A Rua de Fialho, autor de Os Gatos e do Arroz de Perdizes

Freguesia das Avenidas Novas (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia das Avenidas Novas
(Foto: Sérgio Dias)

O escritor Fialho de Almeida enviou para o Cozinheiro dos Cozinheiros (1870) de Paulo Plantier  a sua receita de Arroz de perdizes e como Bulhão Pato, costumava frequentar o retiro da hortas da Quinta da Rabicha, assim como a exemplo de Ramalho Ortigão ou Almeida Garrett frequentava em Belém o António das Caldeiradas, antiga casa de pasto que até registou no seu Os Gatos.

 Já na toponímia alfacinha Fialho de Almeida entrou 21 anos após os seu falecimento,  numa Rua das Avenidas Novas, que pelo Edital municipal de 12/03/1932 que passou a ser o topónimo da Rua E do projeto aprovado em sessão da Câmara Municipal de Lisboa de 15/05/1930, ficando na Rua D o escritor Ramalho Ortigão ( que também enviou receitas para a obra de Paulo Plantier), na Avenida B a nobelizada Madame Curie, na Rua A o Mestre de Armas António Martins, e nas Rua F e G, os políticos António Granjo e Basílio Teles.

Busto de Fialho de Almeida na Biblioteca Nacional (Foto: Armando Serôdio, 1956 Arquivo Municipal de Lisboa)

Busto de Fialho de Almeida na Biblioteca Nacional
(Foto: Armando Serôdio, 1956 Arquivo Municipal de Lisboa)

José Valentim Fialho de Almeida (Vidigueira – Vila de Frades/07.05.1857 -04.03.1911/Cuba) veio aos 9 anos para Lisboa, para estudar no Colégio Europeu (entre 1866 e 1871), que abandonou aos quinze por dificuldades económicas e foi trabalhar como ajudante numa farmácia de Lisboa. Contudo, conseguiu mais tarde concluir o curso de medicina que acabou por não exercer para se dedicar quase exclusivamente à escrita.

Em Lisboa, frequentou cafés e tertúlias onde conviveu com a intelectualidade da época e estabeleceu a sua casa na Rua Senhora do Monte até aos 36 anos (1893) se casar com Emília Pego, natural de Cuba, e se instalar naquela vila, onde passou a tratar das propriedades agrícolas recebidas pelo matrimónio, mesmo após enviuvar cerca de um ano depois.

A sua obra literária, de ficção e crónicas que vão da crítica de arte à de costumes, publicadas nos jornais e revistas da época, em Portugal e no Brasil, serão depois coligidas em livros como Os Gatos (textos redigidos entre 1889 e 1894), Pasquinadas (1890), Lisboa Galante (1890), Vida Irónica (1892) ou O País das Uvas (1893). Colaborou na imprensa periódica, como nos jornais humorísticos Pontos nos ii  e A Comédia Portuguesa,  nas revistas Renascença, A Mulher, Ribaltas e Gambiarras, Branco e Negro, Brasil-Portugal ou Serões. Rebelde e marginal, Fialho utilizou por vezes o pseudónimo «Valentim Demónio» que lhe permitiu criticar tudo o que na sociedade merecia a sua reprovação, fosse da monarquia em que viveu a maior parte da sua vida, fosse da recente república, como o fez na revista literária A Crónica, por ele fundada e dirigida, em 1880.

A Câmara Municipal de Lisboa fez em 1957 uma Exposição comemorativa do centenário do seu nascimento e o Jardim da Praça das Flores também é conhecido como Jardim Fialho de Almeida, por via de uma deliberação camarária de 1925 que não terá tido Edital mas a população não enraizou a denominação.

Finalmente, para quem quiser experimentar aqui fica o Arroz de Perdizes do Fialho:

«Primeira operação. – Ferver duas perdizes bem limpas, em agua, com algumas tiras de presunto e linguiça magra, fresca podendo ser, e não rançosa. A trecho de meia cozedura, tirar para um prato as perdizes, e acessórios, ficando na panela o caldo posto em sossego, como nos Lusíadas, a linda Inês.

Segunda operação. – Em caçarola lavada, pôr a refogar à parte, e a fogo brando, em três colheres de manteiga de vaca, três dentes de alho, pimenta, salsa picada, cravo da Índia e, loiro – o loiro em mui exígua quantidade. Quando a manteiga tiver já feito estes temperos, sem lhes consumir porém o perfume, juntar tomates bastantes (uns cinco ou seis, dos grandes, cortados em bocados, e completamente limpos da buxada interior), e duas ou três cebolinhas de Lisboa, descascadas, bem limpas, e aos bocados.          Refogar tudo, até ficar n’um todo uniforme, e em termos que no paladar predomine um ligeiro queimor de pimenta. Ao refogado juntareis então uma massa picada feita com os bocados de presunto e linguiça da primeira operação, e bem assim os miúdos das perdizes, ou quaisquer outras de aves e caça que se possam obter das outras olhas do jantar Nova fervura, e incorporar aos poucos, dois decilitros de vinho tinto (velho, e até generoso, quem quiser), e todo o caldo de fervura da chamada primeira operação.          Apura-se tudo isto a fogo brando, sem deixar de ir provando sempre, até que o paladar de cozinheiro confirme e reconheça a permanência e boa altura dos aromas e mais riquezas sapidas do molho.         Por fim, junta-se no molho, arroz em quantidade, que se vai cozendo a fogo lento, mexendo constantemente, porque se não toste e pegue ao fundo da caçarola. Quando está pronto, ajuntem as perdizes, cortadas em bocados certos e bonitos, e que se farão embeber completamente dos perfumes do guisado, metendo por fim a caçarola no forno do fogão, com ramos de salsa por cima, para tostar e aloirar a crosta do arroz, que deve-se servir quente e a pouco trecho de tirado.»

Freguesia das Avenidas Novas (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia das Avenidas Novas
(Planta: Sérgio Dias)

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s