O fado de Marceneiro ou Ti Alfredo numa rua de Marvila

Freguesia de Marvila (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de Marvila
(Foto: Sérgio Dias)

Cerca de um mês e meio após o seu falecimento, o considerado Rei do Fado, Alfredo Marceneiro, foi inscrito como Alfredo Duarte (Marceneiro) na Rua J5 da Zona J de Chelas, por  Edital municipal de 12/08/1982, a partir de uma sugestão do cidadão Manuel Gonçalves Rosa endereçada à edilidade, sendo a primeira vez que o Fado se fixou na toponímia de Lisboa.

O fadista alfacinha Alfredo Rodrigo Duarte (Lisboa/29.02.1888 – 26.06.1982/Lisboa), o primeiro filho do casal Gertrudes da Conceição e Rodrigo Duarte, nascido na Travessa de Santa Quitéria, que ficou mais conhecido como Alfredo Marceneiro ou Ti Alfredo para os amigos, trabalhou como aprendiz de encadernador logo aos  13 anos, após o falecimento do seu pai, numa oficina da Rua da Trindade. Nas cegadas de rua conheceu Júlio Janota que era marceneiro e lhe arranjou lugar como seu aprendiz numa oficina em Campo de Ourique, de onde transitou para as oficinas de Diamantino Tojal na Vila Berta e depois para as Construções Navais no Arsenal do Alfeite, tendo Alfredo apenas deixado a profissão em 1946, para se tornar profissional do fado em exclusivo,  conservando porém em casa o banco de marceneiro e as ferramentas com que se entretinha a fazer trabalhos, um dos quais, A Casa da Mariquinhas,  inspirado na letra de Silva Tavares, e que está exposta no Museu do Fado.

Paralelamente, era cantador em festas de beneficência e em verbenas, entre os 14 e aos 17 anos. Depois começou a cantar em festas de solidariedade e nos retiros do Caliça e do Bacalhau em Benfica, José dos Pacatos na Estrada de Sacavém, Cachamorra ao Campo Grande, Baralisa e Romualdo, mas foi no 14 do Largo do Rato que se tornou mais conhecido, não dispensando a forma aprumada de vestir com gravata ou laço, sendo  por isso conhecido como Alfredo Lulu. Em 1924, participou num Concurso de Fados do Sul-América, na Rua da Palma e  ganhou a Medalha de Ouro. Nesse mesmo ano cantou durante dois meses no Chiado Terrasse para animar as noites de cinema. Só em 1930, por ocasião de uma festa no Club Montanha (no nº57 da Rua da Glória), seria lançado com o nome artístico de Alfredo Marceneiro, lançando a moda de cantar de pé e à luz das velas que ele próprio cantou no poema de Armando Neves:

Orgulho-me de ser em toda a parte
Português e fadista verdadeiro,
Eu que me chamo Alfredo, mas Duarte
Sou para toda a gente o Marceneiro

Ao longo da sua vasta carreira, em que se torna um dos fadistas maiores por dividir os versos cantados de forma a não permitir que as pausas musicais interrompessem o sentido das orações, Marceneiro que acabou por tornar o lenço de seda ao pescoço e as mãos nos bolsos a sua imagem de marca, exibiu-se em casas como o Nova Sintra (Calçada de Carriche), o Ferro de Engomar (na Estrada de Benfica), o Clube Olímpia, onde esteve com Armandinho, a Boémia (na Rua dos Correeiros no troço que foi conhecido como Travessa da Palha),  a Viela (na Rua das Taipas), o Solar da Alegria (Praça da Alegria, 56), a Márcia Condessa (Praça da Alegria, 38), o Júlio das Farturas no Parque Mayer,  A Parreirinha de Alfama (Beco do Espírito Santo),  A Cesária  e O Timpanas (Rua Gilberto Rola),  o Retiro da Severa (Rua António Maria Cardoso), o Café Mondego, A Severa (Rua das Gáveas), o Faia (Rua da Barroca), a Adega Machado e A Tipóia (Rua do Norte), a Adega Mesquita (Rua Diário de Notícias),  ou o Solar da Hermínia ( Rua da Misericórdia).  Chega mesmo a ter a sua própria casa no final da década de 1940, o Solar do Marceneiro, ao fundo da Calçada de Carriche, sem nunca se cingir apenas a cantar diariamente nesse espaço, sendo mesmo consagrado Rei do Fado no Café Luso ( Travessa da Queimada), a 3 de janeiro de 1948.

Gravou o primeiro disco em 1930 para a Casa Cardoso e passou depois a a ser artista privativo da Valentim de Carvalho, onde lançou 4 LP’s e 3 EP’s.  O seu estilo ficou vincado na Marcha do Alfredo Marceneiro, como em A minha freguesiaAmor de Mãe, Bêbado Pintor, Cabecita Louca, É tão bom ser pequenino,  Fado BailadoFado Balada, Fado Cravo, Fado CUF, Fado Laranjeira, Fado Pierrot, Foi na Velha Mouraria, O Pagem, Há Festa na Mouraria,  IroniaLembro-me de ti, Mocita dos Caracóis, Mouraria, Quadras SoltasSenhora do Monte.

Alfredo Marceneiro cantou também no Teatro, subindo ao palco do Coliseu dos Recreios, em 1930, na opereta História do Fado, com Beatriz Costa e Vasco Santana e passou depois também pelas tábuas do São Luiz, do Avenida, do Apolo, do Éden – Teatro, do Capitólio, do Politeama, ou do Maria Vitória. Para o cinema, gravou em 1939, atuações com Berta Cardoso, no Teatro Variedades e no Retiro do Colete Encarnado, para o filme  Feitiço do Império de António Lopes Ribeiro (que esteve em exibição de 1940 a 1952). Para a  televisão, o fadista também só apareceu esporadicamente: uma reportagem em 1969,  um programa gravado para  a RTP em 1979 e editado 28 anos depois em DVD.

A 25 de maio de 1963, realizou-se  no Teatro S. Luiz A Madrugada do Fado – Consagração e despedida do Grande Artista Alfredo Duarte Marceneiro e todavia, Alfredo Marceneiro continuou a cantar durante quase mais duas décadas. Em junho de 1980 foi homenageado no Teatro de S. Luiz  pela Câmara Municipal de Lisboa, recebendo a Medalha de Ouro da Cidade. A título póstumo, foi agraciado com o grau de Oficial da Ordem do Infante D. Henrique (1984) e em  1991, no centenário do seu nascimento, foi lançado o duplo álbum O melhor de Alfredo Marceneiro e foi exibido na RTP o documentário Alfredo Marceneiro é só Fado.

Alfredo Marceneiro passou os últimos anos da sua vida na que foi a sua casa desde novo, no nº2 do pátio da Rua da Páscoa, nº 49.

Freguesia de Marvila (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia de Marvila
(Planta: Sérgio Dias)

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