As Ruas Direitas

A Rua Direita da Ameixoeira em 1966 (Foto: João H. Goulart, Arquivo Municipal de Lisboa)

A Rua Direita da Ameixoeira em 1966
(Foto: João H. Goulart, Arquivo Municipal de Lisboa)

Rua Direita era uma designação comum usada para a rua principal de um lugar. E antes de Lisboa se expandir como cidade para os lugares vizinhos já lá existiam as antigas Ruas Direitas, de que hoje ainda sobrevivem quatro: a Rua Direita da Ameixoeira, a Rua Direita ao Lumiar, a Rua Direita de Palma e a Rua Direita de Marvila.

Já no séc. XV, um documento de 11 de setembro de 1420 elaborado pelo escrivão da Almotaçaria Pedro Anes, em nome de Gonçalo Vaz, informava que os almotaçés da cidade de Lisboa ordenavam a proibição de lançar águas sujas na Rua Direita, no caminho que vai desde o forno de Afonso Anes até à porta da Judiaria, assim como obrigavam os moradores da dita rua a mantê-la limpa, sob pena de pagamento de coimas.

Se consultarmos documentação municipal, como projetos de construção ou alteração de prédios, ainda no séc. XIX deparamos com o rasto de muitas ruas direitas: em 1838, a Rua Direita da Boavista; em 1845, a Rua Direita de São Lázaro, a Rua Direita do Loreto e a Rua Direita do Salitre; em 1846, a Rua Direita de São João dos Bem Casados (hoje, Rua Silva Carvalho); em 1847, a Rua Direita da Boa Morte (hoje, Rua do Possolo); em 1848, a Rua Direita de São Paulo; em 1851, a Rua Direita da Junqueira, a Rua Direita do Limoeiro e a Rua Direita de São Sebastião da Pedreira; em 1852, a Rua Direita da Esperança e em 1880, a Rua Direita de São Vicente.

Também a planta de Filipe Folque, produzida entre 1856 e 1858, indica ainda a Rua Direita do Arsenal, a Rua Direita das Escolas Gerais, a Rua Direita da Madre de Deus e a Rua Direita dos Quartéis.

Rua Direita ao Lumiar em 1961 (Foto: Arnaldo Madureira, Arquivo Municipal de Lisboa)

Rua Direita ao Lumiar em 1961
(Foto: Arnaldo Madureira, Arquivo Municipal de Lisboa)

Depois, pelo Edital municipal de 22/08/1881, foi retirada a palavra «direita» às artérias que hoje conhecemos como Rua dos Anjos, Rua de Arroios,  Rua da Costa, Rua das Janela Verdes, Rua da Lapa, Rua das Necessidades, Rua do Sacramento a Alcântara, Rua de Santos-o-Velho. Seguiu-se o  Edital municipal de 08/06/1889 que procedeu de igual forma para firmar a Rua do Açúcar, a Rua de Alcântara, a Rua do Beato, a Rua de Belém, a Rua do Cruzeiro, a Rua da Graça, a Rua do Grilo, a Rua do Lumiar, a Rua de Pedrouços, a Calçada de São Vicente, a Rua do Vale Formoso, a Rua de Xabregas, bem como a Rua do Bom Sucesso (hoje, Rua Bartolomeu Dias)  e a já extinta Rua de Chelas.

Nas que ainda hoje constam das placas toponímicas de Lisboa surge na freguesia de Santa Clara  a Rua Direita da Ameixoeira, entre a Calçada do Poço e o Largo do Terreiro, e que assim era denominada vulgarmente até ser oficializada na toponímia da cidade pelo Edital municipal de 16/06/1928. A Rua Direita da Ameixoeira foi sendo a via de ligação ao Lumiar e a Lisboa.

Na freguesia do Lumiar encontramos a Rua Direita ao Lumiar, que  já existia no séc. XVI como Rua Direita e assim surge na Planta Topográfica de Lisboa de 1907, de Júlio Silva Pinto e Alberto de Sá Correia. Em 1944, a Comissão Municipal de Toponímia procedeu a um levantamento de todos os topónimos em uso na cidade e decidiu que este arruamento se passasse a denominar Rua Direita ao Paço do Lumiar. Em 1950, a Comissão propôs novamente um indicador de localização : Rua Direita do Lumiar.

A Rua Direita de Palma em 1967 (Foto: Augusto de Jesus Fernandes, Arquivo Municipal de Lisboa)

A Rua Direita de Palma em 1967
(Foto: Augusto de Jesus Fernandes, Arquivo Municipal de Lisboa)

Na freguesia de São Domingos de Benfica temos a Rua Direita de Palma, junto ao Caminho de Palma de Cima, surgindo o  sítio de Palma já em 1208, associado a uma transacção de compra e venda de vinhas que eram abundantes no local. Os traços rurais só se foram perdendo com a instalação de primeiras fábricas no sítio de Palma de que se destaca a Sociedade Cerâmica de Palma,  em 1931, que pertenceu à Cerâmica Viúva Lamego e deixou de laborar em 1991.

Finalmente, na freguesia de Marvila está a Rua Direita de Marvila, a ligar a Rua Zófimo Pedroso à Rua Pereira Henriques, oficializada pelo Edital municipal de 21/08/1916.

Rua Direita de Marvila em 1966 (Foto: Augusto de Jesus Fernandes, Arquivo Municipal de Lisboa)

Rua Direita de Marvila em 1966
(Foto: Augusto de Jesus Fernandes, Arquivo Municipal de Lisboa)

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8 thoughts on “As Ruas Direitas

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  7. Rua Direita was a common name for the main road of a place. Prior to Lisbon’s expansion as a city into neighbouring places, there were old Ruas Direitas in those places, of which four have survived : Rua Direita da Ameixoeira, Rua Direita ao Lumiar, Rua Direita de Palma and Rua Direita de Marvila.

    As early as the 15th century, a document drawn up by the Tax Office scribe Pedro Anes, on behalf of Gonçalo Vaz on the 11th of September 1420, says that the officials of the city of Lisbon prohibit the throwing of dirty water into the Rua Direita, which went from the oven of Afonoso Anes to the gate of the Jewish quarter; they also obliged the residents of the said street to keep it clean, under penalty of fines.

    When we look at municipal documents eg plans to build, or for alterations to buildings, even in the 19th century we still come across many Ruas Direitas: in 1838, Rua Direita da Boavista; in 1845, Rua Direita de São Lázaro, Rua Direita do Loreto and Rua Direita do Salitre; in 1846, Rua Direita de São João dos Bem Casados (today, Rua Silva Carvalho); in 1847, Rua Direita da Boa Morte (today, Rua do Possolo); in1848, Rua Direita de São Paulo; in 1851, Rua Direita da Junqueira, Rua Direita do Limoeiro and Rua Direita de São Sebastião da Pedreira; in 1852, Rua Direita da Esperança and in 1880, Rua Direita de São Vicente.

    The Filipe Folque map, produced between 1856 and 1858, also has Rua Direita do Arsenal, Rua Direita das Escolas Gerais, Rua Direita da Madre de Deus and Rua Direita dos Quartéis.

    Later, the city council Notice of 22/08/1881 removed the word «direita» from the roads we know today as Rua dos Anjos, Rua de Arroios,  Rua da Costa, Rua das Janela Verdes, Rua da Lapa, Rua das Necessidades, Rua do Sacramento a Alcântara, Rua de Santos-o-Velho. This was followed by the Notice of 08/06/1889, which proceeded in the same way to confirm the removal of the word «direita» from Rua do Açúcar, Rua de Alcântara, Rua do Beato, Rua de Belém, Rua do Cruzeiro, Rua da Graça, Rua do Grilo, Rua do Lumiar, Rua de Pedrouços, Calçada de São Vicente, Rua do Vale Formoso, Rua de Xabregas, as well as Rua do Bom Sucesso (today, Rua Bartolomeu Dias) and the now extinct Rua de Chelas.

    The ones that are still recorded today in street name signs are:

    In the freguesia of Santa Clara, Rua Direita da Ameixoeira, between Calçada do Poço and Largo do Terreiro. This is what it was commonly called, and then it was officialized as a city street name via the city council Notice of 16/06/1928. Rua Direita da Ameixoeira was the road that went to Lumiar and to Lisbon.

    In the freguesia of Lumiar we find Rua Direita ao Lumiar, which was a Rua Direita in the 16th century and appears as such on the 1907 Topographical Map of Lisbon, made by Júlio Silva Pinto e Alberto de Sá Correia. In 1944, the Municipal Commission for Toponymy carried out an inventory of all the street names in use in the city and decided that this street should be changed to Rua Direita ao Paço do Lumiar. In 1950, the Comission made a new suggestion for a label with a location aspect: Rua Direita do Lumiar.

    In the freguesia of São Domingos de Benfica there is Rua Direita de Palma, next to Caminho de Palma de Cima. This area name of Palma occurs as early as 1208, linked with a transaction – the buying and selling of vineyards, which were abundant there. The rural character was only lost with the arrival of the first factories in the Palma area, chief among them being the Sociedade Cerâmica de Palma, which arrived in 1931 and belonged to Cerâmica Viúva Lamego; it ceased in 1991.

    Finally, there is Rua Direita de Marvila in the freguesia of Marvila, which links Rua Zófimo Pedroso to Rua Pereira Henriques and was officialized by the Notice of 21/08/1916.

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