A Rua Vitor Cordon e a defesa de África face ao Ultimato inglês

Freguesias da Misericórdia e de Santa Maria Maior (Foto- Sérgio Dias)

Freguesias da Misericórdia e de Santa Maria Maior
(Foto:  Sérgio Dias)

Ramalho Ortigão frequentava o Hotel Bragança, para jantares dos Vencidos da Vida, sendo que este estabelecimento que se localizava nos números 41 a 43 da Rua Vítor Cordon também aparece mencionado em romances de Eça de Queirós.

Esta artéria que começa no cimo da Calçada de São Francisco e termina na Rua António Maria Cardoso, segundo o olisipógrafo Norberto de Araújo foi «antes Rua do Ferregial de Cima, e nos séculos velhos – com traçado diferente, é claro – Rua de Nossa Senhora dos Mártires.»

Foi pelo edital de 06/02/1890 que a edilidade lisboeta decidiu homenagear nas suas ruas os nomes de Paiva de Andrada, António Maria Cardoso e Vítor Cordon, justificando o «quanto importa perpetuar na memória dos povos e através das gerações os nomes dos que lidam com abnegação e valor pela grandeza da pátria, e renovam hoje em terras de África o brilho das nossas melhores tradições» e ainda acrescentando que «os serviços destes nossos compatriotas na pacífica e completa realização do vasto plano de reivindicação elaborado pelo gôverno da metrópole são de ordem tal, que até arrancaram aos próprios inimigos um insuspeito e valiosíssimo testemunho de admiração.»

Já cinco anos antes, através do edital de 7 de setembro de 1885, a Câmara atribuíra na mesma freguesia, então dos Mártires, os topónimos Rua Anchieta, Rua Capelo, Rua Ivens e Rua Serpa Pinto, todos referentes a exploradores dos territórios africanos. Mas o Edital de 06/02/1890 é ainda mais claro quanto à escolha das três figuras a homenagear ao referir que «em resultado das injustificáveis exigências do governo inglês, compreendidas no Ultimatum de 11 de Janeiro passado e apenas escudadas no direito da força, inutilizados ficam em grande parte os trabalhos destes três beneméritos da Pátria, cabendo-lhes, além do quinhão na dor comum a todos os portugueses, a dor quiçá mais intensa, de ver perdido o fruto de tantas privações e tão grandes trabalhos.»

Francisco Maria Vítor Cordon (Estremoz/15.03.1851 – 15.08.1901/Mafra) iniciou a sua carreira militar em África em 1876, integrado na expedição encarregada de construir o caminho-de-ferro de Ambaca. Em Angola exerceu as funções de chefe do serviço telegráfico (1879) e de governador do Ambriz (1882) e de Novo Redondo (1884). Em 1888-89 procedeu à exploração e ocupação do interior de Moçambique, de Zumbo a Quelimane, assinando termos de vassalagem com os diversos régulos pelo que no ano seguinte foi proclamado benemérito da Pátria e nesse mesmo ano de 1890 passou a topónimo lisboeta.

O próprio edital municipal que lhe concede topónimo a ele se refere exaltando « o êxito completo e brilhante da expedição de Francisco Maria Vítor Córdon, que partindo do Zumbo e seguindo os cursos do Panhane e de parte do Umfuli, subiu depois o Sanhate até à sua foz, percorrendo assim toda a região, designadas nas cartas do Marquês de Sá da Bandeira, como fronteira oriental da província de Moçambique ao sul do Zambeze, (…) Recordando ainda os trabalhos e privações suportadas animosamente com risco da saúde e da vida no decurso destas brilhantes expedições e exemplificadas entre tantos no facto ocorrido com Vítor Córdon, alimentando-se durante 45 dias com carne de búfalo em putrefacção e uns pequenos e miseráveis bolos de farinha de milho; (…)»

A título de curiosidade mencionamos que o prédio com o nº1, onde se encontra a sede da CGTP-IN, foi antes a FNAT – Fundação Nacional da Alegria pelo Trabalho e outrora, o Palácio dos Vilas Francas.

Placa Tipo II - Freguesias da Misericórdia e de Santa Maria Maior (Foto- Sérgio Dias)

Placa Tipo II – Freguesias da Misericórdia e de Santa Maria Maior
(Foto:  Sérgio Dias)

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