Lisboa do Estado Novo: topónimos no feminino

lisboa-feminina-estado-novo-1

Convencido que o voto feminino lhe seria favorável o Estado Novo estendeu, em 1933, o direito de votar nas eleições para as câmaras municipais, às mulheres maiores e emancipadas com família própria e, a edilidade da «Lisboa do Estado Novo» erigiu 51 placas de topónimos femininos, à média de uma por ano (1, 062 em rigor) e, foi a única no século XX a atribuir topónimos femininos em vida das homenageadas.

Por edital de 12 de março de 1932, fê-lo na Avenida Madame Curie, cientista duas vezes laureada com o Nobel (da Física e da Química) que viria a falecer em 1934 e que durante muitos anos, até 1949, foi a única Avenida com um topónimo feminino.  Por edital de 27 de outubro de 1966, repetiu a atribuição a mulheres ainda vivas, no Bairro da Cruz Vermelha, com as beneméritas da Secção Auxiliar Feminina da Cruz Vermelha, a cuja iniciativa se deveu a construção do bairro, identificando-as apenas pelos nomes próprios: Rua Maria Carlota (de Maria Carlota Saldanha Pinto Basto), Rua Maria Emília (de Maria Emília Moreira Sena Martins), Rua Maria Helena (de Maria Helena Monteiro de Barros Spínola), Rua Maria Margarida (de Maria Margarida Montenegro Fernandes Tomás de Morais), Rua Maria Ribeiro (de Maria Ribeiro Espírito Santo Silva de Melo) e Rua Maria Teresa (de Maria Teresa Assis Palha Holstein Beck) , acrescentando ainda nos arruamentos restantes do bairro, a Rua das Duas Marias, a das Quatro Marias, a das Cinco Marias e o Largo das Seis Marias, em referência às senhoras supracitadas.

lisboa-feminina-estado-novo-2

Topónimos femininos em Alvalade (Planta: Rui Mendes)

Topónimos femininos em Alvalade
(Planta: Rui Mendes)

As preferências da edilidade do Estado Novo foram para as escritoras (14), as  actrizes(8) e as rainhas e princesas (8). As escritoras escolhidas foram Antónia Pusich, Bernarda Ferreira de Lacerda, Branca de Gonta Colaço, Florbela Espanca, a galega Rosália de Castro, Violante do Céu, Marquesa de Alorna e Maria Amália Vaz de Carvalho, todas no Bairro de Alvalade; e ainda, Helena Aragão, Irene Lisboa, Maria Pimentel Montenegro, Mécia Mouzinho de Albuquerque, Virgínia Vitorino, e a brasileira Cecília Meireles.

Por ordem cronológica, consagrou também as actrizes Ângela Pinto, Lucinda Simões, Lucinda do Carmo e Virgínia, assim como  Adelina Abranches e Maria Matos no Bairro da Quinta do Charquinho e ainda, Palmira Bastos e Teresa Gomes.

Em relação às rainhas e princesas, ascendendo na data de atribuição, foram homenageadas Santa Joana Princesa numa Avenida (Edital de 13/05/1949); D. Catarina, filha de D. João IV, que se tornou rainha pelo seu casamento com Carlos II de Inglaterra e que ao enviuvar em 1685, voltou ao seu Paço, no lugar do Campo da Bemposta, através do topónimo Paço da Rainha, repondo no arruamento a designação anterior à República; Dona Estefânia, numa travessa, seguindo a toponímia já existente no local, num largo e numa rua; e, pelo edital de 10 de novembro de 1966, na Quinta das Mouras, a rainha D. Luísa de Gusmão com uma rua, a Rainha Santa e a Rainha D. Filipa com Praças e,  a Rainha D. Amélia e  a Rainha D. Leonor com Avenidas.

Refira-se ainda que na década de 30, imortalizou a heroína da independência de 1640, D. Filipa de Vilhena e, repôs a antiga denominação de Rua das Trinas na republicana Rua Sara de Matos. Nos anos 50, atribuiu a Rua das Garridas, a Rua das Francesinhas e a Travessa das Irmãzinhas dos Pobres, todas as três confirmando tradições e instituições dos locais e ainda, a violoncelista Guilhermina Suggia, em Alvalade. Na década de 70, foi a vez de reconhecer a professora Carolina Michaelis de Vasconcelos, a pintora Raquel Roque Gameiro, a pianista Nina Marques Pereira e  a médica Sara Benoliel.

A Lisboa do Estado Novo foi contrastante em termos de topónimos femininos: foi a única época com atribuições de antropónimos a mulheres vivas (11) como foi também aquela que apresentou mais topónimos (12) que distam mais de 100 anos da morte do homenageada.

De referir que dois topónimos foram sugeridos pelo próprio Presidente da Câmara – a Rua Raquel Roque Gameiro e a Rua Actriz Palmira Bastos-;  outros dois, foram pelo Vice-Presidente – a Rua Marquesa de Alorna e a Rua Guilhermina Suggia-; outros três resultaram de recortes de jornais presentes à Comissão de Toponímia – a Rua Actriz Adelina Abranches, a Rua Actriz Maria Matos e a Rua Nina Marques Pereira -; assim como outros dois nascem de requerimentos de particulares – a Travessa de D. Estefânia e a Rua Teresa Gomes-, um foi originado por requerimento dos moradores do local – a Travessa das Irmãzinhas dos Pobres – e outro, por pedido de familiares – a Rua Helena Aragão.

lisboa-feminina-estado-novo-3

 

Anúncios

One thought on “Lisboa do Estado Novo: topónimos no feminino

  1. Pingback: A Rua da professora de canto e cantora lírica Maria Júdice da Costa | Toponímia de Lisboa

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s