A Rua Actor Vale no Bairro dos Aliados

Freguesia da Penha de França (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia da Penha de França
(Foto: Sérgio Dias)

A Rua Actor Vale nasceu na Rua nº 4 do Bairro dos Aliados, a ligar o Largo Mendonça e Costa à Alameda Dom Afonso Henriques, e paralela à Rua Carvalho Araújo, pelo Edital municipal de 12 de março de 1932, o mesmo que em Arroios fazia despontar o Bairro dos Atores através da atribuição dos topónimos Rua Ângela Pinto, Rua Eduardo Brazão, Rua Ferreira da Silva, Rua Joaquim Costa, Rua José Ricardo, Rua Lucinda Simões, Rua Rosa Damasceno e Avenida Rey Colaço (esta última não executada).

O Grande Elias, 17 de dezembro de 1903

O Grande Elias, 17 de dezembro de 1903

José António do Vale (Lisboa/20.10.1845 – 20.02.1912/Lisboa) foi um  dos mais aplaudidos atores portugueses. Nasceu na Rua do Benformoso e estreou-se no Teatro da Rua dos Condes com 16 anos, a fazer o papel de uma criança na peça Casamento em Miniatura. A estreia profissional aconteceu por volta de 1863, segundo uns no Teatro das Variedades na comédia Um Pároco Virtuoso, segundo outros  no Teatro Ginásio na peça Nem todo o mato é orégãos.  Neste Teatro terá os seus grandes mestres e conhecerá o amor da sua vida, a atriz Lucinda Simões, paixão contrariada pelo pai dela o que impulsionará Vale a ir desenvolver uma carreira no Brasil em 1870, como ator, ensaiador e empresário, durante cerca de 10 anos.

Regressa ao Ginásio por treze anos e ficam famosas as suas actuações em Sua Excelência (1884), na farsa O Vale em Lisboa (1880), As Médicas O Comissário de Polícia (ambas em 1890), O Burro do Senhor Alcaide (1891), todas escritas por Gervásio Lobato. Passou depois ao Teatro da Rua dos Condes, às revistas de Schwalbach e a empresário.

Falta salientar que na Rua Actor Vale existe uma Escola Básica com o mesmo nome, construída de base para o ensino em 1950, pela Câmara Municipal de Lisboa, no âmbito dos Planos Centenários Urbanos.

Freguesia da Penha de França (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia da Penha de França
(Planta: Sérgio Dias)

 

A Rua do poeta setecentista Domingos dos Reis Quita

Freguesia do Areeiro (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia do Areeiro
(Foto: Sérgio Dias)

O cabeleireiro e poeta setecentista Domingos dos Reis Quita, que viria a ser uma das maiores figuras da Arcádia Lusitana, foi perpetuado na Rua 8 do Bairro dos Aliados, na sua 2ª fase de colocação de topónimos neste Bairro, no ano de 1932.

Pela deliberação camarária de 23 de março de 1932 e edital de 31 do mesmo mês, haviam sido colocados no Bairro dos Aliados o jornalista Alberto Pimentel na Rua 3, o escritor Marcelino de Mesquita na Rua 6, o magistrado José Acúrcio das Neves na Rua 7 e Domingos dos Reis Quita na Rua 5, onde desde 12 de junho de 1926 estava o mecenas republicano das Escolas Móveis, Casimiro Freire, pelo que houve necessidade de corrigir  a situação, o que aconteceu pela deliberação camarária de 7 de abril e Edital de 12 de abril de 1932 sendo o poeta recolocado na Rua 8, a ligar a Rua B entre a Rua Barão de Sabrosa e a Praça Elíptica projetada (depois, Rua Veríssimo Sarmento) à Rua Egas Moniz.

Freguesia do Areeiro (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia do Areeiro
(Foto: Sérgio Dias)

O poeta Domingos dos Reis Quita (Lisboa/06.01.1728 –  26.08.1770/Lisboa) exerceu desde os 13 anos o seu ofício de cabeleireiro mas também se revelou um autodidata empenhado na literatura, tendo começado por recitar versos aos fregueses, até que  com o apoio dos seus amigos Correia Garção e Cruz e Silva, sob o nome pastoril de Alcino Micénio  se tornou uma das maiores figuras da Arcádia Lusitana (fundada em 1756 em Lisboa)  e ganhou como mecenas o Conde de São Lourenço.

Da Arcádia Lusitana fizeram parte  Correia Garção (1724-1772), Cruz e Silva (1731-1799),  Francisco José Freire (1719-1773), a que se seguiu a Nova Arcádia com Bocage (1765-1805), Filinto Elísio (1734-1819), a Marquesa de Alorna (1750-1839) e Nicolau Tolentino (1740-1811).

Enquanto representante do bucolismo, Domingos dos Reis Quita além da profícua obra poética que publicou em 2 volumes em 1766 ( Obras Poéticas), ainda escreveu  o drama pastoril Licore e mais quatro tragédias:  Mégara, Hermíone, Astarto e a sua versão de A Castro.

Faleceu de tuberculose passando os seus últimos dias aos cuidados da filha de um amigo seu e aquela que havia amado e cantado em versos de um lirismo pungente, sob o pseudónimo de Tirceia, Teresa Teodora de Aloim, mulher que casada, viúva, e recasada, sempre protegeu e recolheu o poeta.

Deixamos um soneto de Domingos Reis Quita:

Ao longo de uma praia um triste dia,/Já quando a luz do sol se desmaiava,/O saudoso Alcino caminhava/Com seus cuidados só por companhia. 

Os olhos pelas águas estendia,/Porque alívio a seu mal nelas buscava,/E entre os tristes suspiros que exalava,/Em lágrimas banhado assim dizia:

Os suspiros, as lágrimas que choro/Levai, ondas, levai, ligeiro vento,/Para onde me levastes quem adoro.

Oh, se podeis ter dó do meu tormento,/Que me torneis o bem, só vos imploro,/Que pusestes em longo afastamento.

Freguesia do Areeiro (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia do Areeiro
(Planta: Sérgio Dias)

O miguelista José Acúrcio das Neves numa rua do Bairro dos Aliados

Freguesia do Areeiro (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia do Areeiro
(Foto: Sérgio Dias)

José Acúrcio das Neves, magistrado defensor do miguelismo,  foi colocado numa rua do Bairro dos Aliados, na 2ª fase de colocação de topónimos em 1932, já que na 1ª fase haviam sido colocadas figuras republicanas ou heróis nacionais como Egas Moniz.

Coube-lhe a Rua 7 do Bairro dos Aliados, a ligar a Rua Barão Sabrosa à Rua Carvalho Araújo (hoje no troço que passou a ser Rua Abade Faria), pela deliberação camarária de 23 de março de 1932 e edital de 31 do mesmo mês, junto com o escritor Marcelino de Mesquita na Rua 6 e o jornalista Alberto Pimentel na Rua 3.

José Acúrcio das Neves (Fajão (hoje Pampilhosa da Serra) – Cavaleiros de Baixo /14.12.1766 – 06.05.1834/Sarzedo – Arganil) foi um magistrado e político, também por alguns considerado pioneiro em estudos de economia portuguesa. Findo o Curso de Leis em Coimbra (1787) foi nomeado juiz de fora de Angra – que em 12 de janeiro de 1837 se passou a denominar Angra do Heroísmo-, no período de 1795 a 1799, passando de 1799 a 1802 a corregedor e a participar no governo da Capitania.

Com a formação da Junta Provisória do Porto e iniciada a resistência ao invasor napoleónico, retirou-se para a sua terra natal e favoreceu a resistência, nomeadamente com um conjunto de opúsculos – Obras Patrióticas – incitando a resistências popular contra os franceses, que foram até traduzidos e distribuídos em Espanha. Em 1810 passou a ser Desembargador da Relação do Porto, e nos anos seguintes foi acumulando os lugares de deputado, de vogal da direcção da Real Fábrica de Sedas e da Obra das Águas Livres, de secretário da Real Junta do Comércio, Agricultura, Fábricas e Navegação  e ainda vogal da Junta de Liquidação dos fundos da extinta Companhia Geral de Comércio do Grão-Pará e Maranhão. Em 1818 chegou a propor à Junta do Comércio a introdução da máquina a vapor em Portugal.

Dedicou-se também a escritos sobre economia política e história contemporânea, como os 5 volumes da História Geral da Invasão dos Franceses em Portugal e da Restauração deste Reino (1810-1811) ou os 2 volumes de Variedades sobre Objectos Relativos às Artes, Comércio e Manufacturas (1814 -1817), tendo sido eleito sócio da Academia das Ciências de Lisboa em 27 de agosto de 1810.

Acérrimo defensor do miguelismo e opositor das ideias do liberalismo vintista publicou diversas obras a expressá-lo, entre 1821 e e 1824, e logo em 1821 foi demitido dos principais cargos que ocupava. Em 1922 tornou-se deputado eleito  por Arganil. Após a Vilafrancada  foi readmitido na Junta do Comércio e demitido em 1824, sendo depois preso por participação na Abrilada. Após a morte de D. João VI, voltou aos seus cargos em 1826. E com o governo absolutista de D. Miguel, em 1828, foi nomeado Procurador Letrado da cidade de Lisboa na Junta dos Três Estados, tendo ficado aí famoso o seu discurso de legitimação de D. Miguel e da manutenção da monarquia de direito divino. Com a epidemia de cólera  que grassou em Lisboa em 1833 partiu para as Caldas da Rainha  e aí redigiu o boletim do exército de D. Miguel. Ainda nesse ano de 1833, com a vitória das forças liberais  refugiou-se no concelho de Arganil, na terra natal da esposa, onde foi encontrado num palheiro e morto.

 

Freguesia do Areeiro (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia do Areeiro
(Planta: Sérgio Dias)

A Rua Alberto Pimentel no Bairro dos Aliados

Freguesia do Areeiro (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia do Areeiro
(Foto: Sérgio Dias)

O escritor e jornalista Alberto Pimentel foi perpetuado numa artéria do Bairro dos Aliados na sua 2ª fase de atribuição de topónimos, através do Edital municipal de 31 de março de 1932.

Alberto Pimentel ficou na Rua nº 3 do Bairro dos Aliados, a ligar a Rua Barão de Sabrosa à Rua Jorge Castilho, e o mesmo Edital fixou o nome do médico, dramaturgo e jornalista Marcelino de Mesquita (Rua nº 7) e do miguelista e diretor da Real Fábrica das Sedas José Acúrcio das Neves.

Ilustração Portuguesa, 3 de abril de 1916

A Ilustração Portuguesa, 3 de abril de 1916

Alberto Augusto de Almeida Pimentel (Porto/14.04.1849  –  19.07.1925/Queluz), nascido na freguesia da Cedofeita, foi um escritor e jornalista, funcionário público e deputado, que cedo entrou para o Jornal do Porto, como tradutor e revisor mas onde publicou em folhetins o seu primeiro romance, Testamento de Sangue. Em 1872 foi convidado por Gaspar Ferreira Baltar para ingressar na redação de O Primeiro de Janeiro, mas como constituíra família aceitou antes o cargo de secretário do Procurador Régio em Lisboa. Contudo, nunca abandonou o jornalismo, colaborando para as de Branco e NegroDiário Ilustrado, Diário Popular, O Economista, A Ilustração portuguesa, Jornal da Noite, Novidades, Revista do Conservatório Real de Lisboa, Ribaltas e gambiarrasA semana de LisboaTiro e Sport.

Apreciador de Camilo Castelo Branco, com quem conviveu desde a juventude, foi o seu primeiro biógrafo dedicando-lhe oito obras. Também o seu carinho especial pelo Porto não o impediu de incluir a cidade de Lisboa na sua obra literária, como na biografia do poeta Chiado, em Fotografias de Lisboa (1874), Vida de Lisboa (1900) ou A triste canção do sul : subsídios para a história do fado (1904). Escreveu diversos romances como As netas do Padre Eterno (1895) ou O lobo da Madragoa (1904), poesia em Lira cívica : poesia anti-ibérica (1868) ou Idílios dos Reis (1886), biografias, peças teatrais como Dispa-se! : comédia em um ato (1877) ou A greve : cena cómica (1878), obras políticas como A questão das pescarias : projecto de lei : apresentado à Câmara dos senhores deputados na sessão de 9 de Março de 1891 e ainda estudos de tradições populares como As alegres canções do norte (1905) ou outros como Luar de saudades : recordações de um velho escritor (1924).

Na sua carreira pública foi ainda chefe de repartição na Câmara dos Pares, administrador do concelho de Portalegre e deputado do Partido Regenerador em várias legislaturas pelos círculos de Póvoa de Varzim e Cinfães, onde foi um acérrimo defensor dos interesses poveiros nomeadamente, com a divisão dos concelhos da Póvoa de Varzim e de Vila do Conde pelas Portas Fronhas, para além de ter sido Comissário régio junto do Teatro de Dona Maria II, em 1897.

Alberto Pimentel foi ainda sócio da Academia das Ciências e sócio honorário da Associação Comercial da Póvoa de Varzim a partir de 1894.

Freguesia do Areeiro (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia do Areeiro
(Planta: Sérgio Dias)

A Rua Marcelino de Mesquita na 2ª fase do Bairro dos Aliados

Freguesia do Areeiro (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia do Areeiro
(Foto: Sérgio Dias)

O médico, dramaturgo e jornalista Marcelino de Mesquita  foi perpetuado numa artéria do Bairro dos Aliados na sua 2ª fase de atribuição de topónimos, através do Edital municipal de 31 de março de 1932.

Marcelino de Mesquita ficou na Rua nº 6 do Bairro dos Aliados, a ligar a Rua Egas Moniz à Rua Barão de Sabrosa, e o mesmo Edital fixou o nome do jornalista e escritor Alberto Pimentel (Rua nº 3) e do diretor da Real Fábrica das Sedas José Acúrcio das Neves (Rua nº 7).

Já antes, por uma deliberação camarária de 1925 que nunca teve Edital, o Jardim das Amoreiras passou a designar-se Jardim Marcelino Mesquita, já que o homenageado vivera e falecera na Rua das Amoreiras.

O Branco e Negro, 18 de março de 1899

O Branco e Negro, 18 de março de 1899

Marcelino António da Silva Mesquita (Cartaxo/01.09.1856 – 07.07.1919/Cartaxo) aos 15 anos morava num quarto na Rua da Rosa e estudou na Escola Académica, na Politécnica e tendo morado também num hotel do Largo de São Paulo acabou por se formar em Medicina em 1885 na Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa mas apesar de ter publicado um livro de poemas intitulado Meridionais (1882) sempre dedicou particular atenção foi ao teatro, tendo começado com a comédia em cinco actos Pérola – Episódio da vida académica (1885), que  por ter a prostituição e  a boémia como tema provocou escândalo, a que se seguiram O Senhor Barão (1887) e  o drama histórico Leonor Teles (1889), que foi o seu primeiro êxito, e posteriormente transformou num romance histórico, sendo ainda de destacar A Noite do Calvário (1903) impedida pela comissão de censura de subir a palco, Margarida do Monte (1910) prefaciado por Teófilo Braga e os inúmeros êxitos de crítica e de público que conseguiu, quer em Portugal quer no Brasil.

Em 1886, ano do seu 1º casamento, fixou-se no Cartaxo onde exerceu clínica e comprou a tipografia Cartaxense e o jornal O Povo do Cartaxo, mudando-lhe o nome para O Cronista, vendendo tudo dois anos depois para vir residir em Lisboa, para a Rua das Amoreiras nº 198, e nesta cidade fundou e dirigiu o jornal satírico A Comédia Portuguesa (1888) e o diário Portugal (1891), bem como foi o diretor literário da Parodia: comedia portugueza (1903- 1907), que em 1903 se fundiu  com a A Paródia (1900-1902) de Rafael Bordalo Pinheiro, para além de ter colaborado em Ribaltas e Gambiarras, Jornal do Domingo, O Branco e Negro, A Imprensa, Serões, Revista do Conservatório Real de Lisboa e Revista de turismo.

Da sua participação política recorde-se que foi deputado do Partido Regenerador pelo Círculo da Guarda (1890 a 1892), participou no movimento do opositor ao Ultimatum de 1890, recusou a condecoração proposta pelo rei D. Carlos (1899) informando ser republicano, ministrou um curso de Ciências Naturais no Centro Escolar Republicano do Cartaxo (1907) e em em 1918, integrou  a embaixada de intelectuais enviada por Portugal ao Brasil.

Freguesia do Areeiro (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia do Areeiro
(Planta: Sérgio Dias)

A Rua do irmão de Florbela, o Tenente Espanca, no Bairro de Londres

A capa de O Domingo Ilustrado de 12 de junho de 1927

A 1ª página de O Domingo Ilustrado de 12 de junho de 1927

A Rua Tenente Espanca  no Bairro de Londres homenageia o irmão da poetisa Florbela Espanca, Apeles Espanca, que foi consagrado nas placas toponímicas de Lisboa no próprio ano da sua trágica morte a pilotar um avião que se despenhou no Tejo, afundando-se.

Apeles Espanca faleceu no dia 6 de junho de 1927 e 24 dias após a sua morte, em 30 de junho de 1927 a edilidade lisboeta deliberou atribuir o seu nome à Rua C do Bairro de Londres e assim foi fixado pelo Edital municipal de 7 de julho de 1927. A artéria escolhida atravessa a Avenida Santos Dumont, um pioneiro da aviação de nacionalidade brasileira que foi perpetuado em Lisboa ainda em vida, pelo Edital de 2 de abril de 1923. A artéria paralela à Rua Tenente Espanca, a Rua B do Bairro de Londres, veio a consagrar o 1º aviador civil português, 17 anos após a morte deste por despenhamento no Tejo, como  Rua Dom Luís de Noronha, pelo Edital de 1 de dezembro de 1930.

Freguesia das Avenidas Novas (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia das Avenidas Novas
(Foto: Sérgio Dias)

Apeles Demóstenes da Rocha Espanca (Vila Viçosa/10.03.1897 – 06.06.1927/Lisboa) frequentou o Liceu Nacional André Gouveia em Évora, onde no 1º centenário da Escola, em 1941, expuseram a sua pintura modernista. Fez os preparatórios para a Escola Naval em Coimbra e terminou o Curso da Escola Naval sendo então graduado Aspirante de Marinha em 19 de agosto de 1917. Alcançou o posto de 1º Tenente em 1926, ano em que navegou entre Portugal e o Brasil, bem como para o então Congo Belga (hoje, República Democrática do Congo). Em 1927 passou a frequentar o 2º curso de pilotagem do Centro de Aviação Naval de Lisboa com os Tenentes Aires de Sousa, Armando de Roboredo, Cardoso de Oliveira, Ferreira da Silva, Namorado Júnior e Paulo Viana.

Apeles Espanca foi também um pintor modernista, de óleos e aguarelas, cuja obra chegou a ser em parte publicada na revista Ilustração Portuguesa.

Morreu aos 30 anos, em 1927, quando  num num voo de treino para tirar o brevet de piloto-aviador, a bordo do hidroavião Hanriot 33, se despenhou no rio Tejo, afundando-se entre Porto Brandão e a Trafaria e sem nunca ter sido encontrado o seu corpo.

Florbela Espanca (também consagrada numa artéria lisboeta pelo Edital 19/07/1948) dedicou-lhe o livro Máscaras do Destino, que abre com o conto «O Aviador», escrito em fins de 1927 e publicado postumamente em 1931, bem como o soneto «In Memorian» , inserido em Charneca em Flor, também publicado em 1931:

In memoriam

Ao meu morto querido

Na cidade de Assis, “Il Poverello”
Santo, três vezes santo, andou pregando
Que o sol, a terra, a flor, o rocio brando,
Da pobreza o tristíssimo flagelo,

Tudo quanto há de vil, quanto há de belo,
Tudo era nosso irmão! — E assim sonhando,
Pelas estradas da Umbria foi forjando
Da cadeia do amor o maior elo!

“Olha o nosso irmão Sol, nossa irmã Água…”
Ah, Poverello! Em mim, essa lição
Perdeu-se como vela em mar de mágoa

Batida por furiosos vendavais!
Eu fui na vida a irmã dum só Irmão,
E já não sou a irmã de ninguém mais!

 

Freguesia das Avenidas Novas (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia das Avenidas Novas
(Planta: Sérgio Dias)

A Rua Actor João Rosa no Bairro dos Aliados

Freguesia do Areeiro (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia do Areeiro
(Foto: Sérgio Dias)

O ator João Rosa, foi o terceiro elemento de uma família ligada ao teatro a entrar na toponímia lisboeta, perpetuado na Rua nº 1 do Bairro dos Aliados ao Areeiro ou Quinta do Bacalhau, logo no início do ano de 1926, com a legenda «Artista dramático/ Século XIX».

Na sequência da deliberação camarária de 30 de dezembro de 1925 foi publicado o Edital municipal de 27 de janeiro de 1926 e João Rosa passou a integrar a toponímia de Lisboa, tal como o seu irmão  Augusto estava já consagrado  desde o Edital de 17/03/1924  na antiga Rua do Arco do Limoeiro, onde viveu e ainda antes, pelo edital de 18/11/1913, o pai de ambos, João Anastácio Rosa, na rua que ligava a Avenida Álvares Cabral com a Rua de São Bernardo.

Só seis anos mais tarde, o Edital de 31/03/1932 pegou nos arruamentos do projeto aprovado em sessão de 07/04/1928 para atribuir os topónimos que originariam o Bairro dos Atores, a saber, a Rua Actor Isidoro, a Rua Actriz Virgínia, a Rua Lucinda do Carmo, bem como a Rua Actor Epifânio e a Rua Rui Chianca (que nunca foi executada neste local) e ainda a Alameda Dom Afonso Henriques e a Avenida D. João I (também não executada).

Branco e Negro, 21 de junho de 1896

Branco e Negro, 21 de junho de 1896

Filho mais velho do ator João Anástacio Rosa, João Anastácio Rosa Junior (Lisboa/18.04. 1842 – 15.03.1910/Lisboa) apesar de ter frequentado o curso de Pintura da Academia de Belas Artes decidiu ser um ator e assim se estreou no Porto em 1862, ao lado do pai, na peça Jóias de Família de César de Lacerda. Em Lisboa, subiu ao palco pela primeira vez  no São Carlos em 1863, no espetáculo Ricardo III, no papel de Scroop. Com o seu irmão Augusto e Eduardo Brazão fundou a Companhia Rosas & Brazão que dirigiu o Teatro D. Maria II durante 18 anos e onde foi uma das principais figuras, começando a 31 de outubro de 1863, na peça Sabina Maupin . Em Lisboa apresentou-se ainda no Teatro do Ginásio (1872 – 1874), no Teatro da Trindade (de 1874 a 1875), no Teatro Variedades (em 1875), no Teatro do Príncipe Real (de 1875 a 1876), regressou ao D. Maria II (1876 a 1898) e finalmente, de 1898 a 1906, terminando aos 63 anos a interpretar A Ceia dos Cardeais de Júlio Dantas numa récita em benefício do irmão.

Foi ainda professor de Declamação no Conservatório Nacional, a partir do ano letivo de 1885/1886 e pelo menos até ao ano de 1891/1892, onde patenteou a sua vasta cultura e os seus profundos conhecimentos de teatro antigo e moderno.

Freguesia do Areeiro (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia do Areeiro
(Planta: Sérgio Dias)

A Rua do vassalo herói Egas Moniz no Bairro dos Aliados

Freguesia do Areeiro (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia do Areeiro
(Foto: Sérgio Dias)

Com a legenda «Notável e Leal Guerreiro/Século XII» foi Egas Moniz inscrito na Rua nº 2 do Bairro dos Aliados ao Areeiro ou Quinta do Bacalhau, por deliberação camarária de 30/12/1925  e Edital de 16 de janeiro de 1926.

O próprio Edital justifica a atribuição «(…)tendo em consideração que na formação da nacionalidade foram praticados por alguns portugueses actos de tanta grandeza moral, que são e continuarão a ser o legitimo orgulho da nossa raça; que entre todos se destaca, pela beleza do gesto, o acto praticado por Egas Moniz, indo junto do Rei de Leão oferecer a sua vida e da sua esposa e filhos, como resgate da promessa que o seu grande patriotismo não lhe deixava cumprir (…) e que o nome de tão grande vulto, esquecido nas paginas da Historia, bem merece ser exposto numa das arterias da cidade à admiração das gerações presentes e futuras(…)».

A Alameda Dom Afonso Henriques nascerá seis anos mais tarde, em 1932, nas proximidades da Rua Egas Moniz.

Freguesia do Areeiro - Placa Tipo II (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia do Areeiro – Placa Tipo II
(Foto: Sérgio Dias)

Egas Moniz de Riba Douro  (1080?-1146), rico-homem de uma das grandes famílias do Entre Douro e Minho, foi a quem Henrique de Borgonha confiou a educação do seu filho Afonso Henriques, que viria a ser o 1º Rei de Portugal.

Numa época em que os laços de parentesco e os laços de vassalagem faziam da fidelidade pessoal o mais sagrado princípio da vida social e política, eram importantes as histórias exemplares, como a de Egas Moniz enquanto modelo heróico do vassalo, que terá sido difundida provavelmente durante o reinado de D. Afonso III, porque nessa altura os monges de Paço de Sousa, onde estava o túmulo de Egas Moniz, mandaram fazer outra sepultura com novos baixos-relevos que já representavam a jornada do herói a Toledo para se oferecer como vítima ao imperador.

Segundo a lenda, quando em 1127 o rei de Leão, Afonso VII, veio cercar o seu primo D. Afonso Henriques na cidade de Guimarães, com forças muito superiores, reconheceram os cavaleiros portugueses que o seu rei não poderia resistir-lhe. Foram por isso ter com o rei de Leão, e pediram-lhe que levantasse o cerco, prometendo que D. Afonso Henriques lhe prestaria vassalagem e por essa promessa ficou responsável Egas Moniz. Como se sabe D. Afonso Henriques não cumpriu a promessa, nomeadamente invadindo a Galiza e saindo vitorioso, e voltando à lenda foi Egas Moniz  a Toledo, acompanhado pela sua esposa e seus dois filhos, todos com uma corda ao pescoço, oferecer as suas próprias vidas ao rei de Leão, o que fez com que Afonso VII lhe perdoasse.

Certo é que Egas Moniz casou por duas vezes, tendo tido 7 filhos e 2 filhas,  e cerca de 1135 sucedeu ao seu irmão Ermígio Moniz como mordomo-mor, o cargo mais importante junto do rei e ainda recebeu deste enormes doações em terra, ficando possuidor de 21 domínios e de cavaleiros vassalos ao seu serviço.

Freguesia do Areeiro (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia do Areeiro
(Planta: Sérgio Dias)

A Rua de Casimiro Freire, o mecenas das Escolas Móveis João de Deus, no Bairro dos Aliados

Freguesia do Areeiro (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia do Areeiro
(Foto: Sérgio Dias)

Casimiro Freire, o mecenas republicano que em 1882 fundou a  Associação de Escolas Móveis pelo Método de João de Deus, dá nome a uma rua do Bairro dos Aliados, com a legenda «Apóstolo da Instrução Popular/Século XIX», desde junho de 1926.

Casimiro Freire foi fixado na Rua nº 5 do Bairro dos Aliados à Rua Carvalho Araújo, nos terrenos do antigo Areeiro também conhecido como Quinta do Bacalhau, pela deliberação camarária de 12 de junho de 1926 e edital de dia 25 do mesmo mês. Pelo mesmo edital foi também homenageado, na Rua nº 4,  João de Menezes , um «Precursor do Regime Republicano/Século XIX».

Casimiro Freire (Sertã – Pedrogão Pequeno/08.10.1843 – 20.10.1918/Lisboa) era um comerciante e industrial cuja prosperidade o tornou num mecenas da alfabetização. Assim, publicou em 29 e 30 de março de 1881, no jornal O Século, um artigo intitulado «A instrução do povo e a monarquia», onde se insurgia contra a incúria dos governos monárquicos no combate ao analfabetismo e propunha que fossem enviados aos mais recônditos lugares de Portugal missões de alfabetização de professores habilitados que ensinassem a ler e a escrever. Numa época em que 80% da população portuguesa era iletrada, Casimiro Freire fundou em 18 de maio de 1882, com João de Deus, a Associação das Escolas Móveis pelo Método de João de Deus e em 1897 publicou também em folheto uma representação à Câmara dos Deputados intitulada A Instrução do Povo e o Método de João de Deus. Acompanharam-no nessa iniciativa personalidades, como João de Barros, Bernardino Machado, Jaime Magalhães Lima, Francisco Teixeira de Queiroz, Ana de Castro Osório e Homem Cristo, entre outros. Cedeu a João de Deus, um primeiro andar dos armazéns onde trabalhava, no Largo do Terreiro do Trigo, para ser a sede da Associação de Escolas Móveis pelo Método de João de Deus.

Mais tarde, em 1915, por decreto de 5 de junho do Ministro da Instrução Pública, Sebastião Magalhães Lima, foi encarregue da catalogação e organização do Museu Bibliográfico, Pedagógico e Artístico João de Deus, serviço que concluiu em 30 de junho de 1916. E por decreto de 23 de dezembro de 1916, também lhe foi destinada a guarda e conservação do museu até à sua instalação definitiva junto ao Jardim-Escola João de Deus, na Avenida Álvares Cabral.

Republicano desde 1862, foi em 1876 um dos fundadores do primeiro Centro Republicano com Oliveira Marreca e Sousa Brandão entre outros, e em 1899, a partir da comissão paroquial republicana da freguesia de Santa Isabel foi eleito para o diretório do Partido Republicano Português. Em 1884 foi eleito vereador por Lisboa, mas o apuramento na Câmara Municipal não lhe confirmou a votação mas já em 1911 foi o mais votado da Junta Consultiva do Partido Republicano. Colaborou também na imprensa republicana, nomeadamente no Democracia (1873) – jornal dirigido por Elias Garcia -, e no Vanguarda.

Casou com Maria Madalena Battaglia, sogra de João de Deus, no segundo casamento desta, e com ela residiu nº 20 C-1º da Rua das Gaivotas.

Freguesia do Areeiro (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia do Areeiro
(Planta: Sérgio Dias)