A Rua do homem conhecido pelas ameijoas abertas em azeite, alho e coentros

Rua Bulhão Pato em 1973 (Foto: Artur Pastor, Arquivo Municipal de Lisboa)

Rua Bulhão Pato em 1973 (Foto: Artur Pastor, Arquivo Municipal de Lisboa)

Bulhão Pato, funcionário público que também se dedicou ao romance e à poesia, cujo nome é mais popular pelas Ameijoas à Bulhão Pato, começou na toponímia de Lisboa por dar nome ao Jardim do Alto do Pina até 1949 e em 1955 passou para uma rua de Alvalade.

O Jardim Bulhão Pato terá nascido de uma deliberação da Comissão Executiva da Câmara Municipal de Lisboa de 1925 mas nunca se tornou oficial pela publicação de um Edital. Em 10 de maio de 1949 a Comissão Consultiva Municipal de Toponímia sugeriu que o Jardim Bulhão Pato passasse a ser denominado como Jardim do Alto do Pina, embora também não se encontre Edital que tenha feito desta proposta deliberação. E finalmente, por Edital municipal de 20/10/1955, a Rua 51 do Sítio de Alvalade foi designada como Rua Bulhão Pato, junto com mais a Rua do Centro Cultural (Rua 25-A), a Rua dos Lagares de El-Rei (Rua 55-B), a Rua Antero de Figueiredo (Rua 54), Rua António Andrade (Rua 57), Rua Francisco Andrade (Rua 58), Rua Carlos Lobo d’Ávila (Rua 43), Rua Carlos Malheiro Dias (Rua 32-A), Rua Conde Arnoso (Rua 41), Rua Conde Ficalho (Rua 42), Rua Conde de Sabugosa (Rua 50-C), Rua Constantino Fernandes (Rua 28), Rua Coronel Marques Leitão (Rua 27), Largo Cristóvão Aires (Praceta I da Rua 59), Largo Fernandes Costa (Praceta II da Rua 59), Rua Dom Francisco de Sousa Coutinho (Rua 56), Avenida Frei Miguel Contreiras (arruamento paralelo ao caminho de ferro), Rua Guilhermina Suggia (Rua 59), Rua José Malhoa (Rua 55-A mas que desde 1972 é a Rua General Pimenta de Castro), Rua Marquês de Soveral (Rua 26-A), Rua Pedro Ivo (Rua 52), Largo Rodrigues Cordeiro (Praceta III da Rua 59) e Rua Teixeira de Pascoais (Rua 53).

A ligação de Bulhão Pato à gastronomia portuguesa não se cinge às famosas ameijoas com o seu nome – e sobre as quais ainda se discute se são da sua autoria ou do chefe de cozinha João da Mata, makavenko como ele, já que ambos integravam esta sociedade gastronómica com fins de solidariedade e beneficência – já que para o livro Cozinheiro dos Cozinheiros (1870) do editor Paulo Plantier, para o capítulo «Inventadas e Executadas por Distintos Artistas e Escritores Portugueses», enviou com data de 9 de outubro de 1870 quatro receitas suas: Açorda à Andaluza, Perdizes à Castelhana, Arroz Opulento e Lebre à Bulhão Pato. Albino Forjaz Sampaio, na sua Volúpia, a Nona Arte: Gastronomia (1940) escreveu mesmo que  «mas não falta quem coma as amêijoas, lhe saboreie a açorda, lhe repita a lebre. Amêijoas à Bulhão Pato é o prato mais gostado, e o mais popular da sua obra gastronómica.»

Bulhão Pato na década de 10 do séc. XX (Foto: Alberto Carlos Lima, Arquivo Municipal de Lisboa)

Bulhão Pato na década de 10 do séc. XX
(Foto: Alberto Carlos Lima, Arquivo Municipal de Lisboa)

Raimundo António de Bulhão Pato (Espanha-Bilbau/03.03.1829-24.08.1912/Monte da Caparica – Almada) quando em 1837 veio com a família para Lisboa matriculou-se na Escola Politécnica (1845) e começou a colaborar em vários jornais e revistas como O Panorama e a Revista Universal Lisbonense, tendo convivido com Andrade Corvo, Antero de Quental, Francisco Grandela, Garrett, Gomes de Amorim, Gomes da Silva, Gonçalves Crespo, Herculano, Latino Coelho,  Mendes Leal, Rebelo da Silva e Zaluar, entre outros.

Bulhão Pato trabalhou como 2.º oficial da 1.ª repartição da Direcção Geral do Comércio e Indústria e dedicou-se também ao romance e poesia – Poesias (1850), Versos de Bulhão Pato (1862), Paquita (romance, 1856), Flores Agrestes (poesia, 1870), Memórias (vários volumes publicados entre 1877-1907), O Livro do Monte (1896) – , assim como à tradução, vertendo para português Shakespeare, Saint-Pierre e Vitor Hugo. Eça de Queiroz caricaturou-o através da personagem Alencar do romance Os Maias, por ser um dos representantes do Ultrarromantismo português.

Duas vezes foi convidado para deputado, mas sempre se recusou. E para a memória dos seus dotes gastronómicos fica aqui a sua
«Lebre á Bulhão Pato — Esfole-se a lebre, esfregue-se com pimentão e sal; metta-se na vasilha onde deve estar aproveitado o sangue. Vinagre forte e de bom vinho; rodas de cebola, alguns dentes de alho, poucos; uma folha de louro. Como estamos no Monte ha de haver um pedacito de chão tratado de horta e na horta um canteirinho de salsa. Se a encosta próxima for de mato-jardim lá ha de estar o aromatico tomilho. Venham também uns raminhos de salsa, e um tudo-nada de tomilho. Passadas doze horas (se forem vinte e quatro não perde) envolva-se a lebre em pranchas finas de bom toucinho. Espeto com ella; De quando em quando constipada á corrente do ar; a espaços borrifada com a vinha, e, se, á falta de sercial ou malvasia, algum companheiro previdente tiver trazido uma garrafa de fino Champagne, para cortar a agua por causa das sezões, minutos antes de vir para a mesa borrife-se a lebre com um copito de cognac. Quente é um assado optimo, e frio um fiambre primoroso.»

Freguesia de Alvalade (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia de Alvalade
(Planta: Sérgio Dias)

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