Uma Saudade Burra da Rua das Olarias

Freguesias de Santa Maria Maior, de São Vicente e de Arroios (Foto: Sérgio Dias)

Freguesias de Santa Maria Maior, de São Vicente e de Arroios
(Foto: Sérgio Dias)

Saudade Burra é o título de um documentário sobre Fernando Assis Pacheco,  produzido pela Mínima Ideia, sediada no nº 51 da Rua das Olarias, topónimo que guarda a memória dos oleiros do sítio.

Este documentário de 50 minutos é da autoria de Nuno Costa Santos, com realização de Margarida Moura Guedes e Paulo Galvão, e produzido pela Mínima Ideia,  em 2012, para a RTP.

Sobre a Rua das Olarias, que une o Largo das Olarias às Escadas do Monte, retrata Norberto de Araújo que «”Olarias” – a palavra o diz – corresponde ao aglomerado de fabricantes de louças de barro, de que esta raiz ou encosta do Monte era fértil. Em toda a Lisboa, mais ou menos, houve sempre oleiros, pintores, cosedores, barristas, azuleijistas, artistas e artífices dessa arte tão popular, tão útil e até tão poética de trabalhar o barro, fabricantes de louça vermelha, essa redondilha menor de cerâmica. (…) Quando Afonso Henriques tomou Lisboa já por aqui andavam, é claro, os mouros pois deles eram a Cidade e os subúrbios. Por este sítio cultivavam-se terras, em hortas frescas (as almuinhas) e em olivais, que haviam de dar os Lagares (de azeite e não de vinho), e abriam-se barrocais de greda, no desenvolvimento da arte de olaria e cerâmica seguimos para o vale que deu a Mouraria , e da passagem que havia de ser dos Cavaleiros para nascente, isto é: para o sopé da encosta da praça e do Monte, numa planície de relativa extensão, ficou um subúrbio de oleiros, e de cujas primeiras dinastias há vagas noticias, as suficientes para se saber que existiram. No século XVI, no seu começo, o sítio era caracterizadamente dos oleiros, certo como era que pelo primeiro Foral dado a Lisboa em 1179, tempos finais do primeiro Afonso era livre o fabricar “ollas” tanto como o fabricar pão. (…) A urbanização do sitio começou por 1498, em arrabalde definido, depois de D. Manuel tomar conta do “Almocovar” ou cemitério dos mouros (na encosta do Monte do lado da Bombarda), cujos túmulos foram impiedosamente profanados, sendo as lousas e lápides de pedra doadas ao Hospital de Todos os Santos (do Rossio), e certamente os terrenos também. Onde é hoje a área dos Lagares – lagares havia. Pode adivinhar-se a configuração rústica do sítio a um lado, e industrial a outro, este mais a nascente, abrangendo a Rua da Bombarda, que já vimos (então da “Lombarda”, 1568, seu verdadeiro nome), a Rua depois (1637) chamada de Agostinho de Carvalho e a Rua e o Largo das Olarias, além do Forno de Tijolo, local onde haveria alguns fornos e não um apenas, especificadamente. (…) Os lagares foram desaparecendo lei inevitável da urbanização lenta; as olarias resistiram e chegavam no tempo dos Felipes, de Espanha, e, pelo século XVII dentro, ao seu apogeu. Na terceira década de seiscentos havia por aqui oitenta artífices oleiros. Só no século XVIII, com a criação de fábricas já em grande, “modernas”, e com outros horizontes industriais, as olarias entraram em declínio (…)  Presentemente, e desde há três dezenas de anos [Norberto de Araújo escreve em 1938-1939], das olarias do sítio das Olarias não restam vestígios, sendo delas uma reminiscência, aliás importante, a, já citada atrás, Fábrica da Viúva Lamego, no Intendente, que, encostada à Bombarda, fazia parte da área; em 1885 havia ainda duas ou três olarias na Calçada Agostinho de Carvalho, e que agonizavam no começo do nosso século [século XX].»

Finalmente, mostramos o poema de Fernando Assis Pacheco em que aparece a «saudade burra»:

O Poeta no Supermercado

I
Indignar-me é o meu signo diário.
Abrir janelas. Caminhar sobre espadas.
Parar a meio de uma página,
erguer-me da cadeira, indignar-me
é o meu signo diário.

Há países em que se espera
que o homem deixe crescer as patas
da frente, e coma erva, e leve
uma canga minhota como os bois.
E há os poetas que perdoam. Desliza
o mundo, sempre estão bem com ele.
Ou não se apercebem: tanta coisa
para olhar em tão pouco tempo,
a vida tão fugaz, e tanta morte…
Mas a comida esbarra contra os dentes,
digo-vos que um dia acabareis tremendo,
teimar, correr, suar, quebrar os vidros
(indignar-me) é o meu signo diário.

II
Um homem tem que viver.
e tu vê lá não te fiques
– um homem tem que viver
com um pé na Primavera.

Tem que viver
cheio de luz. Saber
um dia com uma saudade burra
dizer adeus a tudo isto.
Um homem (um barco) até ao fim da noite
cantará coisas, irá nadando
por dentro da sua alegria.

Cheio de luz – como um sol.
Beberá na boca da amada.
Fará um filho.
Versos.
Será assaltado pelo mundo.
Caminhará no meio dos desastres,
no meio de mistérios e imprecisões.
Engolirá fogo.

Palavra,
um homem tem que ser
prodigioso.
Porque é arriscado ser-se um homem.
É tão difícil, é
(com a precariedade de todos os nomes)
o começo apenas.

Freguesias de Santa Maria Maior, de São Vicente e de Arroios (Planta: Sérgio Dias)

Freguesias de Santa Maria Maior, de São Vicente e de Arroios
(Planta: Sérgio Dias)

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