Marcas de Ventura Terra na toponímia de Lisboa

Miguel VenturaTerracopybigAssRepub

Neste mês completam-se os 150 anos do nascimento de Miguel Ventura Terra (Seixas do Minho/14.07.1866 – 30.04.1919/Lisboa), figura fundamental da arquitetura portuguesa que muito contribuiu para a modernização de Lisboa no arranque do século XX (v. artº sobre Avenida Ventura Terra), razões para lhe dedicarmos os nossos artigos do mês de julho, fazendo o itinerário de Ventura Terra pelas ruas da capital através da sua arquitetura de palacetes, habitações de rendimento, construções cosmopolitas, equipamentos urbanos, propostas de melhoramentos urbanos e propostas toponímicas.

De regresso a Portugal em 1896, após estudos em Paris, Miguel Ventura Terra foi nomeado arquitecto de 3.ª classe da Direção de Edifícios Públicos e Faróis e venceu o concurso de reconstrução da Câmara dos Deputados após o incêndio de 1895, o espaço que hoje identificamos como Assembleia da República, na Rua de São Bento. O hemiciclo de Ventura Terra foi inaugurado em 1903.

Em 1900, idealizou o pedestal para o monumento ao Marechal Saldanha do escultor Tomás Costa, na Praça Duque de Saldanha, assim como projetou dois pavilhões da representação portuguesa na Exposição de Paris de 1900. No ano seguinte, graças à iniciativa do Coronel Rodrigo António Aboim Ascensão da Associação de Proteção à Primeira Infância (APPI) foi o autor da primeira creche lisboeta,  que incluiu a construção de uma Vacaria, no Largo do Museu de Artilharia nº 2. Data também de 1901 um edifício de habitação no nº 5 da Praça Marquês de Pombal.

Em 1902 foi o ano de  concretizar o Palacete de Henrique José Monteiro Mendonça, nos nºs 18-28 da Rua Marquês de Fronteira, galardoado com o Prémio Valmor 1909; a  Casa do  Jacinto Cândido, na Rua da Arriaga e a casa de Guilherme Pereira de Carvalho na Avenida da Liberdade (ambas já demolidas); o  prédio do Comendador Emílio Liguori na Rua Duque de Palmela nº 37 ( que viria a ser a sede do jornal Expresso) e ainda, a casa de José Joaquim Miguéis, na Avenida António Augusto Aguiar nº 134 (demolida em 1997). Ainda com projeto de 1902 foi  edificado o conjunto de três prédios erguidos pelo republicano Joaquim dos Santos Lima, na Avenida Elias Garcia nº 62 (então Avenida José Luciano) com a Avenida da República nº 46 e, ainda a Sinagoga de Lisboa também designada como Shaaré Tikvá ou Portas da Esperança, na Rua Alexandre Herculano, artéria onde Ventura Terra traçou também o seu próprio edifício residencial no nº 57, exemplo significativo da aplicação da Arte Nova em Portugal  que foi o 2º Prémio Valmor a ser atribuído, no ano de 1903, como recorda uma placa na fachada para além de outra placa que informa que «Esta casa foi legada às escolas de Belas Artes de Lisboa e Porto pelo distinto arquitecto Miguel Ventura Terra, que nela faleceu em 30 de Abril de 1919, destinando o seu rendimento líquido para pensões a estudantes pobres das escolas que mostrem decidida vocação para as belas artes». Ainda  neste arruamento somou  Ventura Terra em 1911 o edifício do nº 25 que também foi Prémio Valmor nesse ano.

Ventura Terra defendia a autonomia disciplinar da arquitetura e em 1903, com Adães Bermudes, Aragão Machado, Rosendo Carvalho e António Dias da Silva forma a Sociedade dos Arquitectos Portugueses, com sede na Rua Vítor Cordon, nº 14 – 1º, e da qual foi o primeiro presidente. Hoje encontramos como sua herdeira associativa a Ordem dos Arquitectos, na Travessa do Carvalho nº 23,  no antigo edifício dos Banhos de São Paulo.

Em 1904, Miguel Ventura Terra foi o delegado de Portugal ao VI Congresso Internacional dos Arquitetos na cidade de Madrid e traçou a Casa da Condessa de Taboeira na Rua Arriaga nº9, bem como a casa de Júlio Gualberto da Costa Neves na Rua Rosa Araújo nº37.

Em 1905 projetou o Banco Lisboa & Açores para a Rua Áurea nº 82 -92, e traçou  o Palacete Valmor, por encomenda da Viscondessa de Valmor, D. Josefina Clarisse de Oliveira, no  nº 38 da Avenida da República (então Avenida Ressano Garcia), com esquina para o  nº 22  da Avenida Visconde Valmor (então Rua Visconde Valmor), construído por Joaquim Francisco Tojal (o mesmo da Vila Berta) e que foi o Prémio Valmor de 1906.

Seguiram-se os seus Liceus: o Camões (1907) na Praça José Fontana, o Pedro Nunes (1908) na Avenida Álvares Cabral, e o Maria Amália Vaz de Carvalho (1913) na Rua Rodrigo da Fonseca, obra que por falta de verba demorou 18 anos a acabar e por isso foi terminada pelo Arqº António do Couto.

Em 1907 traçou a casa de João Silvestre de Almeida, com vitrais Arte Nova e pintura de mural de Veloso Salgado, na  Rua Mouzinho da Silveira nº12 , onde hoje encontramos o Banco Privado Português, assim como foi o autor da  Casa do Dr. Alfredo Bensaúde, no cruzamento da Rua de São Caetano com a Rua do Arco do Chafariz das Terras, na Lapa, conhecido como Edifício Sandoz. Em 1908, idealizou a Maternidade Alfredo da Costa, na Rua Viriato. Também neste ano e bem próximo, na Avenida Fontes Pereira de Melo ficou concluído o Palacete para José Joaquim da Silva Graça, director do jornal O Século, que foi vendido em 1930 para se tornar no Hotel Aviz, o qual funcionará até 1961 e será demolido no ano seguinte. Ainda em 1908, Miguel Ventura Terra participou no traçado de alguns detalhes do Palácio Marquês de Vale Flôr , na Rua Jau, quando o Arqtº José Cristiano de Paula Ferreira da Costa retomou  este projeto por falecimento de Nicola Bigaglia, sendo este edifício classificado como monumento nacional deste 1997.

Para além da arquitetura  Ventura Terra era um republicano pelo que no período de 1908 a 1913 foi também vereador  na Câmara Municipal de Lisboa, na 1ª vereação republicana de Lisboa, presidida por Anselmo Bramcaamp Freire. Elaborou planos na área do urbanismo, como os que concebeu para o Parque Eduardo VII e para a zona ribeirinha da capital (1908) e em 13 de Outubro de 1910 propôs a atribuição do topónimo Esplanada dos Heróis da Revolução, em terrenos do Parque Eduardo VII – «que seja dado o nome de Esplanada dos Heróis da Revolução ao espaço que no meu projecto de Parque Eduardo VII fica compreendido entre o limite norte da Praça do Marquês de Pombal, as ruas Fontes Pereira de Melo e António Joaquim Aguiar e o Palácio de exposições e festas onde começa o parque propriamente dito.» – proposta aprovada mas que não chegou a ser concretizada. Em 9 de março de 1911 propôs ainda a atribuição dos nomes de Eugénio dos Santos, Nuno Santos e Silva Porto a ruas importantes de Lisboa. Ainda nesta área refira-se que Miguel Ventura Terra era amigo do escultor António Teixeira Lopes, e solicitou-lhe a execução de um busto em mármore do 1º Presidente Republicano da Câmara de Lisboa, Anselmo Braamcamp Freire, pago pelos 11 vereadores.

Em 1912-1913, num traçado representativo da Arte do Ferro projeta o seu Teatro Politeama, na então designada Rua Eugénio dos Santos (hoje, Rua das Portas de Santo Antão). Ainda em 1913, Ventura Terra recebeu uma Menção Honrosa do Prémio Valmor para o Palacete que idealizou para o nº 3 da Avenida António Augusto Aguiar, onde é hoje a sede da Ordem dos Engenheiros, cabendo a parte de cantaria ao arqtº Pardal Monteiro, que trabalhou no atelier de Miguel Ventura Terra quando ainda frequentava a ESBAL e o entendeu sempre como mestre de referência.

A Casa de Ventura Terra traçada por ele próprio, na Rua Alexandre Herculano, em 1909 (Foto: Alberto Carlos Lima, Arquivo Municipal de Lisboa)

A Casa de Ventura Terra traçada por ele próprio, na Rua Alexandre Herculano, em 1909
(Foto: Alberto Carlos Lima, Arquivo Municipal de Lisboa)

 

 

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3 thoughts on “Marcas de Ventura Terra na toponímia de Lisboa

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