Ruas do Sol

Largo das Portas do Sol entre 1930 e 1939 (Foto: Eduardo Portugal, Arquivo Municipal de Lisboa)

Largo das Portas do Sol entre 1930 e 1939
(Foto: Eduardo Portugal, Arquivo Municipal de Lisboa)

O sol de Lisboa mostra na toponímia a importância dada à sua luz pelos habitantes da cidade, ao mesmo tempo que serviu de georreferenciação. Ainda hoje 7 artérias lisboetas exibem este astro no seu nome: o Largo das Portas do Sol, a Rua do Sol à Graça, o Beco do Forno do Sol, a Rua do Sol a Santana, a Rua do Sol a Santa Catarina  e ainda, a Rua do Sol a Chelas e a Rua do Sol ao Rato já antes por nós referidas.

Largo das Portas do Sol , na freguesia de Santa Maria Maior, na confluência do Largo de Santa Luzia e da Rua de São Tomé, é um topónimo de reminiscência medieval, de uma porta das muralhas da cidade, referindo a este propósito Norberto Araújo (Peregrinações em Lisboa, vol. II) na década de trinta do séc. XX: «Porta ou Postas do Sol! Cá temos o lanço da muralha, e uma tôrre ainda erguida, que bem se admira da banda de Alfama, e, em muito boa perspectiva, do interior do desprezado jardim da “Casa dos Arcos”, aqui na Adiça. Vale uma aguarela. Desta Porta vetusta da Cêrca Moura – nada mais há à vista. É gracioso êste Largo – Portas do Sol – do qual descem a Calçada de S. João da Praça, e o evocativo Beco de Santa Helena».

Sabe-se que D. Manuel I em 10 de novembro de 1510 ordenou ao concelho que inspecionasse as casas do cónego Simão,  na rua que vai de S. Tomé para as portas do Sol, para averiguar se prejudicavam a circulação da rua. Cento e quarenta anos depois, a Postura de 05/08/1650 sobre a proibição de venda em lugares públicos assinalava que o alcaide Bernardo Soares devia prender quem vendesse à entrada da porta do Sol, do lado de dentro e de fora.

Pormenor da planta de Filipe Folque de 1858 onde se inclui a Rua do Sol, a Santana

Pormenor da planta de Filipe Folque de 1858 onde se inclui a Rua do Sol, a Santana

A Rua do Sol a Santana e a Rua do Sol à Graça passaram a ter o acrescento da localização pelo edital do Governo Civil de 1 de setembro de 1859, já que entre 1836 e 1878 era este organismo que detinha a competência da denominação das ruas. Por este mesmo edital o Beco do Forno recebeu o acrescento «do Sol».

A Rua do Sol a Santana, na freguesia de Arroios, antes do Edital de 1859 já era mencionada como Rua do Sol ao Campo Santana, como  encontramos num prospeto de maio e junho de 1858 em que Maria Isabel Pires pretendia retificar o prédio com o n.º 25, bem como depois do Edital do Governo Civil, em que registamos numa planta municipal de 16 de novembro de 1892, da autoria de Augusto César dos Santos e Ressano Garcia, as obras a fazer na Rua do Sol ao Campo Santana.

A Rua do Sol à Graça, na freguesia de São Vicente, deriva do nome do local que por sua vez provém do antigo Convento de Nossa Senhora da Graça, ali começado a construir em 1271 e conhecido por Almofala, um pequeno arrabalde mourisco extramuros quando as tropas de D. Afonso Henriques aí acamparam durante o cerco de Lisboa.

A começar na Rua do Sol à Graça e a terminar na Vila Berta fica o Beco do Forno do Sol, também na freguesia de São Vicente. Depois de o Governo Civil de Lisboa lhe acrescentar «Sol» quis em 1868 Manuel Helário Pereira de Carvalho edificar um prédio nos nºs 5 e 7 desta serventia e também em 14 de dezembro de 1908, Joaquim Francisco Tojal recebeu a escritura de autorização para construção de um prédio com serventia pela Travessa da Pereira e Beco do Forno, espaço que corresponde à Vila Berta, propriedade do construtor Tojal.

Beco do Forno do Sol, à Rua dos Sol à Graça (Foto: Mário Marzagão)

Beco do Forno do Sol, à Rua dos Sol à Graça
(Foto: Mário Marzagão)

Já a Rua do Sol ao Rato e a Rua do Sol a Santa Catarina só conseguiram oficialmente o acrescento da localização na década de 50 do século XX, a partir de pareceres da Comissão Municipal de Toponímia, respetivamente, de 10/03/1950 e de 09/06/1952.

No entanto, a Rua do Sol a Santa Catarina (freguesia da Misericórdia), que vai da Travessa de Santa Catarina à Rua de João Brás, já assim devia ser conhecida como tal porque o prospeto de 25 de janeiro de 1859 do prédio que José Esteves Alves quis aumentar, nos n.º 66 e 67 desta serventia, já a denominava Rua do Sol a Santa Catarina. Pela documentação municipal sabemos ainda que em 1897 esta artéria foi sujeita a um alinhamento e obras no pavimento, de acordo com planta de  Augusto César dos Santos  e António Maria Avelar. Aliás, olhando para a foto abaixo, que no máximo limite temporal será de 1908, notamos que a placa toponímica tem inscrito Rua do Sol de Santa Catarina.

Rua do Sol a Santa Catarina entre 1898 e 1908 (Foto: Machado & Souza, Arquivo Municipal de Lisboa)

Rua do Sol a Santa Catarina entre 1898 e 1908
(Foto: Machado & Souza, Arquivo Municipal de Lisboa)

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2 thoughts on “Ruas do Sol

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