Frutas na Toponímia de Lisboa

Rua Direita da Ameixoeira - Placa Tipo II - Freguesia de Santa Clara (Foto: Sérgio Dias)

Rua Direita da Ameixoeira – Placa Tipo II – Freguesia de Santa Clara
(Foto: Sérgio Dias)

A toponímia de Lisboa perpetua diversas frutas, através dos nomes de árvores de fruta que são memórias rurais da cidade de Lisboa: a ameixoeira, a amendoeira, a cerejeira, a figueira, a laranjeira, o limoeiro e a pereira.  E estas memórias resultam de muitos séculos em que era o povo que dava nomes aos lugares para os identificar distintamente dos outros, até a Portaria de 27/09/1843 pela primeira vez atribuir esta prerrogativa ao Governo Civil, tendo o de Lisboa publicado o 1º edital de matéria toponímica em 1 de setembro de 1859.

A Ameixoeira foi até ao século XX uma freguesia de carácter rural e quando fez o seu brasão (em 1993) integrou nele duas verdes ameixoeiras (também denominadas ameixeiras ou ameixieiras). O topónimo do sítio passou para a Estrada da Ameixoeira (freguesias de Santa Clara e Lumiar) e para a Rua Direita da Ameixoeira (Santa Clara). A Estrada da Ameixoeira une a Rua Alexandre Ferreira ao Largo do Ministro e até 1928, por ser um  lugar retirado, nela se realizaram dezenas de duelos, como o que opôs Afonso Costa ao Conde de Penha Garcia, em 14 de julho de 1908. Já Rua Direita era a designação comum usada para a rua principal de um lugar e assim aconteceu com a Rua Direita da Ameixoeira, que assim já assim era denominada vulgarmente até ser oficializada pelo Edital municipal de 16/06/1928, que procedeu de igual forma para os outros topónimos antigos do lugar como o Largo do Ministro, o Largo do Terreiro, o Beco dos Ferreiros e a Travessa de Santo António.

Contudo, a origem do topónimo Ameixoeira poderá não ser a árvore da ameixa. Sabe-se que em 1147 por altura da reconquista de Lisboa, a Ameixoeira tinha o nome latino de Muchinis. No séc. XIII, aparece como Moyxieira e até ao séc. XVII era conhecida como Mixoeira (derivada de um nome mouro: Mixio ou Mixo), mas também era denominada como Ameijoeira (pela quantidade de ameijoas fósseis no local) e ainda como Funchal (pela tradição de numa batalha entre mouros e cristãos em que estes últimos encontraram uma imagem de Nossa Senhora escondida num funchal).

Com amendoeira Lisboa guarda quatro topónimos: o Beco e a Rua da Amendoeira (Freguesia de Santa Maria Maior), mais o Beco do Outeirinho da Amendoeira (Santa Maria Maior) e o Largo do Outeirinho da Amendoeira (São Vicente).

Luís Pastor de Macedo refere que «Actualmente [década de quarenta do séc. XX], existe apenas um beco com o nome de Amendoeira. Fica na freguesia do Socorro, começando e terminando, depois de fazer uma curva, na rua com o mesmo nome.» Norberto de Araújo aponta as raízes rurais:  «A Amendoeira é uma nesga estreita de casas pequenas e onde, à direita, e a meio, se encontra um quintal, restos silvestres da Mouraria antiga, sobre os quais se debruça um muro que pertence ao pátio do Coleginho.» Serão assim topónimos anteriores ao terramoto de 1755 e tanto mais que as descrições paroquiais de Lisboa referem  «rua da Amendoeyra» na freguesia de Nª Srª do Socorro, «rua da Amendoeira» na «freguezia de S.George» ou «freguezia de S. Jorze», e depois outra vez como rua da Amendoeira na freguesia de Nª Srª do Socorro. Ainda segundo Pastor de Macedo, na Rua da Amendoeira morou no séc. XIX Ana Gertrudes, conhecida pela alcunha da Barbuda, a mãe da Severa. 

O Beco do Outeirinho da Amendoeira, que se desdobra em escadas da Rua do Vigário ao Beco dos Paus, de acordo com Luís Pastor de Macedo, radica em que « O outeiro que no diminutivo originou o nome deste beco, supomos vê-lo num documento do ano de 1465: “… a Johane anes almocreue e assua molher Catarina aluarez moradores em a dicta cidade [de Lisboa] na freguesia santo steuam emprazaromlhes huma casa térrea q elles [os Clérigos Ricos] han hu chamam o outeiro hu esta ho hulmeiro com huu quintall q tem diante e huua palmeira e huua parreira, etc.» Nas plantas da freguesia após a remodelação paroquial de 1780 já aparece em Santo Estêvão «o becco intitullado o Outeiro da Amendoeira».

Já o Largo do Outeirinho da Amendoeira, que vai do Campo de Santa Clara à Cruz de Santa Helena, teria sido a Rua do Arco Pequeno segundo Norberto Araújo: « Sigamos agora por esta rua, que é o princípio do largo do Outeirinho da Amendoeira, antiga do Arco Pequeno, sob o muro do Pátio de S. Vicente; assentou aqui o Postigo do Arcebispo, da muralha de D. Fernando, depois configurado num arco, desaparecido há relativamente poucos anos[em relação à década de quarenta do séc. XX].» 

Calçadinha da Figueira - Freguesia do Lavaodois (Foto: Mário Marzagão)

Calçadinha da Figueira – Freguesia de Santa Maria Maior
(Foto: Mário Marzagão)

Na Freguesia de Carnide, onde ainda sobrevivem alguns dos antigos traços da ruralidade do sítio, encontramos a Azinhaga dos Cerejais e a Azinhaga das Cerejeiras, sendo que a própria categoria de Azinhaga denota a sua origem rural.

Da árvore dos figos, para além da Praça da Figueira e do Poço do Borratém, Lisboa guarda ainda em Alfama a Calçadinha da Figueira, que liga a Calçadinha de São Miguel à Rua Norberto de Araújo, como herança da presença árabe na cidade. No levantamento de 1858 de Filipe Folque a Calçadinha da Figueira aparece identificada como Calçada da Figueira.

No norte da cidade, a Quinta das Laranjeiras de Estêvão Augusto de Castilho, fez nascer o topónimo Laranjeiras cuja referência mais antiga data de 1671 e daí se gerou tanto a Estrada como a Rua das Laranjeiras, sendo que esta última antes do Edital municipal de  19/07/1919 se designava Azinhaga da Ponte Velha.

Já no lado ocidental de Lisboa, na Freguesia da Ajuda, temos uma Rua do Laranjal nascida como tal há quase 100 anos. Primeiro, foi Rua da Paz, a que o Edital municipal de 18 de junho de 1889 acrescentou «à Ajuda» e depois, o Edital municipal de 26 de setembro de 1916 tornou-a Rua do Laranjal.

Travessa da Laranjeira - Freguesia da Misericórdia (Foto: Sérgio Dias)

Travessa da Laranjeira – Freguesia da Misericórdia
(Foto: Sérgio Dias)

E em plena Bica deparamos com a Travessa da Laranjeira, que como a sua paralela Travessa do Sequeiro fixa memórias rurais do local. Pastor de Macedo refere que «O padre Carvalho da Costa, em 1712, dá-lhe o nome de ‘travessa do Laranjeiro’ (…) Supomos porém, que se trata duma gralha tipográfica da ‘Corografia Portuguesa’, depois copiada, irreflectidamente pelo autor do ‘Mapa de Portugal’» e ainda segundo este olisipógrafo foi nesta artéria que nasceu o jornalista Eduardo Fernandes, conhecido como Esculápio.

Já o limoeiro trouxe um Largo e uma Rua do Limoeiro, ambos na freguesia de Santa Maria Maior. Supõe-se que o sítio do Limoeiro  aluda a uma árvore no local mas o Largo do Limoeiro está indubitavelmente ligado a uma cadeia que aí funcionava desde o tempo de  D. João II e cujos cárceres encerraram gente como poeta Correia Garção (em 1771), o poeta Bocage (1797), o pintor Domingos Sequeira (1808) e o escritor Almeida Garrett (1827) mas que desde dezembro de 1979 acolhe as instalações do Centro de Estudos Judiciários.

Finalmente, a Travessa da Pereira, na Freguesia de São Vicente, «Data dos fins do século XVIII (1799) e foi aberta na quinta do Alcaide Fidalgo», de acordo com Pastor de Macedo que ainda acrescenta que « aqui nasceu em 3 de Novembro de 1828 o actor Isidoro e aqui viveu, segundo parece, aí pelos meados do século passado [séc. XIX], o desiquilibrado José Maria Leal de Gusmão , autor do poema Rei só Deus, e que foi um dos excêntricos relacionados por Luiz Augusto Palmeirim. A qualificação que primitivamente deram a esta serventia foi a de rua».

Travessa da Pereira - Freguesia de São Vicente (Planta: Sérgio Dias)

Travessa da Pereira – Freguesia de São Vicente
(Planta: Sérgio Dias)

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2 thoughts on “Frutas na Toponímia de Lisboa

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