De uma Rua do Campo Grande para Alvalade foi Lopes de Mendonça

Henrique Lopes de Mendonça (Foto: s/d, s/a, Arquivo Municipal de Lisboa)

Henrique Lopes de Mendonça
(Foto: s/d, s/a, Arquivo Municipal de Lisboa)

Nascido lisboeta na então Rua dos Calafates, Henrique Lopes de Mendonça foi o autor da letra de uma Marcha contra o Ultimatum inglês, com música de Alfredo Keil, intitulada A Portuguesa, que após a implantação da República veio a ser o Hino Nacional  e, por duas vezes, o seu nome foi pensado para ruas de Lisboa, primeiro no Campo Grande (em 1932) e depois, no ano do centenário do seu nascimento, em 1956, ficou em definitivo numa artéria de Alvalade.

A sua ligação à gastronomia prende-se com a sua participação no livro Cozinheiro dos Cozinheiros (1870), de Paulo Plantier, para o qual enviou a receita de uma sopa que lhe lembrava Urbano de Castro, também membro do Corpo Redatorial da Revista do Conservatório Real de Lisboa, com o desejo «que os seus leitores a alcunhem de deliciosa».

Na toponímia alfacinha, Henrique Lopes de Mendonça foi primeiro colocado na Rua A do projecto aprovado em sessão camarária de 13/10/1927 delimitado entre a Rua Ocidental do Campo Grande e o Hipódromo, através do Edital de 12/03/1932, como Rua Lopes de Mendonça, ficando na Rua B, Francisco Mantero (hoje na Freguesia dos Olivais); na C, Ernesto Vasconcelos e, na D, Aires de Ornelas (hoje numa Praça da Penha de França). Mas só se fixou em definitivo através do Edital de 26/05/1956 na Rua 31 do Sítio de Alvalade, a que foi acrescentada a legenda «Escritor/1856 – 1931», seguindo o parecer da Comissão de Toponímia da sua reunião de 15/05/1970, homologado pelo Presidente da Câmara municipal de Lisboa.

Refira-se ainda que o jardim da Praça José Fontana, também é conhecido como Jardim Henrique Lopes de Mendonça, provavelmente a partir de uma deliberação de câmara de 1925 mas a edilidade não terá oficializado este topónimo com Edital.

A Rua Henrique Lopes de Mendonça em 1956 (Foto: Armando Serôdio, Arquivo Municipal de Lisboa)

A Rua Henrique Lopes de Mendonça em 1956
(Foto: Armando Serôdio, Arquivo Municipal de Lisboa)

Henrique Lopes de Mendonça (Lisboa/12.02.1856 – 24.08.1931/Lisboa) foi um alfacinha nascido no Bairro Alto, oficial da Armada Portuguesa, escritor e dramaturgo que fez a letra do Hino Nacional e casou em 1880 com Maria Amélia, uma das quatro irmãs de Columbano e Rafael Bordalo Pinheiro. Foi oficial embarcado entre 1874 e 1886, tendo navegado por Cabo Verde, São Tomé e Angola, e até apresentado a sua candidatura a Deputado por Luanda por força dos seus ideais republicanos.

Ingressou em 27 de Outubro de 1871  na Armada Portuguesa e aí alcançou o posto de Capitão de Mar-e-Guerra, para além de se ter dedicado à história naval e publicado Estudos sobre Navios Portugueses nos Séculos XV e XVI (1892) ou O Padre Fernando Oliveira e a sua obra náutica (1898). Em 1887 coadjuvou Andrade Corvo na publicação dos estudos sobre as possessões ultramarinas e foi ainda membro das Comissões Oficiais dos Centenários de Colombo e de Vasco da Gama.

Foi também professor da Escola Prática de Artilharia Naval, então instalada a bordo da Fragata D. Fernando II e Glória, assim como das cadeiras de Geografia, História e Literatura da Escola de Belas Artes de Lisboa (entre 1901 e 1929) e entre 1897 e 1901 foi ainda Bibliotecário da Escola Naval.

Como escritor e dramaturgo, Lopes de Mendonça iniciou a sua carreira em 1884 com a peça A Noiva, no palco do teatro D. Maria II, a que se seguiu A Morta (1888), que foi  galardoada com o prémio D. Luís I da Academia de Ciências de Lisboa. Deixou quase uma centena de obras literárias de teatro como Afonso de Albuquerque (1897) ou A crise do teatro português (1901). Também escreveu poesia, por vezes com os pseudónimos Lusos ou Ele, e romances como Os orfãos de Calecut (1894). Por ocasião do Ultimato Inglês de 1890, escreveu para a música de Alfredo Keil, a marcha A Portuguesa que, em 1910 o Governo da República adoptou como Hino Nacional, trocando apenas a palavra «bretões» por «canhões». Em 1916 foi também nomeado pelo Governo para a comissão que propôs as versões definitivas e oficiais para piano, canto, orquestra e banda do Hino Nacional. Refira-se ainda que Lopes de Mendonça era  membro eleito da Academia das Ciências de Lisboa desde 1900 e veio a ser seu presidente em 1915 , tal como dez anos depois,  em 1925, integrou o grupo de fundadores da Sociedade Portuguesa de Autores.

No ano do centenário do seu nascimento foi homenageado pela Câmara Municipal de Lisboa  não apenas com a atribuição do seu nome a uma rua de Alvalade mas também através da colocação de uma lápide no prédio nº 120 da Rua do Diário de Notícias, onde nascera,  e uma exposição comemorativa no  Palácio Galveias.

E se quiserem experimentar a sopa de Lopes de Mendonça é seguir a sua receita:

«Coza-se uma porção de batatas. Faça-se um refogado com azedas, e misture-se-lhe a água em que se cozeu peixe. Junte-se-lhe o polme de batata, e deixe-se ferver um pedaço. Tem-se já pronto ovo cozido, cortado aos quadradinhos, azeitonas sem caroços, ervilhas ou feijão verde (havendo), camarão cozido e, já se sabe, convenientemente descascado. Isto tudo se junta ao caldo, depois de tirado do lume. E, em seguida, come-se.»

Freguesia de Alvalade (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia de Alvalade
(Planta: Sérgio Dias)

 

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