A Rua do criador do Fado Armandinho

Freguesia de Marvila (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de Marvila
(Foto: Sérgio Dias)

Armando Freire, guitarrista de fado e criador do Fado Armandinho, que Artur Paredes muito considerava usando para isso a imagem de que era uma renda tudo o que ele tocava, está desde 2005 presente na toponímia de Lisboa a partir de uma proposta de Appio Sottomayor, enquanto membro da Comissão Municipal de Toponímia de Lisboa.

A proposta de Appio Sottomayor foi aprovada por unanimidade na reunião da Comissão Municipal de Toponímia de 2 de maio de 2005, tendo ainda a Comissão emitido parecer de que a homenagem se estendesse aos fadistas Fernando Farinha e Fernando Maurício, e assim estas propostas foram aprovadas em sessão de câmara de 20 de maio de onde resultou o consequente Edital municipal de 01/08/2005 que fixou a Rua Armandinho na   Via 2 à Rua do Vale Formoso de Cima, junto com a Rua Fernando Farinha (Via 5 à Via 3 à Rua do Vale Formoso de Cima)  e a Rua Fernando Maurício (Via 3 à Rua do Vale Formoso de Cima), todos próximos e todos na freguesia de Marvila onde já estava colocado o primeiro fadista a aparecer na toponímia de Lisboa: Alfredo Duarte (Marceneiro).

armandinho_0001-2Armandinho tinha como nome de registo civil Armando Augusto Salgado Freire (Lisboa/11.10.1891-21.12.1946/Lisboa)  e nasceu no Pátio do Quintalinho junto à Rua das Escolas Gerais, tendo-se distinguido como excelente executante da guitarra portuguesa, criador de estilos e compositor de fados que se tornaram imortais tais como o Fado Armandinho (a sua primeira composição, de 1910), o Fado do Bacalhau (para teatro de revista), o Fado do Cívico (para a  revista Torre de Babel em 1917), o Fado Conde da Anadia, o Fado Estoril, o Fado Fontalva, o Fado Peniche (que se tornou um hino para os que aí estavam presos), o Fado Mayer ou o Fado São Miguel (composto nos Açores no Natal de 1933), entre muitos outros. Armandinho fez a ponte entre duas eras do Fado: a do séc. XIX de conotação marginal e trágica e a do séc. XX de grande popularidade do género.

Em 1914, já Armandinho tocava de ouvido e tornou-se discípulo do célebre Luís Petrolino após o que se estreou como guitarrista profissional no Olímpia Club, na Rua dos Condes, embora tenha mantido em paralelo outros trabalhos  como sapateiro, operário da Companhia Nacional de Fósforos, servente do Casão Militar ou fiscal do Mercado da Ribeira.

O seu estilo fez escola e nela se filiaram outros grandes nomes como Carvalhinho, Fontes Rocha, Jaime Santos, José António Sabrosa, José Marques Piscalareta,  José Nunes, Raúl Nery ou Salvador Freire. As suas interpretações na guitarra tinham tal força que inspiraram ao poeta Silva Tavares as seguintes quadras:

A guitarra – alma da raça,
Amante do meu carinho,
Tem mais perfume e desgraça
Nas mãos do nosso Armandinho.
Benditos os dedos seus
Que arrancam assim gemidos
Tal como se a voz de Deus
Falasse aos nossos ouvidos.

Armandinho, considerado génio da guitarra portuguesa pelo seu dedilhar exímio, acompanhou inúmeras vozes fadistas das décadas de vinte e trinta do séc. XX, quer em palcos, quer em casas de fado como o Solar da Alegria ou o Café Luso, quer em gravações discográficas, como Adelina Ramos, Alberto Costa,  Ângela Pinto, Berta Cardoso, Madalena de Melo, Maria do Carmo Torres, Maria Vitória ou a Santa do Fado Ercília Costa.  Foi dos primeiros a realizar digressões artísticas fora de Portugal nos anos 20 do séc. XX e percorreu também  casas particulares, como as da Família Burnay, Fontalva ou Castelo Melhor.

Em 1926, Armandinho fez a primeira gravação em Portugal em microfone de bobine eléctrica móvel, tendo gravado 6 composições. E dois anos depois, gravou um conjunto de Fados, variações em tons diferentes e uma marcha, no Teatro São Luiz, para um 78 rpm. Refira-se ainda que Armandinho foi em 1927  um dos membros fundadores da Sociedade de Escritores e Compositores Teatrais Portugueses, onde procedeu à  recolha de muitas melodias de Fado indexadas pelos seus autores o que permite nos nossos dias termos acesso a essas melodias. Em 1930, Armandinho também abriu o seu próprio espaço no Parque Mayer, o Salão Artístico de Fados, onde tocou durante alguns anos.

Armandinho faleceu na sua casa, na Travessa das Flores, junto ao Campo de Santa Clara, tendo o  jornal Guitarra de Portugal feito capa do sucedido sob a ideia do Fado de luto.

Freguesia de Marvila (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia de Marvila
(Planta: Sérgio Dias)

Anúncios

4 thoughts on “A Rua do criador do Fado Armandinho

  1. Pingback: A Rua do guitarrista Jaime Santos das unhas postiças | Toponímia de Lisboa

  2. Pingback: O Fado na toponímia de Lisboa | Toponímia de Lisboa

  3. Pingback: O Fado e a Rua do Capelão | Toponímia de Lisboa

  4. Pingback: O Largo Associação Ester Janz em Marvila | Toponímia de Lisboa

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s