francisco discursou para condenar o regime português pela prática da censura e proibição de livros e, três anos mais tarde, no Congresso da União Internacional de Editores, em Washington, voltou a denunciar a censura em Portugal. Neste ano de 1965 ocorreu a sua última detenção, suspeito de ligação com o assalto ao Quartel de Beja e, em 1969, Lyon de Castro integrou a CEUD (Comissão Eleitoral de Unidade Democrática) do Distrito de Lisboa. Na década seguinte, já com oficinas gráficas próprias, a Europa-América foi alvo de operações persecutórias do Governo e particularmente da PIDE, com proibição de edições e até o cerco da empresa. Em 1972, conseguiu fazer entrar em Portugal quantidades importantes do Le Portugal Bâillonné (Portugal Amordaçado) de Mário Soares.

Após o 25 de Abril de 1974, Francisco Lyon de Castro foi o primeiro presidente eleito da Associação Portuguesa de Editores então constituída, durante dois mandatos (1974-1976). Foi também o primeiro presidente eleito da Associação Portuguesa das Indústrias Gráficas. Em dezembro de 1975, foi convidado para a administração da Empresa Pública Notícias-Capital e, nomeado para presidente da Comissão de Reestruturação da Imprensa Estatizada, funções que Lyon de Castro aceitou sob a condição de não serem remunerados. Até 2002, participou todos os anos na Feira do Livro de Frankfurt, sendo talvez o mais antigo editor a frequentar aquele certame já que a sua 1ª feira fora em 1959, na qual exigiu que a Bandeira Portuguesa fosse hasteada, ou retirar-se-ia e causaria um escândalo, o que conseguiu.

Francisco Lyon de Castro foi agraciado com a Medalha Machado de Assis da Academia Brasileira de Letras (1971), a Ordem da Liberdade portuguesa (1985) , a Ordem Nacional de Mérito de França (1985) e a Ordem das Artes e das Letras francesa (2000).

 

Freguesia das Avenidas Novas

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