A «Orpheu» na Toponímia de Lisboa, no centenário da revista

nº 1 capa de Pacheko

O nº 1 (janeiro-fevereiro-março de 1915) com capa de Pacheko

Passa este ano o centenário da Orpheu, uma revista trimestral de literatura editada em Lisboa,  dada a lume a 21 de março de 1915, em resultado do plano de Fernando Pessoa  e Mário de Sá Carneiro, e que apesar da escassez de números publicados – apenas 2, já que o 3º foi cancelado por falta de financiamento – teve um papel fundamental na afirmação do modernismo português e o seu vanguardismo inspirou movimentos literários subsequentes de renovação da literatura portuguesa, sendo mesmo considerada o marco inicial do Modernismo em Portugal.

Dessa Geração d’Orpheu que colaborou na feitura da revista, a toponímia de Lisboa fixou Fernando Pessoa – numa Rua e numa Avenida-, Mário de Sá-Carneiro, Almada Negreiros  (no nº 1 e previsto para o nº 3 com a sua A Cena do Ódio),  Alfredo Guisado, Camilo Pessanha e  Amadeu de Sousa Cardoso (todos os três previstos por Fernando Pessoa para surgirem no nº3).

Os nomes que não ficaram perpetuados na cidade foram José Pacheko (arquiteto e responsável gráfico da Orpheu que desenhou a 1ª capa), António Ferro (editor dos 2 números e que foi nome de rua em Lisboa desde 14/06/1967 até 28/07/1975, altura em que passou a denominar-se Rua Luís de Freitas Branco), Armando Côrtes Rodrigues (nº1), Ângelo de Lima (poeta marginal, internado em Rilhafoles desde 1900, integrou o nº 2), Eduardo Guimarães (poemas no nº 2), Luís de Montalvor (diretor para Portugal e poema na nº 2), Raul Leal (novela na nº2), Ronald de Carvalho (diretor para o Brasil), Santa-Rita Pintor (artista plástico futurista publicado no nº 2), Violante de Cysneiros (pseudónimo de Armando Cortes-Rodrigues cujos poemas apareceram no nº2),  e Albino de Meneses, Augusto Ferreira Gomes, C. Pacheco (outro heterónimo de Pessoa), Carlos Parreira, Castelo de Morais e D. Tomás de Almeida (todos previstos para o nº3).

Outros arruamentos alfacinhas ligados à  Orpheu são a Rua da Oliveira ao Carmo, em cujo nº 10 se estabelecia a Tipografia do Comércio que imprimia a revista, a Rua Áurea onde a redação estava sediada, na Livraria Brasileira, no nº 190, mesmo que mencionada na publicação pela denominação vulgar de Rua do Ouro e, ainda a morada do diretor do 1º número que era o nº 17 do Caminho do Forno do Tijolo (desde a publicação do Edital de 17/10/1924 que é a Rua Angelina Vidal).

A Orpheu, destinada a Portugal e Brasil, introduziu em Portugal o movimento modernista, associando importantes nomes das letras e das artes e conforme carta de Fernando Pessoa  para Armando Cortes-Rodrigues «Somos o assunto do dia em Lisboa; sem exagero lho digo (…) O escândalo maior tem sido causado pelo “16” do Sá-Carneiro e a “Ode Triunfal”. Até o André Brun nos dedicou um número das “Migalhas”».

Em julho de 1915, Alfredo Guisado e António Ferro anunciaram publicamente o seu afastamento da revista por divergências políticas com Fernando Pessoa, aliás, Álvaro de Campos. Mário de Sá-Carneiro também partiu para Paris de onde em 13 de setembro seguinte escreveu a Pessoa para informar que o seu pai não podia continuar o mecenato involuntário da revista e assim se esfumou o 3º número da revista.

Recorde-se que a Portugal Futurista, publicada em Novembro de 1917 e dirigida por Carlos Filipe Porfírio, continuou a tradição vanguardista e provocadora de Orpheu, com trabalhos dos seus colaboradores, designadamente Álvaro de Campos, Almada Negreiros, Amadeu de Sousa Cardoso, Fernando Pessoa, Mário de Sá Carneiro, Raul Leal e Santa-Rita Pintor.  A importância da Orpheu começou a ser reconhecida pela segunda geração modernista nas páginas da revista Presença, publicada de 1927 a 1940, em Coimbra. Em 1984, foi publicado o terceiro número da Orpheu, , que devia ter saído em Outubro de 1917, compilado por Arnaldo Saraiva.

O nº 2 (abril-maio-junho de 1915)

O nº 2 (abril-maio-junho de 1915)

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2 thoughts on “A «Orpheu» na Toponímia de Lisboa, no centenário da revista

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