Francisco Grandela: Vida(s) que habita(m) num topónimo

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Em jeito de resposta ao desafio proposto pelas 8as Jornadas de Toponímia diríamos que Francisco de Almeida Grandela desenhou, de facto, uma nova geografia na cidade. Com a abertura, em 1879, do estabelecimento “Fazendas Baratas” na rua da Prata terá ajudado a reforçar a centralidade da Baixa, mas mais do que isso! Grandela criou uma nova fórmula de fazer comércio, e esse sucesso no mundo dos negócios conduziu-o a uma ascensão apoteótica que culmina com a abertura dos “Armazéns Grandella” em 1907.

E se é verdade que a partir daí a Baixa e o Chiado ficaram indelevelmente ligados, exponenciando assim essa (nova) centralidade, física, por um lado, mas simultaneamente simbólica – pois que os Armazéns passaram a fazer parte do imaginário (vivencial ou aspiracional) coletivo –, não é menos verdade que este homem, nascido em Aveiras de Cima, tenha inaugurado também na freguesia de São Domingos de Benfica, nomeadamente naquela que era a Quinta dos Loureiros, uma nova paisagem. A construção do bairro Grandela, na primeira década do século XX, assentou, em grande medida, nas teorias higienistas que então vigoravam, sendo a França, com barão Haussmann, o grande referencial. Este bairro operário, à semelhança das muitas vilas que iam nascendo em Lisboa com o mesmo propósito, quis desde logo ser um contributo na problemática do alojamento, que tendia a escassear na medida em que a urbe se industrializava. Estamos em crer que as palavras de Marx1 – “apesar de os homens fazerem a sua própria história, todavia não a fazem segundo a sua livre vontade; não a fazem sob circunstâncias de sua escolha e sim sob aquelas com que se defrontam diretamente, legadas e transmitidas pelo passado” – se terão inspirado em homens como Grandela. Um republicano convicto, que adotou a divisa “Sempre por bom caminho e segue!”. Uma personalidade poliédrica que deixou o seu nome cunhado nos anais da história urbana de Lisboa.

Será, então, com especial enfoque na (re)visitação desse micro território que faz parte da Estrada de Benfica, e que acabou por inaugurar contraste naquela que era a paisagem bucólica das quintas e jardins que caracterizavam esse sítio, que nos propomos resgatar esse tempo e esse homem. Tomámos por base a matriz dicotómica esquecer/recordar, donde Connerton foi a nossa inspiração maior, para ir ao encontro da geografia física e humana que este topónimo encerra. Ou não tivesse Francisco de Almeida Grandela feito da vontade obra e da obra cidade!

Jorge Luís

Judite Reis

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1 MARX, Karl. O 18 de Brumário de Louis Bonaparte. São Paulo: Boitempo, 2014 [1852].

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