Conde de Monsaraz, o poeta alentejano da Salada Primitiva, numa rua da Penha de França

Conde de Monsaraz em 1908 (de lenço sobre o casaco) (Foto: Joshua Benoliel, Arquivo Municipal de Lisboa)

Conde de Monsaraz em 1908 (de bigode branco)
(Foto: Joshua Benoliel, Arquivo Municipal de Lisboa)

António de Macedo Papança, o  poeta alentejano que para o Cozinheiro dos Cozinheiros de Paulo Plantier enviou a sua «Salada Primitiva», na sua qualidade de  Conde de Monsaraz dá nome a uma artéria da Penha de França, antes identificada como Rua nº 1 do Olival do Monte Alperche, desde que o Edital Municipal foi publicado em 18/07/1933, atribuindo também a legenda «Poeta/ 1852 – 1913».

António de Macedo Papança (Reguengos de Monsaraz/18.07.1852-17.07.1913/Lisboa), 1º visconde (decreto de 17/01/1884) e depois 1º conde de Monsaraz (decreto de 03/05/1890),  foi um poeta e político que ingressou no Partido Progressista em 1886, ao tempo liderado por Anselmo José Braamcamp e foi deputado eleito por Évora (1886), Par do Reino (1898) e embaixador-delegado ao Congresso da Paz em 1900, sendo em 1906 comendador de Santiago de Espada e no ano seguinte agraciado com a a grã-cruz da Ordem de Afonso XII de Espanha.

Freguesia da Penha de França (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia da Penha de França
(Foto: Sérgio Dias)

Filho de um rico proprietário rural, o maior do concelho de Reguengo de Monsaraz, e formado bacharel de Direito em 1874 exerceu advocacia mas cedo se dedicou antes à poesia, de pendor naturalista, na qual já se iniciara enquanto estudante universitário. Privou com João Penha e Cesário Verde  e escolheu uma estética parnasiana que progressivamente foi passando para um exacerbado nacionalismo que é quase um prelúdio de António Sardinha. De entre as suas várias obras, destacam-se Crepusculares (1876), Catarina de Athayde (1880), Telas históricas (1882) e sobretudo, Musa Alentejana (1908).

Colaborou ainda em diversos jornais e revistas, como Brasil-Portugal, A Evolução, A Folha,  Ilustração Portuguesa, Renascença, Ribaltas e Gambiarras. Também traduziu diversas obras para o teatro e escreveu obras historiográficas de estilo naturalista e nacionalista. Foi sócio eleito da Academia Real das Ciências (1886) por proposta de Bulhão Pato, Pinheiro Chagas, Visconde de Benalcanfor e Vilhena Barbosa; da Academia Brasileira de Letras (1910),  da Sociedade de Geografia de Lisboa e do Instituto de Coimbra.

Em 1888 casou com Amélia Augusta Fernandes Coelho Simões, filha de um grande proprietário e negociante da Figueira da Foz e membro do Partido Progressista, com quem teve um único filho, o jornalista e político Alberto de Monsaraz. Proclamada a República exilou-se na Suíça e depois em Paris voltando a Portugal em 1913 para depois falecer na véspera do seu 61º aniversário.

Em Lisboa, o Conde de Monsaraz viveu  na Rua Vítor Cordon, onde veio a falecer, e a Câmara Municipal de Lisboa no ano do seu centenário homenageou-o nesse prédio com o nº7, através de uma lápide evocativa,  descerrada em 18 de julho de 1952 numa cerimónia presidida pelo Vice-Presidente da CML, Luís Pastor de Macedo.

Freguesia da Penha de França (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia da Penha de França
(Planta: Sérgio Dias)

E finalmente, deixamos a receita da sua

SALADA PRIMITIVA

Leitor, se amas o campo e a natureza,
Se és bucólico e rude,
E na tua rudeza
Só respeitas a força e a saúde;
Se às convenções da sociedade opões
O desdém pelas normas e preceitos,
Que trazem pelo mundo contrafeitos
Cérebros e corações;
Se detestas o luxo e se preferes,
Francamente, às senhoras as mulheres,
E tens, como um pagão da velha Esparta,
Pulso rijo, alma ingénua e pança farta;
Se és algo panteísta e tens bem vivo
Esse afagado ideal
Do retrocesso ao homem primitivo,
Que nos tempos pré-históricos vivia
Muito perto do lobo e do chacal;
Se um ligeiro perfume de poesia
Que se ergue das campinas
Na paz, no encanto das manhãs tranquilas,
Te dilata as narinas
E enche de gozo as húmidas pupilas,
Leitor amigo, se assim és, vou dar-te
“Se a tanto me ajudar engenho e arte”
Uma antiga receita,
Que os rústicos instintos te deleita
E frémitos te põe na grenha hirsuta.

Leitor amigo, escuta:
Vai, como o padre-cura, cabisbaixo
Pelos vergéis da tua horta abaixo
Quando no mês de Abril, de manhã cedo,
O sol cai sobre as franças do arvoredo,
Para sorver aqueles bons orvalhos
Chorados pelos olhos das estrelas
Nos corações dos galhos;
Passarás pelas couves repolhudas
– Cuidado não te iludas,
Nem te importes com elas!
Vai andando…
Mas logo que tu passes
Ao campo das alfaces,
Pára, leitor amigo,
E faz o que te digo:
Escolhe dentre todas a mais bela,
Folhas finas, tenrinhas e viçosas
Como as folhas das rosas,
E enchendo uma gamela
De água pura e corrente,
Lava-a, refresca-a cuidadosamente.
Logo em seguida (e é o principal)
Que a tua mão, sem hesitar, lhe deite
Um fiozinho de azeite,
Vinagre forte e sal,
E ouvindo em roda o lúbrico sussurro
Da vida ansiosa a propagar-se, que erra
Em vibrações no ar,
Atira-te de bruços sobre a terra
E come-a devagar,
Filosoficamente, como um burro!

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2 thoughts on “Conde de Monsaraz, o poeta alentejano da Salada Primitiva, numa rua da Penha de França

  1. Pingback: A Rua do sentimento dum poeta e comerciante ocidental do final do séc. XIX | Toponímia de Lisboa

  2. Bom saber que existe esta página com a história da toponímia de Lisboa. Porque é triste não se saber nada sobre quem deu seu nome às ruas!

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