Farinhas e fornos na toponímia de Lisboa

Largo dos Trigueiros - Freguesia de Santa Maria Maior (Foto: Nuno Correia)

Largo dos Trigueiros – Freguesia de Santa Maria Maior
(Foto: Nuno Correia)

O pão como elemento básico da alimentação e os fornos para o cozer marcam presença em inúmeros topónimos da cidade de Lisboa e que perduram nas zonas mais antigas da cidade assim como nas franjas urbanas que se mantiveram essencialmente rurais até ao início do século XX.

Na parte mais antiga da cidade, hoje integrada na Freguesia de Santa Maria Maior, encontramos  o Largo dos Trigueiros, mais o Largo do Terreiro do Trigo, a  Rua do Terreiro do Trigo, as  Escadinhas do Terreiro do Trigo  e a Travessa do Terreiro do Trigo, sendo estes quatros últimos derivados do edifício do Celeiro Público ou Terreiro do Trigo, aqui construído entre 1765 e 1768 sob o traço de Reinaldo Manuel dos Santos, sendo que com este Terreiro do Trigo pombalino, procurava D. José I assegurar «a abundância de pão aos moradores da sua nobre e leal cidade de Lisboa». Mais tarde, o espaço passou a ser o Mercado Central de Produtos Agrícolas até cessar essas funções em 1937 para aí serem instalados serviços alfandegários.

Para a moagem dos cereais, temos topónimos com atafonas e moinhos. Atafona é uma palavra de origem árabe que significa moinho que funciona sem vento nem água mas é antes impulsionado por homens ou por bestas. As artérias que guardaram este nome devem ter tido um engenho destes ou então algum morador do arruamento que fosse atafoneiro, ofício cuja irmandade tinha a invocação de Santo Antão. Em Alfama, subsiste o Beco das Atafonas, já referido em 1712, e junto à Rua das Janelas Verdes, temos a Travessa das Atafonas que perpetua a memória de atafonas por estas paragens e que  segundo Júlio de Castilho seriam do final do século XV . No singular, ainda se regista um Largo e um Beco da Atafona na antiga Freguesia de São Cristóvão e São Lourenço (hoje Santa Maria Maior), sendo que este último, de acordo com Pastor de Macedo, teria sido Rua desde 1694 e até pelo menos 1701 pelo que o Largo só com topónimo atribuído em 1915 deriva o seu nome do Beco. Existe também na Freguesia de São Vicente  um Beco da Mó. Com moinhos encontramos ainda hoje 7 topónimos em zonas altas e ventosas: o Alto dos Moinhos (em São Domingos de Benfica) que apenas um vale o distancia de Monsanto, a Calçada do Moinho de Vento (Freguesias de Arroios e Santo António), a Calçada dos Sete Moinhos ( em Campolide) onde ainda se mantinham alguns no final do séc. XX e a Rua dos Sete Moinhos (Campo de Ourique) pela proximidade à Calçada, a Travessa do Moinho de Vento (Estrela) perto da Rua de Buenos Aires, a Travessa dos Moinhos em Santo Amaro (Alcântara) e Travessa do Moinho Velho na Boa-Hora (Ajuda).

Largo do Peneireiro - Freguesia de Santa maria maior - Placa Tipo I (Foto: Mário Marzagão)

Largo do Peneireiro – Freguesia de Santa Maria Maior – Placa Tipo I
(Foto: Mário Marzagão)

E para escolher os cereais ou as farinhas, ou perpetuar quem vendia peneiras, encontramos ainda no norte lisboeta o Largo das Peneireiras, na zona das antigas quintas da Charneca do séc. XIX , bem como o Largo e o Pátio do Peneireiro em Alfama.

O Beco e a Rua das Farinhas, mais as Escadinhas da Rua das Farinhas são topónimos da Lisboa seiscentista já que Cristóvão de Oliveira no seu Sumário enumera já na Lisboa de 1551 o Beco das Farinhas em Santa Justa e a Rua das Farinhas em S. Lourenço onde ainda hoje as encontramos.

E finalmente nos fornos temos a Travessa do Forno aos Anjos (Freguesia de Arroios), a Travessa do Forno do Maldonado e a Travessa do Forno do Torel que antes foi Beco (ambas na Freguesia de Arroios), e todas dadas pelo Edital do Governo Civil de 01/09/1859, o que denota por um lado, serem topónimos anteriores a esta data e por outro que haveriam em Lisboa várias Travessas do Forno  para haver necessidade de destrinçá-las.

Travessa dos Fornos - Freguesia da Ajuda (Foto: Sérgio Dias)

Travessa dos Fornos – Freguesia da Ajuda
(Foto: Sérgio Dias)

Ainda hoje subsistem mais duas Travessas do Forno: a Travessa do Forno junto à Rua das Portas de Santo Antão ( Freguesia de Santa Maria Maior) e a Travessa dos Fornos na Ajuda, que o Edital municipal de 14/12/1917 reconhece que já  era o «nome porque vulgarmente era conhecida». Assim, é lícito supor que a denominação advém da proximidade à antiga Estrada dos Fornos d’El-Rei. Já numa planta de 1890, anexa a um ofício do engenheiro diretor-geral da CML aparece esta Estrada dos Fornos d’El-Rei, no Rio Seco, e como tal também aparece designada na planta da cidade de 1896, passando a Estrada do Rio Seco na planta de 1911, e pelo edital de 07/08/1911 se torna a Rua Dom João de Castro.

Já os becos são 5 : o Beco do Forno junto do Largo da Severa, o Beco do Forno (a São Paulo) referido no levantamento de 1856 de Filipe Folque, mais o Beco do Forno do Castelo, o Beco do Forno da Galé e o Beco do Forno do Sol junto à Vila Berta, todos com acrescento para aumentar a diferenciação dado pelo Edital do Governo Civil de Lisboa de 01/09/1859.

Por último, lembramos que toponímia lisboeta guarda ainda outra memória deste património português: a Rua da Padaria.

Escadinhas da Rua das Farinhas (Foto; Ana Luísa Alvim)

Escadinhas da Rua das Farinhas
(Foto: Ana Luísa Alvim)

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