A Rua das Portas de Santo Antão segundo Fernando Assis Pacheco

Freguesias de Arroios, Santo António e Santa Maria Maior (Foto: Sérgio Dias)

Freguesias de Arroios, Santo António e Santa Maria Maior
(Foto: Sérgio Dias)

Sobre a Rua das Portas de Santo Antão reproduzimos «As tentações de Santo Antão», de Fernando Assis Pacheco, publicado na revista Visão de 6 de janeiro de 1994:

Quem perguntar onde eram as portas que deram nome à rua, ficará sabendo que deve usar o singular: a porta era uma, chapeada de ferro metida num arco, para o qual se desceu durante séculos, quase a pique, da estrada de circunvalação entre muralhas para a Baixa. A porta propriamente dita estava situada no que hoje é o eixo do arruamento, mais ou menos a meio caminho da Rua do Jardim do Regedor para a igreja de S. Luís, Rei de França. Em 1509 foi preciso alargá-la, para o que o rei D. Manuel deu ordens estritas e acompanhou de perto a obra. Novo alargamento foi feito em 1727, sendo então retiradas as chapas de ferro. Sol de pouca dura: 28 anos depois o Terramoto destruía o arco e tornava a porta inútil. Só houve uma solução, que foi demolir tudo. E aí começou o perfil da zona a mudar.

Ali perto existiram quintas, hortas, casas apalaçadas. já porém lá não viviam as mancebas solteiras, prostitutas reconhecidas como tais, cuja memória persistiu numa Rua da Mancebia sobre a qual, a crer no olisipógrafo Gomes de Brito, terá sido traçada a do Jardim do Regedor. A freguesia era a de Santa Justa, a paróquia de Santa Justa e Santa Rufina. O grande proprietário da zona chamou-se no século XVI Fernão Álvares de Andrada, do conselho d’el-rei D. João III, seu escrivão da fazenda e tesoureiro-mor. Mais tarde o casamento de uma descendente fez o palácio engrossar o património dos condes da Ericeira. E que palácio: 120 cómodos, dez pátios, jardins, hortas, uma pinacoteca com telas de Tiziano, Correggio e Rubens, uma biblioteca de 18 mil volumes! O Terramoto, ainda ele, arrasou-o, e enquanto se pensava em reconstruir  seriamente o quarteirão entre o Largo da Anunciada e a actual Rua dos Condes surgiram nos escombros uma fieira de barracas e em 1770 um teatro, dos Condes, antepassado do cinema homónimo. Basta por ora.

VINDE, PEÕES

As obras encetadas pelo pelouro do Ambiente da CML, envolvendo um novo colector de esgotos e a remodelação de todas as infra-estruturas, nomeadamente de água, gás e telefone, tiveram a ver com um projecto do Instituto Superior de Agronomia para manutenção e reestruturação de espaços sem vegetação mas capazes de vir a ser integrados em corredores verdes quase contínuos, “com esporádicos atravessamentos de ruas”,  que no caso vertente abarcava também o Largo de S. Domingos. O seu coordenador, prof. arquitecto (paisagista) Gonçalo Ribeiro Teles, afirmou entretanto à “Capital” que “a repavimentação da Rua das Portas de Santo Antão” do Largo do Regedor à Rua dos Condes só por si “não é nada”, e “só quando se completar e avançar para S. Domingos, estabelecendo a necessária  ligação com o Rossio, é que se poderá ver como ficou”.

“Seja como for”, concedeu Ribeiro Teles, “o primeiro passo está dado”. Este troço de rua, limpo de carros e calcetado com vidraço branco, preto e rosa, ganhará a animação possível quando estiverem colocadas todas as 100 mesas e 300 cadeiras de braços das previstas esplanadas, e por lá abancarem os titulares das licenças já passadas pela CML – por exemplo o “homem-estátua” da Rua Augusta, o contador de histórias Paulo Matos e um grupo equatoriano de flautistas de “quena”. Politeama e Coliseu serão os grandes chamarizes, com uma ajuda a tempo do Teatro Nacional D. Maria II,  onde o “Leque de Lady Windermere”, de Oscar Wilde, na encenação de Carlos Avilez, esgota frequentemente a lotação  desde que estreou em 26 de Outubro do ano passado.

O Coliseu, entregue a obra pelo atelier de Maurício de Vasconcelos, reabre a 26 de Fevereiro com uma gala da Sinfónica de Londres, dirigida por Sir Georg Solti, sendo solista Pedro Burmester (piano). No programa, Beethoven e Tchaikovski. É um número da Lisboa 94.

ZERO CARROS 

Comerciantes e empresários estão de acordo em que a zona poderá beneficiar desta filosofia pedonal apoiada em espectáculos de prestígio, mas Francisco Montero Álvarez, sócio do restaurante de luxo Escorial, bate na tecla do corte de trânsito para enumerar prejuízos, não apenas para a sua casa mas para a mais de meia dúzia de residenciais e pensões das Portas de Santo Antão e do Jardim do Regedor.

Acontece que a clientela da hotelaria é obrigada a carregar a bagagem à mão desde os Restauradores, o que piora em dias de chuva. O Escorial, esse já tem perdido reservas de mesas porque as pessoas, informadas pelos taxistas de que os carros não vão lá, telefonam a desistir – ou não telefonam, evaporam-se. Francisco Montero faz um apelo “às entidades competentes”: trabalhando com 80 por cento de comensais não-portugueses, por vezes idosos ou com dificuldades de locomoção, precisa como de pão para a boca que os táxis possam deixar ou vir buscar clientes à porta. Sem isso a crise não será vencida, ela que “está bem instalada” e responde por quebras de 60 por cento.

O Gambrinus, que também é de luxo, diz desconhecer a crise. Por um motivo simples: possui entrada alternativa nas traseiras (Largo do Regedor). É que o mapa das Portas de Santo Antão, quando nasceu, não nasceu igual para todos.

AFLUENTES 

Se considerarmos a rua que desce do Largo da Anunciada para o de S. Domingos como um rio, veremos que pela margem direita correm vários afluentes: Rua dos Condes, Travessa do Forno, Largo do Regedor. cada um deles com o seu cachet muito próprio, das salas de cinema porno (Rua dos Condes) a uma esquadra de polícia vizinha de um quartel de bombeiros e de um posto camarário de limpeza (Largo do Regedor), dando a volta para o reino das mãozinhas de vitela, dos escabeches e das moelas estufadas (Travessa do Forno).

As fitas porno passam no Odeon e no Olímpia, para um público que tem dos 40 aos 60 anos e compra diariamente algumas centenas de bilhetes sem marcação de lugar. Há quem jure que a renovação autêntica da zona obrigará a mexer também nestes cinemas. Como? De viva voz ninguém diz nada, mas percebe-se a ideia.

O que já sucedeu foi na noite de estreia da “Maldita Cocaína” aparecerem vendedores de pensos atacando a grã-finagem com pedidos insistentes de ajuda, por serem -alegavam – seropositivos.

COCA E COZINHA 

Montero Álvarez, quando lhe puxam pela imaginação, tem uma saída não tão peregrina como isso: a animação de rua devia ser à base de música e teatro de qualidade. Flautistas, “homem-estátua”? Hm…

Restauração de qualidade oferece o Politeama, concorrendo nesse ponto com o Escorial, o Gambrinus e as várias cervejarias-marisqueiras com nomes prometedores (Solmar, Lagosta Real, Torremolinos, Inhaca) ou menos bem logrados apesar da oferta de parrilhadas, mariscadas e javalis estendidos a todo o comprimento em mesas.

Na hora de escolher um serviço de apoio para os seus lanches, jantares e ceias-concerto, La Féria foi desinquietar à Casa da Comida um ex-actor e seu amigo, Jorge Vale, que figura entre as grandes autoridades gastronómicas de Lisboa. O contrato tem a duração de quatro anos, mas Vale, optimista, diz que a “Cocaína” vai ficar um século em cena.

Trabalham ali 42 pessoas entre cozinheiros, empregados de mesa e outro pessoal. O serviço desdobra-se em 30 ementas diferentes todos os dias. “The Great Musical” obriga a levantar os bilhetes pré-marcados até dois dias antes da data do espectáculo. Custam 1 500$00, galeria, 2 500$00, 1º balcão, e 3 500$00, tribuna; há camarotes de 7 500$00 a 37 500$00; espectáculo e jantar ficam por 8 000$00; espectáculo e lanche 5 300$00. O réveillon foi um bocado mais a doer, dos 20 000$00 aos 40 000$00. Mas estava presente a nata das “tias” e dos “tios” desta Lisboa que luxa.

HÁ DE TUDO

A verdade é que há de tudo, ricos e pobres, lojas refinadas e ginjinhas centenárias, negócio e expediente, na zona das Portas de Santo Antão. Até um cartório notarial, o 13º, com entrada pelo Largo do Regedor. Idem uma oficina de ourives num 1º andar, aliás por cima do Gambrinus, que assim se vê impedido de crescer como os soufflés. Há farmácias, cabeleireiros, salões de “máquinas de diversão”., lojas de electrónica e de som, uma editorial (Alpha e Omega), uma espingardaria (que também vende apetrechos de caça e pesca), uma loja de cintas e soutiens, outra de artigos militares.

O que já não há é o eléctrico que ia para Carnide e dava a volta tilintando nas Portas de Santo Antão. Nem o burro do vendedor de cenouras. Nem as marionetas no Coliseu, a 2$50 a entrada. Nem o peeping-show do mesmo Coliseu, que esteve lá até há dias. Nem a Cicciolina, coitadinha, que ultimamente dormia num desvão do Teatro Nacional e amanheceu morta na semana passada. Se o futuro continuar preto para o Benfica, também deixará de haver as instalações sociais da Rua do Jardim do Regedor nº 9. O Bingo já emalou a trouxa.

Mas há instituições tão sólidas como a Sociedade de Geografia, a Associação Comercial e o Ateneu Comercial de Lisboa, a Casa do Alentejo. Nem só de néons e boás se vive.

E há, ó apetite, a Manteigaria Londrina, que fez nome a vender “a melhor manteiga” nacional em bacias de esmalte e hoje tem fama com os seus faisões e as suas carnes fumadas e os seus queijos à ovelheira e os seus Portos de colecção.

E a casa de ferragens Francisco Ramos, Lda., logo ao começo para quem chega do Rossio, centenária, que em 1905 prometia “seriedade nas transacções e preços os mais esmerados” e ainda não lhes perdeu o gosto, mas pede muita desculpa de não guardar em stock a totalidade dos números de parafusos – que são 10 mil!

Quem entrar no Restaurante Churrasco e raspar o verniz de 1994, descobrirá que era aí o famoso Capilé, onde abancavam Almada Negreiros e outros modernistas vindos do Martinho do Rossio, e nos anos 60 os artistas de circo à espera de contrato.

Tudo vai mudando, mas as Portas de Santo Antão são andanças, histórias e tentações.

Freguesias de Arroios, Santo António e Santa Maria Maior (Planta: Sérgio Dias)

Freguesias de Arroios, Santo António e Santa Maria Maior
(Planta: Sérgio Dias)

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4 thoughts on “A Rua das Portas de Santo Antão segundo Fernando Assis Pacheco

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