Outros temperos da toponímia de Lisboa

Campo das Cebolas - Placa Tipo II - Freguesia de Santa Maria Maior (Foto: Mário Marzagão)

Campo das Cebolas – Placa Tipo II – Freguesia de Santa Maria Maior
(Foto: Mário Marzagão)

Nos outros temperos presentes na toponímia de Lisboa, que não as especiarias ou o azeite a que já nos referimos, registamos as cebolas para cozinhar os caracóis, as pataniscas de bacalhau, os peixinhos da horta, a meia desfeita ou o bacalhau à Brás, bem como o louro usado para fazer pipis, iscas com elas ou ervilhas com ovos escalfados.

Na confluência da Rua da Alfândega, Rua dos Bacalhoeiros, Rua do Cais de Santarém e a  Avenida Infante Dom Henrique fica o Campo das Cebolas que, de acordo com Gomes de Brito, «Era antigamente Rua direita da Ribeira. (…) Comquanto no Tombo da Cidade (1755), venha designado sob o nome de Rua direita da Ribeira, já a planta de J. Nunes Tinoco (1650), o menciona com o título actual.» Como Campo das Cebolas também aparece já na descrição paroquial da freguesia de «Santa Maria Mayor» anterior ao terramoto de 1755 e, como «rua da praya, ou Campo das Cebollas», na planta da freguesia de São João da Praça após a remodelação paroquial de 1770. Este topónimo deve ter tido origem no comércio local de produtos hortícolas já que desde os fins do séc. XV o mercado de víveres anteriormente sediado no Terreiro do Paço [é Praça do Comércio desde 1760] foi transferido para a Praça da Ribeira Velha.

Beco do Loureiro - Freguesia de Santa Maria Maior (Foto: Sérgio Dias)

Beco do Loureiro – Freguesia de Santa Maria Maior
(Foto: Sérgio Dias)

Já o louro surge em 6 arruamentos. Comecemos pela Rua Nova do Loureiro, na Freguesia da Misericórdia, assim designada pelo Edital do Governo Civil de Lisboa de 05/08/1867 e que até aí se denominava Rua do Loureiro, denotando as raízes rurais dos local onde também pontificam a Rua da Vinha e a Calçada do Cabra.

A seguir temos o Beco do Loureiro, na Freguesia de Santa Maria Maior, a estender-se do Pátio do Peneireiro à Rua de Guilherme Braga e que já aparece mencionado nas descrições paroquiais anteriores ao Terramoto de 1755, na freguesia de Santo Estêvão de Alfama.

Nas imediações temos a Rua do Loureiro, a ligar a Rua de Guilherme Braga à Rua das Escolas Gerais, artéria que já  aparece referida nas descrições paroquiais anteriores ao Terramoto de 1755, na freguesia do Salvador e após a remodelação paroquial de 1780, surge sucessivamente nas freguesias de S. Miguel, de Santo Estêvão e de novo, na freguesia do Salvador.

Rua da Quinta do Loureiro- Freguesia de Campo de Ourique (Foto: Sérgio Dias)

Rua da Quinta do Loureiro- Freguesia de Campo de Ourique
(Foto: Sérgio Dias)

Se rumarmos à Freguesia da Estrela, encontramos a Estrada do Loureiro, topónimo que deriva da sua proximidade à antiga Quinta do Loureiro que ali existia, razão também para o Edital municipal de 19/10/2001 atribuir ali, num novo arruamento, o topónimo Rua da Quinta do Loureiro (Freguesia de Campo de Ourique). A Quinta do Loureiro situava-se no Vale de Alcântara, e segundo a informação de Luís Pastor de Macedo esta quinta existia pelo menos desde o final do século XVII, pois em 1718 o seu proprietário António de Albuquerque Coelho de Carvalho afirmava estar ela na posse de sua família há oitenta anos conforme consta do Livro dos Prazos da Freguesia de São Pedro de Alcântara. A Quinta do Loureiro deve ter existido até ao início do século XX, uma vez que aparece referenciada na planta realizada em 1856-58 por Filipe Folque e mais tarde, numa planta de 1910, assim como na «Planta da Cidade» de 1948, do Instituto Geográfico e Cadastral, encontramos referências toponímicas relativas à Quinta do Loureiro como o Caminho da Quinta do Loureiro e a Estrada do Loureiro. A Estrada do Loureiro começava na Rua Capitão Afonso Pala e corria em paralelo com a Rua Possidónio da Silva e a Rua Maria Pia. Nos antigos terrenos da Quinta do Loureiro surgiu uma nova urbanização de 14 lotes de habitação para realojamento do Casal Ventoso, então designados por Empreendimentos Ceuta Norte, que receberam os primeiros inquilinos em  abril de 2001 e nesta nova urbanização surgiu um novo arruamento no prolongamento da Rua Costa Pimenta, paralelo à Avenida de Ceuta, com início na Rua Costa Pimenta e final na Rua do Arco do Carvalhão que é a Rua da Quinta do Loureiro.

Freguesia de Santo António - Placa Tipo II (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de Santo António – Placa Tipo II
(Foto: Sérgio Dias)

A Travessa do Loureiro, na Freguesia de Santo António, liga a Rua do Passadiço à Rua de Santa Marta, e aparece referida como Rua do Loureiro já na planta da freguesia de Santa Joana, após a remodelação paroquial de 1780, passando a  surgir como Travessa em 1857,  no Atlas da Carta Topográfica de Lisboa de Filipe Folque.

Finalmente, no sítio do Chão do Loureiro, cuja primeira referência data de 1464 num livro de Emprazamentos, deparamos na Freguesia de Santa Maria Maior com o Largo do Chão do Loureiro e a Travessa do Chão do Loureiro. Se sobre o Largo desconhecemos a data da sua fixação na memória da cidade já sabemos sobre a Travessa que era o Beco do Chão do Loureiro até o Edital municipal de 04/12/1882 lhe mudar a categoria. De acordo com Luís Pastor de Macedo, na sua Lisboa de Lés a Lés, «Talvez tivesse sido a travessa que C. R. de Oliveira indica em 1551 com o mesmo nome. Em 1756 era a calçada ou calçadinha do Chão do Loureiro, em 1827 era as escadinhas da mesma denominação e por fim passou para a categoria de beco.»

Largo e Travessa do Chão do Loureiro - Freguesia de Santa Maria Maior (Planta: Sérgio Dias)

Largo e Travessa do Chão do Loureiro – Freguesia de Santa Maria Maior
(Planta: Sérgio Dias)

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2 thoughts on “Outros temperos da toponímia de Lisboa

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