O adeus de Fernando Assis Pacheco na Rua Duque de Palmela

Fernando Assis Pacheco em Paris, de reportagem, em 1988 (Foto: Fernando Assis Pacheco no Facebook)

Fernando Assis Pacheco em Paris em 1988
(Foto: Fernando Assis Pacheco no Facebook)

Fernando Assis Pacheco, jornalista, escritor e amante de livros, após uma das suas visitas regulares à Livraria Bucholz, na Rua Duque de Palmela, naquela artéria faleceu em 1995,  acontecimento que o escritor galego Torrente Ballester sintetizou como «Morreu junto aos livros, no seu posto, como soldado no campo de batalha.»

A Rua Duque de Palmela é um topónimo do último quartel do séc. XIX em resultado da deliberação camarária de 12/04/1885 e Edital municipal de 19/04/1887, fixado na Rua nº 4,  então descrita no Edital «a primeira rua parallela á Avenida da Liberdade, pelo lado do poente, (…) e comprehendida entre a Rua Alexandre Herculano e a rua obliqua que se projecta, a ligar esta ultima com a Praça Marquez de Pombal.» Homenageia Pedro de Sousa Holstein que «contribuiu tão poderosamente com a sua penna como diplomata e homem de estado, como outros com as espadas, para o triumpho do regimen liberal, e que havendo a camara ja votado os nomes das ruas “Duque da Terceira” e “Marechal Saldanha“, cumpre dedicar tambem uma rua á memoria d’aquelle benemerito da patria, a fim de reparar a injustiça que ora se dá». 

Freguesia de Santo António (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de Santo António
(Foto: Sérgio Dias)

Pedro de Sousa Holstein (Turim/08.05.1781 – 12.10.1850/Lisboa), conde de Sanfré no Piemonte, foi o 1.º conde (decreto de 11/04/1812), 1.º marquês (03/07/1825) e 1.º duque de Palmela (13/07/1833) e marechal de campo mas, sobretudo, político   cartista moderado que desempenhou as funções de par do Reino desde 1826 e presidente da respectiva câmara a partir de 1833; presidente da Câmara dos Senadores em 1841; conselheiro de Estado; embaixador extraordinário e ministro plenipotenciário em diversas cortes estrangeiras (Cúria Romana, Cádis e Londres); representante de Portugal no congresso de Viena em 1815; ministro dos negócios estrangeiros em 1817, 1823 e 1835 ; presidente da Regência estabelecida na ilha Terceira em 1830 e do Conselho de Ministros em 1842  e 1846 .

Refira-se que o Duque de Palmela foi um dos que primeiro e mais generosamente contribuíram para as despesas da guerra no tempo das invasões napoleónicas, bem como nas lutas entre absolutistas e liberais, tendo desembarcado em Lisboa com as tropas vitoriosas do Duque de Terceira em 24 de julho de 1833.

Este morador alfacinha da zona das Chagas e com quinta no Lumiar, recebeu os galardões da Grã-Cruz das Ordens de Cristo e Torre e Espada, de Cavaleiro do Tosão de Ouro, da Grã-Cruz de Carlos III de Espanha, da Legião de Honra francesa, de Santo Alexandre Nevsky da Rússia e de Cavaleiro de S. João de Jerusalém e teve biografias redigidas por António Pedro Lopes de Mendonça, Luís Augusto Rebelo da Silva, e Maria Amália Vaz de Carvalho.

Freguesia de Santo António (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia de Santo António
(Planta: Sérgio Dias)

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Fernando Assis Pacheco na Tinta da China e a Rua Francisco Ferrer

Freguesia de São Domingos de Benfica (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de São Domingos de Benfica
(Foto: Sérgio Dias)

A última obra publicada de Fernando Assis Pacheco, no final do ano passado,  é  Bronco Angel , pela Tinta da China, que tem sede no nº 6-A da Rua Francisco Ferrer, republicano e fundador da Escola Moderna fuzilado em 1909, cujas últimas palavras foram «Hijos mios apuntad bien! No teneis culpa. Soy inocente. Viva la Escuela Moderna!»

Aliás, esta Rua Francisco Ferrer que nasceu na Rua “B” no Alto dos Moinhos pelo Edital municipal de 04/05/2011, foi inaugurada no dia 5 de outubro de 2011, como as de mais 6 republicanos – Augusto Monjardino  (Jardim), Jaime Batalha Reis (Rua), João Chagas (Rua), Luz de Almeida (Rua), Machado Santos (Avenida) e Mário de Azevedo Gomes (Rua) – no âmbito das comemorações municipais do Centenário da República.

Quando em 1909 esteve em Portugal, Francisco Ferrer visitou a Escola-Oficina nº 1, no Largo da Graça, que seguia a pedagogia por ele defendida, mas foi prontamente conduzido pela polícia ao Governo Civil para ser reconduzido para Espanha, onde foi preso a 1 de Setembro de 1909, acusado de ter sido o instigador da Semana Trágica de Barcelona e fuzilado em 13 de outubro de 1909, o que despoletou manifestações por toda a Europa e no Brasil a deplorarem o sucedido, incluindo o próprio Papa. Em Lisboa, uma multidão nas ruas gritou contra «a Espanha Negra e o governo de Maura» e encaminhou-se para a legação espanhola sendo dispersada pelas forças da autoridade e continuado o  protesto no Rossio. É neste contexto que oito dias depois da morte de Francisco Ferrer, na reunião de Câmara de 21 de outubro de 1909, é dado conta que a Comissão paroquial republicana do Campo Grande propunha a substituição da Avenida do Parque por Avenida Francisco Ferrer, a junta paroquial da Ajuda e diversos munícipes também pediam o nome do pedagogo para uma rua da capital (tal como 8 dias depois também sucede com a junta da paróquia da Encarnação) e, o presidente da edilidade, Braamcamp Freire, apresentou um voto de pesar e uma proposta para lhe dar nome de rua em Lisboa, aprovada por unanimidade, tendo o vereador Agostinho Fortes sido incumbido de designar a via pública para o efeito. Contudo, o Governo Civil de Lisboa anulou o efeito prático dessa deliberação e, só após a implantação da República, o executivo lisboeta, na sua reunião de 4 de setembro de 1913, voltou a dar o nome de Francisco Ferrer, desta feita à antiga Rua da Conceição da Glória, embora não se encontre o Edital que o fixou na toponímia lisboeta, de que resulta que em 2011 fique finalmente na toponímia alfacinha.

Francesc Ferrer y Guàrdia (Espanha – Alella/14.01.1859 – 13.10.1909/Barcelona – Espanha), era um catalão republicano, maçónico e fundador da Liga Internacional para a Educação Racional da Infância que em agosto de 1901 fundou a Escola Moderna, com uma metodologia baseada na cooperação e no respeito mútuo, para crianças de ambos os sexos desfrutarem de uma situação de igualdade desde cedo, e sem repressão, castigos, submissão e obediência. Os seus métodos de ensino – não-autoritários, racionalistas, com turmas mistas – provocaram na época a oposição dos mais conservadores da sociedade e da igreja e o movimento republicano assumiu Ferrer como o pedagogo do cidadão novo.

Durante a I República espanhola (1873-1874) Ferrer participou nas experiências de educação popular e apoiou a insurreição militar de 1886 que pretendia proclamar a República mas o fracasso desta conduziu-o ao exílio em Paris, onde sobreviveu ensinando espanhol e maturando os conceitos educativos que aplicaria na sua Escola Moderna. Mais tarde passou a anarquista, empenhando-se na campanha para a libertação dos presos de Alcalá del Valle bem como na criação do núcleo sindicalista de Barcelona da Solidariedad Obrera e, de 1901 a 1903, publicando artigos no jornal A Greve Geral onde reconheceu a tese libertária da greve geral como prelúdio da revolução social.

Freguesia de São Domingos de Benfica (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia de São Domingos de Benfica
(Planta: Sérgio Dias)

A Rua Passos Manuel da Assírio &Alvim

Freguesia de Arroios (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de Arroios
(Foto: Sérgio Dias)

«Eras assim, Fernando Assis Pacheco, homem que uma vez vi passar na Passos Manuel com uma daquelas camisas de cores africanas, berrantes para uma Lisboa de casacos cinza» referiu Nuno Costa Santos e podemos imaginar que o escritor e jornalista ia ou vinha do nº 67 dessa artéria, morada da Editora Assírio & Alvim que lhe publicou A Musa IrregularMemórias de um CraqueRespiração Assistida, Trabalhos e Paixões de Benito PradaWalt ou O Frio e o Quente.

Passos Manuel foi o nome pelo qual ficou conhecido o político Manuel da Silva Passos, considerado o principal obreiro da Revolução de Setembro,  e que a si mesmo se definia como um«democrata incorrigível e adepto intransigente da soberania popular», e ganhou o estatuto de topónimo de uma rua de Lisboa 22 anos após o seu falecimento, por Edital do então Presidente da Câmara, José Gregório da Rosa Araújo.

Por esse mesmo Edital municipal de 04/03/1884 foram ainda atribuídos na mesma zona os topónimos Rua Angra do Heroísmo, Rua Mindelo,  Rua José Estêvão e Rua Rebelo da Silva, todos com o denominador comum de evocarem figuras ou acontecimentos marcantes do Liberalismo.

Ilustração Portuguesa, 04.07.1904

Ilustração Portuguesa, 04.07.1904

Manuel da Silva Passos (Matosinhos – Bouças/05.01.1801 – 16.01.1862/Santarém) foi um político Setembrista, da ala esquerda do Liberalismo, que se distinguiu como deputado, eminente orador e ministro entre 1836 e 1842, nas pastas do Reino, da Fazenda e da Justiça, salientando-se sobretudo a intensa obra feita na área da educação, ao promover reformas e abrir novos estabelecimentos de ensino, não sendo assim de estranhar que ainda hoje o seu nome esteja perpetuado num antigo Liceu alfacinha.

Como Ministro do Reino, ao tempo responsável pelas políticas educativas, criou em 1836 a Casa Pia de Évora, o Conservatório Geral de Arte Dramática, a Academia de Belas Artes, o Conservatório das Artes e Ofícios de Lisboa e, no ano seguinte, o Conservatório Portuense de Artes e Ofícios e a Academia Politécnica do Porto. A 17 de novembro de 1836 também publicou um decreto criando liceus em todas as capitais de distrito, lançando assim as bases do moderno sistema de ensino. Nesse mesmo ano ainda reorganizou as Escolas Médico-Cirúrgica de Lisboa e do Porto, assim como estabeleceu a primeira faculdade de Direito portuguesa, pela fusão das anteriores faculdades de Cânones e de Leis da Universidade de Coimbra.

Ainda no ano de 1836, em 31 de dezembro,  fez publicar um novo Código Administrativo, que contou com a colaboração do seu irmão, José da Silva Passos, com quem sempre contou para a fundação de jornais, como O Amigo do Povo e o Revolução de Setembro.

Passos Manuel era desde 1822 formado em Leis por Coimbra, tal como o seu irmão mais velho José da Silva Passos e, exerceu como advogado na cidade do Porto, nomeadamente na Relação e Casa do Porto e, foi na década de vinte do séc. XIX  que numa loja de Coimbra se iniciou na Maçonaria, sob o nome simbólico de Howard, tendo mais tarde sido Grão-Mestre do Norte (1834 – 1850).

Emigrado durante o Miguelismo na Corunha, em Plymouth e na Bélgica, integrou-se em 1832 como oficial no Batalhão de Voluntários de Leça, com participação intensa na política durante o cerco do Porto. Em 1834 foi eleito deputado pelo Douro no lado saldanhista, passando a representar nas Cortes a esquerda mais radical do Vintismo e, quando em 9 de setembro de 1836  a Guarda Nacional pegou em armas para ocupar a capital, proclamando a Constituição de 1822 estava desencadeada a Revolução de Setembro que Passos Manuel defendia.

A partir de julho de 1837 dedicou-se à lavoura e a constituir família, no Ribatejo, como o próprio referiu num discurso nas Cortes em 18 de outubro de 1844, de que  «não há melhor antídoto para as paixões políticas do que o casamento e a gordura», apesar de depois ainda ter sido depois deputado pelo Porto (1838), por Nova Goa (1842) e por Santarém (1851), bem como senador (1841) e nomeado Par do Reino por carta régia de 1861, cargo esse que já não chegou a ocupar por razões de saúde.

Freguesia de Arroios

Freguesia de Arroios                                                                           (Planta: Sérgio Dias)

A Travessa dos Inglesinhos do «Record»

Freguesia da Misericórdia

Freguesia da Misericórdia
(Foto: Artur Matos)

O futebol teve um lugar de relevo no trabalho de jornalista de Fernando Assis Pacheco que também redigiu crónicas desportivas em 1972 para o jornal desportivo Record, que na época tinha sede no Bairro Alto, com entrada na Travessa dos Inglesinhos e janelas e painel publicitário também para a Rua da Atalaia e hoje se encontra na Rua Luciana Stegagno Picchio.

O futebol que o miúdo Assis Pacheco praticou na Rua Guerra Junqueiro de Coimbra, e a sua ligação a esse desporto foi feito folhetim numa abada de sábados no Record, de 22 de abril e 25 de novembro de 1972, e acabou reunido sob o título Memórias de um Craque  (2005).

(Foto: Artur Matos)

(Foto: Artur Matos)

A Travessa dos Inglesinhos que liga  Rua da Atalaia à Rua dos Caetanos deriva o seu topónimo da existência no local do Colégio de São Paulo e São Pedro, conhecido como Convento dos Inglesinhos, que entre 1632 e 1644 foi erguido em terras doadas por D. Pedro Coutinho. 

Este Colégio destinava-se à educação de ingleses católicos que residissem em Portugal ou de sacerdotes católicos ingleses e irlandeses que estivessem de passagem pelo nosso país e, foi reconstruído após o Terramoto de 1755, com a traça que ainda se pode ver na igreja desativada do que é agora um condomínio fechado.

Nota curiosa é que após o Ultimatum inglês de 1890, a população alfacinha passou a apelidar esta artéria como “Travessa dos Ladrões”, tal como a Travessa do Enviado de Inglaterra ficou então conhecida como “Travessa do Diabo Que o Carregue”. A gíria contra os ingleses também incluiu designar uma libra por uma “ladra”,  “beef” ser sinónimo de patife e uma “inglesada” ser um roubo.

Freguesia da Misericórdia

Freguesia da Misericórdia

Rua da Rosa nas Memórias do Contencioso

Freguesia da Misericórdia

Freguesia da Misericórdia

Nas suas Memórias do Contencioso (1980), Fernando Assis Pacheco publicou o poema «Rua da Rosa, Lisboa: O pombo», que nos remete para essa artéria do Bairro Alto cujo nome radica nas partilhas da família Andrade.

A empresa do Descobrimentos que fez muitos portugueses seguirem a rota dos ventos fez também, no regresso, aumentar o número de gentes em Lisboa e, particularmente, no então recente traçado do Bairro Alto, onde se insere a Rua da Rosa.

Gomes de Brito, olisipógrafo e antigo Chefe do Arquivo Geral da Câmara,  defende na sua obra Ruas de Lisboa que já em 1597, existia a  chamada Rua das Rosas das Partilhas.

Sabido é que a Vila Nova de Andrade, depois designada Bairro Alto de S. Roque, começou a ser loteada em 1513. A Rua da Rosa, cortando o bairro no sentido sul-norte e, até há bem pouco tempo servindo de linha divisória entre as Freguesias de Santa Catarina e da Encarnação, constitui a fronteira de uma urbanização de palácios e edifícios populares em coexistência, sendo estes últimos construídos desde o início do bairro a leste daquela via, e os palácios ou edifícios com jardins sempre voltados a oeste. E esta Rua da Rosa  foi também a linha de divisão de propriedades entre os irmãos da família Andrade, nas partilhas que fizeram. Ainda em 1620-30, dos bens de Miguel Leitão de Andrade fazia parte a zona entre a Rua da Rosa e a Rua Formosa (hoje, Rua de O Século).

memórias do contencioso raa1964

E terminamos com  o poema de Fernando Assis Pacheco:

Se o galo gala o pombo pomba? este pombava
ao sol das três da tarde lisboeta num passeio da Rua da Rosa
senhor de si não digo nem arrogante mas com alguns direitos v g do apetite
pombava enquanto carros subiam em segunda aí está cauteloso
o peito inflado as penas do rabo num leque amorável sendo
nele tudo isto «a procura de Deus derramado na urbe» a vinte e dois anos e meio
do fim do mundo
ó futurólogos que me não largais

preciso para o voyeur: pombava e dançava e nos intervalos
céleres da dança pombava ainda apesar de tudo obsequioso
com a fêmea não fosse ela sôbolos pneus que rodam
rua acima ficar-se como a amiga de Ignacio Morel (in Ramón J. Sender)

igual a mim quando pombo ia pombando este pois que se trata
de a buscar sempre mesmo repetida
de uma geração a outra aquilo que é soberbo o amor a novidade

Freguesia da Misericórdia (Planta : Sérgio Dias)

Freguesia da Misericórdia
(Planta : Sérgio Dias)

 

Uma Saudade Burra da Rua das Olarias

Freguesias de Santa Maria Maior, de São Vicente e de Arroios (Foto: Sérgio Dias)

Freguesias de Santa Maria Maior, de São Vicente e de Arroios
(Foto: Sérgio Dias)

Saudade Burra é o título de um documentário sobre Fernando Assis Pacheco,  produzido pela Mínima Ideia, sediada no nº 51 da Rua das Olarias, topónimo que guarda a memória dos oleiros do sítio.

Este documentário de 50 minutos é da autoria de Nuno Costa Santos, com realização de Margarida Moura Guedes e Paulo Galvão, e produzido pela Mínima Ideia,  em 2012, para a RTP.

Sobre a Rua das Olarias, que une o Largo das Olarias às Escadas do Monte, retrata Norberto de Araújo que «”Olarias” – a palavra o diz – corresponde ao aglomerado de fabricantes de louças de barro, de que esta raiz ou encosta do Monte era fértil. Em toda a Lisboa, mais ou menos, houve sempre oleiros, pintores, cosedores, barristas, azuleijistas, artistas e artífices dessa arte tão popular, tão útil e até tão poética de trabalhar o barro, fabricantes de louça vermelha, essa redondilha menor de cerâmica. (…) Quando Afonso Henriques tomou Lisboa já por aqui andavam, é claro, os mouros pois deles eram a Cidade e os subúrbios. Por este sítio cultivavam-se terras, em hortas frescas (as almuinhas) e em olivais, que haviam de dar os Lagares (de azeite e não de vinho), e abriam-se barrocais de greda, no desenvolvimento da arte de olaria e cerâmica seguimos para o vale que deu a Mouraria , e da passagem que havia de ser dos Cavaleiros para nascente, isto é: para o sopé da encosta da praça e do Monte, numa planície de relativa extensão, ficou um subúrbio de oleiros, e de cujas primeiras dinastias há vagas noticias, as suficientes para se saber que existiram. No século XVI, no seu começo, o sítio era caracterizadamente dos oleiros, certo como era que pelo primeiro Foral dado a Lisboa em 1179, tempos finais do primeiro Afonso era livre o fabricar “ollas” tanto como o fabricar pão. (…) A urbanização do sitio começou por 1498, em arrabalde definido, depois de D. Manuel tomar conta do “Almocovar” ou cemitério dos mouros (na encosta do Monte do lado da Bombarda), cujos túmulos foram impiedosamente profanados, sendo as lousas e lápides de pedra doadas ao Hospital de Todos os Santos (do Rossio), e certamente os terrenos também. Onde é hoje a área dos Lagares – lagares havia. Pode adivinhar-se a configuração rústica do sítio a um lado, e industrial a outro, este mais a nascente, abrangendo a Rua da Bombarda, que já vimos (então da “Lombarda”, 1568, seu verdadeiro nome), a Rua depois (1637) chamada de Agostinho de Carvalho e a Rua e o Largo das Olarias, além do Forno de Tijolo, local onde haveria alguns fornos e não um apenas, especificadamente. (…) Os lagares foram desaparecendo lei inevitável da urbanização lenta; as olarias resistiram e chegavam no tempo dos Felipes, de Espanha, e, pelo século XVII dentro, ao seu apogeu. Na terceira década de seiscentos havia por aqui oitenta artífices oleiros. Só no século XVIII, com a criação de fábricas já em grande, “modernas”, e com outros horizontes industriais, as olarias entraram em declínio (…)  Presentemente, e desde há três dezenas de anos [Norberto de Araújo escreve em 1938-1939], das olarias do sítio das Olarias não restam vestígios, sendo delas uma reminiscência, aliás importante, a, já citada atrás, Fábrica da Viúva Lamego, no Intendente, que, encostada à Bombarda, fazia parte da área; em 1885 havia ainda duas ou três olarias na Calçada Agostinho de Carvalho, e que agonizavam no começo do nosso século [século XX].»

Finalmente, mostramos o poema de Fernando Assis Pacheco em que aparece a «saudade burra»:

O Poeta no Supermercado

I
Indignar-me é o meu signo diário.
Abrir janelas. Caminhar sobre espadas.
Parar a meio de uma página,
erguer-me da cadeira, indignar-me
é o meu signo diário.

Há países em que se espera
que o homem deixe crescer as patas
da frente, e coma erva, e leve
uma canga minhota como os bois.
E há os poetas que perdoam. Desliza
o mundo, sempre estão bem com ele.
Ou não se apercebem: tanta coisa
para olhar em tão pouco tempo,
a vida tão fugaz, e tanta morte…
Mas a comida esbarra contra os dentes,
digo-vos que um dia acabareis tremendo,
teimar, correr, suar, quebrar os vidros
(indignar-me) é o meu signo diário.

II
Um homem tem que viver.
e tu vê lá não te fiques
– um homem tem que viver
com um pé na Primavera.

Tem que viver
cheio de luz. Saber
um dia com uma saudade burra
dizer adeus a tudo isto.
Um homem (um barco) até ao fim da noite
cantará coisas, irá nadando
por dentro da sua alegria.

Cheio de luz – como um sol.
Beberá na boca da amada.
Fará um filho.
Versos.
Será assaltado pelo mundo.
Caminhará no meio dos desastres,
no meio de mistérios e imprecisões.
Engolirá fogo.

Palavra,
um homem tem que ser
prodigioso.
Porque é arriscado ser-se um homem.
É tão difícil, é
(com a precariedade de todos os nomes)
o começo apenas.

Freguesias de Santa Maria Maior, de São Vicente e de Arroios (Planta: Sérgio Dias)

Freguesias de Santa Maria Maior, de São Vicente e de Arroios
(Planta: Sérgio Dias)

A Rua Nova da Trindade de 1836

Placa Tipo II - Freguesias da Misericórdia e e de Santa Maria Maior (Foto: Sérgio Dias)

Placa Tipo II – Freguesias da Misericórdia e e de Santa Maria Maior
(Foto: Sérgio Dias)

Fernando Assis Pacheco teve em 2004 uma reedição do seu Variações em Sousa pela editora Cotovia, cuja sede se regista no nº 24 da Rua Nova da Trindade, artéria cujo topónimo evoca o Convento da Santíssima Trindade, apesar de ter sido aberta em 1836, após a extinção deste monastério.

Freguesias da Misericórdia e e de Santa Maria Maior (Foto: Sérgio Dias)

Freguesias da Misericórdia e e de Santa Maria Maior
(Foto: Sérgio Dias)

Esta artéria que hoje se estende  do Largo do Chiado ao Largo Trindade Coelho  foi espaço da Portaria do Carro, da Travessa do Secretário de Guerra até em 1836 ser a Rua Nova da Trindade.

Segundo Gustavo de Matos Sequeira «A Portaria do Carro, ficava, como o leitor já sabe, onde corre o leito da rua Nova da Trindade, junto à entrada da travessa de João de Deus». Depois, no séc. XIX, em 1836, suprimido o convento é aberta a Rua Nova da Trindade, no prolongamento da Travessa do Secretário da Guerra. De seguida, um edital do Governo Civil de Lisboa de 1 de setembro de 1859, fez com que a Rua Nova da Trindade e a Travessa de João de Deus (apenas a parte no seguimento daquela) passassem a constituir um arruamento único com a denominação de Rua Nova da Trindade e, quatro anos depois, outro edital do Governo Civil de Lisboa, de 6 de julho de 1863, incorporou a Travessa do Secretário da Guerra na Rua Nova da Trindade, «favoravel à pretenção dos supplicantes, no sentido de que a referida travessa se considere, como realmente é, prolongamento e continuação da rua nova da Trindade». Ainda de acordo com Gustavo de Matos Sequeira a Travessa do Secretário da Guerra, referente a Francisco Pereira da Cunha, só surge em 1680 sendo sabido que em 1552 era a Rua da Trindade.

O Convento da Santíssima Trindade, concluído em 1325, originou diversos topónimos na zona. Após o terramoto de 1755 a sua reconstrução prolongou-se por décadas, acompanhando o edifício parte do lado oriental da Rua Larga de S. Roque (hoje, Rua da Misericórdia) e tinha a fachada principal virada a sul, nela se abrindo a portaria para o lado norte do Largo da Trindade e a nova igreja do convento localizava-se no prédio da Livraria Barateira. Em 1833 são dispersos os frades e em 1834, é suprimido o convento, através do seu loteamento e venda. O refeitório do antigo edifício conventual é o vestígio  que ainda hoje podemos encontrar como salão grande da Cervejaria Trindade.

Freguesias da Misericórdia e e de Santa Maria Maior (Planta: Sérgio Dias)

Freguesias da Misericórdia e e de Santa Maria Maior
(Planta: Sérgio Dias)

A Rua de Santo António à Estrela desde 1881

Freguesia de Campo de Ourique (Foto: Sérgio Dias)

Freguesias da Estrela e de Campo de Ourique
(Foto: Sérgio Dias)

Esta Rua de Santo António à Estrela liga-se a Fernando Assis Pacheco por o seu nº 84 ter sido a morada dos seus sogros, João e Germana Ruella Ramos e por isso mesmo, a sede do Sempre Fixe.

Esta artéria era a Rua de Santo António da Praça do Convento do Coração de Jesus até a deliberação camarária de 6 de junho de 1881 e o consequente Edital de 14 do mesmo mês simplificar o topónimo para Rua de Santo António à Estrela, a partir de uma proposta do vereador Henrique Gerardes apresentada em sessão de câmara de 20 de maio de 1881.

Refira-se que em 1905 vários prédios da Rua de Santo António à Estrela foram vendidos para possibilitar a abertura da Rua Domingos Sequeira.

Este santo popular lisboeta, que dá nome a esta artéria e cuja data de nascimento constitui o feriado municipal da cidade, tem nos dias de hoje mais 17 artérias na cidade em sua homenagem, a saber: Alameda de Santo António dos Capuchos, Calçada de Santo António e Rua de Santo António dos Capuchos (Arroios e Santo António); Rua de Santo António a Belém, Travessa de Santo António a Belém e Travessa de Santo António à Junqueira (Belém); Travessa de Santo António a Santos (Estrela); Alameda da Quinta de Santo António (Lumiar); Largo de Santo Antoninho (Misericórdia ); Travessa de Santo António (Santa Clara); Largo de Santo António da Sé, Rua do Milagre de Santo António, Rua de Santo António da Sé e Travessa de Santo António da Sé (Santa Maria Maior); Rua de Santo António da Glória (Santo António); Rua do Vale de Santo António e Travessa de Santo António à Graça (São Vicente).

Freguesia de Campo de Ourique (Planta: Sérgio Dias)

Freguesias da Estrela e de Campo de Ourique
(Planta: Sérgio Dias)

A Travessa de Estêvão Pinto da Quinta da Torre

Freguesia de Campolide (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de Campolide
(Foto: Sérgio Dias)

Fernando Assis Pacheco publicou as suas 1ªs  edições de  Variações em Sousa (1987) e de A Musa Irregular (1991) na Hiena, editora distribuída pela Sodilivros cuja sede se encontra no nº 6 A da Travessa de Estêvão Pinto, em memória do proprietário da Quinta da Torre que era também guarda-jóias de D. João V.

Este arruamento que começa junto à Faculdade de Economia da Universidade Nova e finda no Beco de Estêvão Pinto já aparece mencionado na Planta Topográfica de Lisboa de 1909, de Júlio Silva Pinto e Alberto Sá Correia embora a memória toponímica seja provavelmente da época de D. João V, tanto mais que as memórias paroquiais da freguesia de São Sebastião da Pedreira em 1760 já referem a quinta de Estêvão Pinto no sítio de Campolide.

Freguesia de Campolide - Placa Tipo II (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de Campolide – Placa Tipo II
(Foto: Sérgio Dias)

De acordo com Norberto de Araújo (nas suas Peregrinações em Lisboa) este topónimo preserva a memória de «Estêvão Pinto de Morais Sarmento, proprietário neste sítio de terrenos e casas no século XVIII, antes do Terramoto – a “Quinta da Tôrre”-, guarda joias de D. João V, e muito seu privado. (…) A Capela de N. Senhora da Penha, que pertencera à Casa de Estêvão Pinto, converteu-se, totalmente transformada, numa bela Igreja, inaugurada em 1884 pelo Patriarca D. José Neto.»

A Universidade Nova de Lisboa, fundada a 11 de agosto de 1973, tem hoje instalado o seu Campus de Campolide nos terrenos da Quinta da Torre onde antes, a partir de 1858, esteve sediado o famoso Colégio dos Jesuítas de Campolide, inaugurado em 28 de junho desse ano, comprado por 4 contos de réis  ao poeta e jornalista miguelista João de Lemos (1818 – 1890) e encerrado em 1910 após a vitória republicana. Consta que em setembro de 1833 D. Pedro IV terá assistido, do alto da torre que dava nome à Quinta, aos combates de Campolide entre as tropas absolutistas e os liberais. O Batalhão de Caçadores 5 esteve também aqui até ao final da década de 70 do século XX e em 1987 veio a Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa para este espaço.

Freguesia de Campolide (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia de Campolide
(Planta: Sérgio Dias)

A Rua «Amigos de Lisboa» e Fernando Assis Pacheco na «Olisipo»

Freguesia de Marvila (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de Marvila
(Foto: Sérgio Dias)

A Rua «Amigos de Lisboa» que como descreve a sua legenda é uma «Instituição Cultural fundada em 1936» e assim completa 80 anos de existência no corrente ano, no nº 7  do seu boletim Olisipo, em dezembro de 1998, publicou um artigo de Fernando Assis Pacheco intitulado  «Os comeres e beberes de Santo António», ligando-se deste modo ao escritor e jornalista que era também um apaixonado das histórias da gastronomia.

O topónimo Rua «Amigos de Lisboa» foi atribuído pela edilidade lisboeta através de edital de 20/03/1995 na Rua Projectada à Rua do Açúcar, zona onde desde 1973 o Grupo Amigos de Lisboa estava sediado, no Palácio da Mitra, na Rua do Açúcar,  como revela o parecer da Comissão Municipal de Toponímia, na sua reunião de 16/12/94, referindo que «Dada a proximidade do arruamento com a sede do Grupo “Amigos de Lisboa”, instituição cultural que tão bons serviços tem prestado à Cidade, a Comissão considerou dever aproveitar-se a oportunidade para se prestar homenagem à referida instituição, dando o seu nome à actual Rua Projectada à Rua do Açúcar.» 

GAL emblemaO Grupo «Amigos de Lisboa», de cuja comissão organizadora fizeram parte os ilustres olisipógrafos Augusto Vieira da Silva, Gustavo Matos Sequeira, Luís Pastor de Macedo e Norberto de Araújo, bem como Alberto Mac-Bride, Eugénio Mac-Bride, Álvaro Maia,  Eduardo Neves, João Pinto de Carvalho (Tinop), José Pereira Coelho, Leitão de Barros, Levy Marques da Costa, Mário de Sampayo Ribeiro e Rocha Martins, deu a conhecer junto da imprensa a sua formação através de uma carta ao jornal O Século e realizou a sua primeira assembleia-geral em  18 de abril de 1936, com aprovação dos estatutos. Em 1987, os estatutos da instituição forma renovados mas mantendo os objectivos iniciais de defender o património artístico monumental e documental olisiponense, de contribuir para o estudo e solução dos problemas do urbanismo e expansão de Lisboa, de criar correntes de opinião pública que estimulem o relacionamento saudável com a cidade e de dar o seu parecer a instituições oficiais ou a particulares que se ocupem da administração, da defesa e do progresso da cidade. Refira-se ainda que desde janeiro de 1938 que é publicado o boletim do Grupo e que o emblema do mesmo foi criado por Almada Negreiros.

O trabalho do Grupo «Amigos de Lisboa» já antes merecera o reconhecimento da Câmara Municipal de Lisboa quando em 1956 lhes atribuiu a Medalha de Ouro da Cidade, bem como do governo, que em 1980 os considerou instituição de utilidade pública.

Freguesia de Marvila (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia de Marvila
(Planta: Sérgio Dias)