A Rua da primeira violoncelista a solo, Guilhermina Suggia

Freguesia de Alvalade (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de Alvalade
(Foto: Sérgio Dias)

Cinco anos após o seu falecimento, Guilhermina Suggia, a primeira mulher a fazer carreira de violoncelista a solo, entrou na toponímia alfacinha pelo Edital de 20/10/1955, na anteriormente designada Rua 59 do sítio de Alvalade,por sugestão do Vice-Presidente da Câmara, Luís Pastor de Macedo.

Pelo mesmo Edital foram também fixados nas proximidades mais figuras ligadas à música: os cantores líricos e irmãos António e Francisco Andrade ( Ruas 57 e 58),  o barítono Dom Francisco de Sousa Coutinho (Rua 56) e o mestre das filarmónicas portuguesas Rodrigues Cordeiro (Praceta III da Rua 59 ou Praceta à Rua 58).

Revista Contemporânea, março de 1925

Revista Contemporânea, março de 1925

Guilhermina Augusta Xavier de Medim Suggia (Porto/27.06.1885 – 30.07.1950/Porto) foi uma violoncelista que desde cedo fez uma carreira internacional absolutamente extraordinária que além de grande reconhecimento lhe granjeou discípulas como Thelma Reiss ou Raya Garbousova.

Iniciou-se na música pela mão de seu pai e professor de violoncelo, Augusto Suggia, que depressa reconheceu o seu imenso talento. A sua primeira aparição pública verificou-se em Matosinhos quando tinha 7 anos de idade. Guilhermina ao violoncelo e Virgínia, a sua irmã mais velha, ao piano, eram convidadas para atuar no meio cultural portuense. Com apenas 13 anos, Guilhermina era violoncelista principal da Orquestra do Orpheon do Porto, tocando também com o quarteto de cordas Bernardo Moreira de Sá. Aos 14 anos, com a sua irmã,  em 27 de março de 1901, tocaram para a família real no Palácio das Necessidades  e  Guilhermina Suggia obteve uma bolsa de estudo concedida pela Rainha D. Amélia, para ingressar no Conservatório de Leipzig, então a mais conceituada escola de música, onde teve como professor Julius Klengel (1859-1933).

Em 26 de fevereiro de 1903, tinha Guilhermina aos 17 anos, tocou no concerto comemorativo do aniversário da orquestra Gewandhaus e nunca um intérprete tão jovem havia atuado com a orquestra, muito menos como solista e menos ainda sendo do sexo feminino. E a partir daqui foi acolhida nas salas de concerto pela Europa fora, na Suíça, Haia, Bremen, Amesterdão, Paris, Praga, Viena, Berlim, Rússia ou Roménia, ganhando até o epíteto de Paganina.

Quando Guilhermina Suggia tinha 21 anos, ressoou na sua vida e durante 7 anos, o catalão Pablo Casals (1876-1973) e assim formaram o casal de violoncelistas mais talentoso e famoso que enchia páginas de jornais, a ponto do compositor húngaro Emánuel Moór  lhes dedicar o Concerto para dois violoncelos (1908). Vivem em Paris, na Villa Molitor, e acolhem serões com pintores, músicos, filósofos e escritores. Guilhermina já aos 13 anos havia tido lições com ele,  no verão de 1898, quando este havia sido contratado para tocar nas noites do Casino de Espinho, carregando no comboio do Porto para Espinho o seu violoncelo.

Em 1914 Guilhermina muda-se para Londres e executa todos os importantes concertos da época para violoncelo e orquestra: de Haydn, Elgar, Saint-Saëns, Schumann, Eugène d’Albert e Dvořak. Passados 13 anos,  casa com o médico José Casimiro Carteado Mena (1876 – 1949), a 27 de agosto de 1927  e regressa de vez ao Porto, tocando mais em Portugal, sobretudo no decorrer da II Guerra Mundial. No final dos anos 40, encontra-se com a diretora do Conservatório de Música do Porto, Maria Adelaide de Freitas Gonçalves, e formam a Orquestra Sinfónica do Conservatório, integrando alunos finalistas dessa escola, e Suggia foi solista no concerto de apresentação da Orquestra, na noite de 21 de junho de 1948, no Teatro Rivoli. Em 1949 e já doente, Suggia  ainda cria o Trio do Porto, constituído por ela, pelo violinista Henri Mouton e pelo violetista François Broos, tocando no Porto, em Lisboa, Aveiro, Viana do Castelo, Braga e Viseu. O seu último recital aconteceu em 31 de maio de 1950, no Teatro Aveirense, para os sócios do Círculo de Cultura Musical de Aveiro, acompanhada ao piano por Maria Adelaide de Freitas Gonçalves. Em junho desse mesmo ano foi sujeita a uma cirurgia numa clínica em Londres, recebendo até  um bilhete de melhoras e flores do rei inglês Jorge VI e regressou ao Porto onde veio a falecer em casa, deixando-nos poucas gravações.

Por disposição testamentária, dois dos vários violoncelos de Guilhermina Suggia – o Stradivarius (de 1717) e o Montagnana (provavelmente de 1700 e hoje na posse da Câmara Municipal do Porto) – serviram com a sua venda para instituir o Prémio anual Suggia, para os melhores alunos de violoncelo da Royal Academy of Music de Londres (desde 1951) e do Curso Superior de Violoncelo do Conservatório de Música do Porto (desde 1953), para incentivar os violoncelistas com perfil de intérpretes a solo a dedicarem-se a um período especial de pós-graduação.

Guilhermina foi distinguida com a Medalha de Ouro da Cidade do Porto (1938), como Comendadora da Ordem de Santiago da Espada (05/10/1937), honra raras vezes concedida a mulheres, e como Grande Oficial da Ordem de Cristo (02/02/1944).

Freguesia de Alvalade (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia de Alvalade
(Planta: Sérgio Dias)

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