A Rua do Padre Felicidade, dos Jerónimos prior e estudioso

Freguesia de Campolide (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de Campolide
(Foto: Sérgio Dias)

O padre José da Felicidade Alves, reconhecido como olisipógrafo pelos seus estudos sobre o Mosteiro dos Jerónimos bem como pela coordenação da coleção «Cidade de Lisboa» na Livros Horizonte, tem o seu nome na que era a Rua A da Quinta da Bela Flor desde a publicação do Edital de 14/07/2004, com a legenda «Olisipógrafo/1925 – 1998».

Freguesia de Campolide - Placa Tipo II (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de Campolide – Placa Tipo II (Foto: Sérgio Dias)

José da Felicidade Alves (Caldas da Rainha-Vale da Quinta/11.03.1925 – 14.12.1998) entrou para o seminário com 11 anos e em 1948 foi ordenado sacerdote e  colocado como professor de Grego e Matemática no Seminário de São Paulo (em Almada), e depois em Lisboa, no dos Olivais.

Na sua carreira sacerdotal foi também prior da Paróquia de Santa Maria de Belém, de 1956 a 1968, onde se evidenciou pelo conteúdo das suas homilias, nas quais abordava temas incómodos ao poderes político e eclesiástico de então, como a guerra colonial, a perseguição política, ou os problemas sociais, tornando-se uma das figuras centrais da oposição dos católicos à ditadura. Em 19 de abril de 1968, na presença de 80 pessoas, proferiu uma comunicação ao Conselho Paroquial de Belém, intitulada «Perspectivas actuais de transformação nas estruturas da Igreja» e «Sentido da responsabilidade pessoal na vida pública do meu país», colocando em causa a forma como a Igreja se apresentava à sociedade, a sua organização, e mesmo a maneira como eram transmitidos os ensinamentos cristãos e a abordagem da própria figura de Deus, o que lhe valeu um processo que determinou, em novembro de 1968, o afastamento das suas funções de prior titular de Belém, e, mais tarde, a suspensão das suas funções sacerdotais, terminando, em 1970, com a sua excomunhão.

Após o afastamento da paróquia de Belém, o padre Felicidade tornou-se no grande impulsionador, em conjunto com Nuno Teotónio Pereira e o padre Abílio Tavares Cardoso, da publicação dos Cadernos GEDOC, de que saíram onze números, entre 1969 e 1970. Abordando criticamente questões ligadas à hierarquia católica e à guerra colonial, a publicação foi condenada pelo Cardeal Cerejeira e considerada ilegal pela PIDE, sendo instaurado um processo aos seus responsáveis, de que resultou em 19 de maio de 1970 a prisão de Felicidade Alves.  Ainda em 1970, no dia 1 de agosto, casou civilmente com Elisete Alves mas o processo para obter da hierarquia católica o reconhecimento do seu casamento pela via canónica oficial só foi autorizado quase 30 anos depois, sendo o seu casamento religioso então celebrado pelo Cardeal Patriarca D. José Policarpo em 10 de junho de 1998, o mesmo ano em que Felicidade Alves viria a falecer.

Afastado da hierarquia da Igreja, o padre Felicidade trabalhou em diversas empresas, como o Anuário Comercial e a editora Livros Horizonte. Continuou a sua produção literária, com estudos de natureza teológica e pastoral, como Católicos e Política (1969), Pessoas Livres e É Preciso Nascer de Novo (ambos em 1970)  e Jesus de Nazaré (1994), mas também de carácter histórico. Publicou, um conjunto de estudos originais – em  três volumes –  sobre o Mosteiro dos Jerónimos (1989 -1994), coordenou  uma coleção relativa à obra de Francisco de Holanda (seis obras entre 1984 e 1989), bem como a coleção de textos históricos sobre a cidade de Lisboa (cinco obras, entre 1987 e 1990) da Livros Horizonte. Saliente-se ainda o seu Roteiro da Produção Literária Portuguesa no Século XVI, tema a que Felicidade Alves se dedicou desde 1981 e O Mosteiro de São Vicente de Fora que deixou concluído e foi publicado postumamente. O seu trabalho bibliográfico foi premiado pela Academia Nacional de Belas Artes, que o tornou seu académico em 1994.

Depois do 25 de Abril de 1974, José da Felicidade Alves aderiu ao PCP, onde se manteve até morrer.  Desempenhou ainda as funções de presidente da Segurança Social entre agosto e dezembro de 1978 e de autarca do concelho de Oeiras, primeiro, na freguesia de Carnaxide e depois, na freguesia da Cruz Quebrada/Dafundo, onde residia. E foi agraciado com a  Ordem da Liberdade (1994) e o  prémio Júlio de Castilho de Olisipografia da Câmara Municipal de Lisboa (1995).

 

Freguesia de Campolide (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia de Campolide
(Planta: Sérgio Dias)

 

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