Os últimos topónimos atribuídos em 1916

Freguesias de Arroios e Penha de França (Planta: Sérgio Dias)

Freguesias de Arroios e Penha de França
(Planta: Sérgio Dias)

O último Edital municipal de toponímia de 1916 foi publicado no dia 27 de novembro e incluiu 6 topónimos: dois relacionados com o topónimo Penha de França em dois locais distintos da cidade, três de conselheiros já sediados em Arroios aos quais foi retirado esse título,  e um referente a heróis da I Guerra Mundial numa artéria repartida entre a Penha de França e Arroios.

De acordo com as deliberações da sessão de câmara de 23/11/1916, o vereador Manuel Joaquim dos Santos apresentou uma solicitação da Junta de Freguesia de Arroios para que fossem alterados alguns topónimos de forma a «que se instaure um processo de expropriação de uma parcela de terreno na quinta do Fole à estrada da Penha de França e se passe a dar denominação de rua da Penha de França, à rua da Penha de França (á Escola Politecnica) a de calçada da Penha de França, á rua Conselheiro Carrilho a de Antonio Pereira Carrilho, à rua Conselheiro Monteverde a de rua Achiles Monteverde, à Rua Conselheiro Morais Soares, a de rua Morais Soares, e á do Caracol da Penha, a de rua dos Herois do Kionga», o que foi aprovado por unanimidade.

Assim, a Estrada da Penha de França passou a Rua da Penha de França  e importa esclarecer a origem do topónimo Penha de França neste local. António Simões, um escultor de imagens sacras ou imaginário, como se dizia na sua época, encontrando-se perdido em Alcácer Quibir fez promessa de que se voltasse a Portugal fabricaria várias imagens de Nossa Senhora e lhes daria um destino condigno. De regresso,  chamou Senhora da Penha de França (uma invocação de um santuário de Salamanca) à última imagem que produziu  e esta foi inicialmente colocada na Igreja da Vitória da Baixa lisboeta até o escultor ter erguido uma Ermida,  no Monte Alperche, em terrenos de Afonso Torres de Magalhães, onde a dita imagem de Nossa Senhora da Penha de França se acolheu em 1597, apesar da Ermida ter ficado concluída apenas no ano seguinte. Passados seis anos, em 1604, começou a construir-se no local uma nova Igreja, maior e com Casa Conventual, concluída em 1635 e que acabou por estender o nome da Senhora da Penha de França a todo o sítio, até chegar a ser também o da própria freguesia.

Pormenor da planta de Filipe Folque de 1857 (Arquivo Municipal de Lisboa)

Pormenor da planta de Filipe Folque de 1857
(Arquivo Municipal de Lisboa)

Ora já existia uma Rua da Penha de França nas proximidades da Rua da Escola Politécnica,  o que causaria equívocos caso existissem duas na cidade pelo que foi aprovado que esta passasse a designar-se como Calçada da Penha de França em 1916, embora de seguida tenha sido a Calçada João do Rio e hoje a encontremos como Calçada Engº Miguel Pais (desde a publicação do Edital municipal de 23/12/1948). Nesta artéria, quando ainda era designada como Rua da Penha de França, nasceu Maria Matos em 1886.

Já António Pereira Carrilho, Aquiles Monteverde e Morais Soares ficaram sem o título de conselheiro no enunciado dos topónimos, trocado que foi pelos seus próprios nomes, uma vez que na  I República era característico eliminar da toponímia referências à monarquia e o título de conselheiro era atribuído pelo soberano, tradicionalmente aos magistrados do Supremo Tribunal, mas também concedido a quem tivesse prestado serviços honrosos ao país.

Antonio Pereira Carrilho, Diário Ilustrad, 19 de março de 1880

António Pereira Carrilho, Diário Ilustrado, 19 de março de 1880

António Pereira Carrilho, a cujo topónimo acresceu mais tarde a legenda «Notável Economista e Jornalista/1835 – 1903 » por parecer da Comissão Municipal de Toponímia de 03/03/1960, antes de ser Rua do Conselheiro Pereira Carrilho era um troço da antiga Estrada de Circunvalação. O homenageado é António Maria Pereira Carrilho (Lisboa/10.10.1835 – 16.11.1903/Paris) que se notabilizou como Diretor Geral da Contabilidade Pública e Secretário Geral do Ministério da Fazenda, responsável por elaborar o Orçamento Geral do Estado ao serviço de diversos Governos e os explicar na Câmara dos Deputados. Carrilho desempenhou também a função de Presidente do Conselho de Administração da Real Companhia dos Caminhos-de-Ferro e também foi recompensado com a Grã-Cruz da Ordem de Cristo. Fundou ainda O Economista em 1880 e colaborou com os jornais Diário Mercantil do Porto, Gazeta do Povo, Opinião O Progressista. Esta figura do rotativismo liberal foi ainda diversas vezes deputado a partir de 1875 e par do reino em 1902 e 1903.

aquiles-monteverde-livroAquiles Monteverde, cujo topónimo recebeu mais tarde a legenda «Escritor Didáctico e Diplomata/ 1803 – 1881» por parecer da Comissão Municipal de Toponímia de 19/04/1960, antes de ser Rua do Conselheiro Monteverde (Edital de 14/02/1882) era a Travessa Cruz do Tabuado. Perpetua o nome de Emílio Aquiles Monteverde (Lisboa/09.06.1803 – 07.01.1881/Lisboa), funcionário público desde que em 1821 começou como adido à legação portuguesa de Madrid, tendo chegado a secretário geral do Ministério dos Negócios Estrangeiros em 1869 e antes, em 1850 foi galardoado com o título de conselheiro, a comenda da Ordem de Cristo e a de Cavaleiro da Torre e Espada. Foi também o autor Manual Enciclopédico para uso das Escola de Instrução Primária, no último quartel do séc. XIX, aprovado pela Junta Consultiva de Instrução Pública, sendo cada edição de dezenas e centenas de milhares de exemplares.

Finalmente, sobre a Rua Morais Soares e a Rua dos Heróis de Quionga, basta aqui carregar nos seus nomes sublinhados para ser dirigido para os artigos que já publicámos sobre eles.

O Largo das Cinco Palmeiras de 1916

Freguesia do lá vai um (Foto: Sérgio Dias)

Freguesias de Arroios e de Santo António
(Foto: Sérgio Dias)

O Largo das Palmeiras, na confluência  do Rua do Andaluz, Rua Luciano Cordeiro e Rua Sousa Martins nasceu através do Edital de 18 de novembro de 1916, por uma razão de serviço público, servindo de inspiração para o topónimo a presença de palmeiras no local.

Na reunião de câmara de 16 de novembro de 1916 foi analisada uma sugestão do Serviço da Polícia Municipal para que se denominasse Praça da Palmeira a «um largo não muito grande», entre as Ruas Sousa Martins, Andaluz e Luciano Cordeiro, resultante da reconstrução de propriedades cujas  frentes principais ficavam agora voltadas para aquela via pública, pelo que necessitavam de morada e numeração de polícia. Tornava-se assim necessário atribuir um topónimo ao local e como «constava, ia ser aformoseado levando ao centro uma placa com uma palmeira» estava encontrada a solução para a nomenclatura. O vereador Manuel Joaquim dos Santos precisou que iriam ser colocadas 5 palmeiras e a Comissão Executiva municipal decidiu por unanimidade atribuir a denominação de Largo das Palmeiras, conforme de seguida fez publicar em Edital.

Freguesia do lá vai um (Planta: Sérgio Dias)

Freguesias de Arroios e de Santo António
(Planta: Sérgio Dias)

O Largo da Cantina Escolar de São Miguel

O Largo da Cantinar Escolar (Foto: Artur Pastor, sem data, Arquivo Municipal de Lisboa)

O Largo da Cantina Escolar
(Foto: Artur Pastor, data anterior a 1963, Arquivo Municipal de Lisboa)

De 27 de outubro de 1916 até 25 de janeiro de 1963 existiu em Alfama o Largo da Cantina Escolar, em homenagem à Cantina Escolar de São Miguel, ali fundada em 1909, no nº 10.

Pela ata da reunião de câmara de 26 de outubro de 1916 sabemos que este topónimo resultou de um pedido da «junta de paroquia de S. Miguel, de 25 do corrente mês» solicitando que o Beco de Alegrete se denominasse Largo da Cantina Escolar e que o vereador Manuel Joaquim dos Santos propôs que fosse deferido. O Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Levy Marques da Costa, manifestou a sua aprovação desde que o letreiro toponímico tivesse na última linha «antigo beco do Alegrete» e assim foi aprovada por unanimidade de todos os vereadores.

Mas este Beco do Alegrete e depois Largo da Cantina Escolar, em Alfama, acabou por em 1963 engrossar o caudal de topónimos dedicados a São Miguel na zona, passando por  Edital municipal de 25 de janeiro a denominar-se como Escadinhas de São Miguel. Já ali existia a Rua de São Miguel, uma típica rua Direita medieval. Em 1894, por obra do Edital Municipal de 9 de julho  somaram-se o Beco e a Travessa de São Miguel, sendo o primeiro para substituir a denominação de Beco dos Mortos e a Travessa para não se repetir Beco de São Miguel.

Planta municipal de Lisboa de 1950, vendo-se por baixo, a castanho, os nomes de hoje

Planta municipal de Lisboa de 1950, vendo-se por baixo, a castanho, os nomes de hoje

As 56 artérias da Ajuda oficializadas em 1916

Freguesia da Ajuda - Placa Tipo II (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia da Ajuda – Placa Tipo II
(Foto: Sérgio Dias)

A freguesia da Ajuda foi instituída em 1551 mas só em 1762 passou a fazer parte do Concelho de Lisboa. Contudo, de 1852 a 1885 integrou o Concelho de Belém, pelo que houve necessidade de oficializar em Lisboa 56 artérias da Ajuda pelo Edital municipal de 26 de setembro de 1916.

A pedido da Junta de  Freguesia, o vereador Augusto de Magalhães Peixoto apresentou em sessão de câmara uma proposta considerando que «fizeram parte do extinto Concelho de Belem, donde, quando da sua anexação ao de Lisboa,não veiu escrituração alguma referente a deliberações camararias sobre tal assunto, sendo, portanto, conhecidas simplesmente pelos nomes, que o vulgo lhes tem dado», a qual foi aprovada por unanimidade.

Freguesia da Ajuda - Placa Tipo IV (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia da Ajuda – Placa Tipo IV
(Foto: Sérgio Dias)

E passada a proposta a Edital foram atribuídos 56 topónimos. Assim aconteceu com

  1. o Beco do Cabreira;
  2. o Beco do Viçoso;
  3. a Calçada
  4. e o  Largo da Ajuda;
  5. a Calçada
  6. e a  Travessa da Memória, por D. José I ter sofrido um atentado no local;
  7. a Calçada da Boa- Hora;
  8. a Estrada dos Marcos;
  9. a Estrada de Queluz;
  10. o Largo e a
  11. a Rua do Giestal;
  12. a Rua e a
  13. Travessa de Dom Vasco;
  14. a Rua e a
  15. Travessa do Guarda-Jóias;
  16. a Rua do Jardim Botânico;

    Freguesia da Ajuda – Placa Tipo II (Foto: Sérgio Dias)

  17. a Rua e a
  18. Travessa do Machado;
  19. a Rua das Mercês;
  20. a Rua e a
  21. Travessa do Mirador;
  22. a Rua Nova do Calhariz;
  23. a Rua dos Quartéis
  24. e a Rua de Traz dos Quartéis;
  25. a Rua da Torre, próxima da Torre Sineira conhecida como Torre do Galo;
  26. o Sítio de Casalinho;
  27. a Travessa do Armador;
  28. a Travessa do Chafariz, por lá existir um chafariz;
  29. a Travessa das Dores, referente à Ermida de Nossa Senhora das Dores;
  30. a Travessa da Ferrugenta;
  31. a Travessa das Florindas;
  32. a Travessa de João Alves;
  33. a Travessa José Fernandes;
  34. a Travessa do Moinho Velho;
  35. a Travessa dos Moinhos;
  36. a Travessa do Pardal;
  37. a Travessa de Paulo Martins;
  38. a Travessa das Verduras;
  39. e o Largo do Conde de Belmonte que era uma via particular e não municipal;

Mas também alguns dos topónimos foram atribuídos com um acrescento de localização ou mesmo uma nova nomenclatura. Assim,

  • Freguesia da Ajuda - Placa Tipo II (Foto: Sérgio Dias)

    Freguesia da Ajuda – Placa Tipo II
    (Foto: Sérgio Dias)

    40. a Rua das Freiras mudou para Rua das Casas do Trabalho (desde 1963 é a Rua Alexandre de Sá Pinto);

  • 41. a Rua Carlos Príncipe passou a ser a Rua Augusto Gomes Ferreira/Professor da Escola do Exército Inspector dos Incêndios/1854-1900; 
  • 42. a Travessa de Carlos Príncipe foi alterada para Travessa da Ajuda;
  • 43. a Rua da Paz mudou para Rua Brotero/Médico e Botânico/1744 – 1828
  • 44. assim como a outra Rua da Paz para Rua do Laranjal;
  • 45. a Rua dos Fornos da República tornou-se simplesmente Rua dos Fornos;
  • 46. a Rua Aliança Operária, assim atribuída pelo Edital de 14/10/1915, voltou a ser Rua de Santana;
  • 47.a Rua do Mirante tornou-se Calçada do Mirante à Ajuda;
  • 48. a Rua do Meio levou o acrescento à Ajuda;
  • 49. o Beco do Chinelo tornou-se Beco do Xadrez;
  • 50. a Rua da Bica passou a Rua Alegre
  • 51. a Travessa da Estopa ficou como Travessa das Fiandeiras;

Finalmente, foram também modificados outros topónimos para evitar repetições ou nomes que talvez fossem considerados menos próprios, tendo em comum a característica de todos terem sido renomeados com nomes de flores. Foram eles

  • 52. a Estrada do Cemitério foi alterada para Rua das Açucenas;
  • 53. a Travessa da Faustina tornou-se a Travessa da Madressilva;
  • 54.  a Travessa do Carneiro ficou como Travessa da Verbena;
  • 55. a Travessa do Moinho Velho foi mudada para Travessa do Alecrim;
  • 56. outra Travessa do Machado passou a Travessa da Giesta.
Freguesia da Ajuda - Placa Tipo II

Freguesia da Ajuda – Placa Tipo II

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Manutenção da Rua Direita de Marvila em 1916

Freguesia de Marvila (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de Marvila
(Foto: Sérgio Dias)

A edilidade lisboeta por deliberação camarária de 17 de agosto de 1916, publicou um edital em 21 de agosto para dar a saber que mantinha como topónimo a Rua Direita de Marvila, entre a Rua Zófimo Pedroso e a Rua Pereira Henriques, no que constituía a oficialização de uma denominação antiga.

Esta situação decorreu de uma proposta do vereador Magalhães Peixoto redigida nos seguintes termos: «Tendo a Camara deliberado, em suas sessões de 18 de Maio e 1 de Junho de 1889, alterar os nomes de diversas ruas e entre elas, a Rua Direita de Marvila, que passou a designar se Rua de Marvila e mantendo esta, ainda hoje, aquela nomenclatura, conforme o letreiro ali existente, proponho que a rua compreendida entre as ruas Zofimo Pedroso e Pereira Henriques, passe a denominar-se Rua Direita de Marvila, ficando, nesta parte, revogada a deliberação acima citada.

Rua Direita era uma designação comum usada para a rua principal de um lugar. E antes de Lisboa se expandir como cidade para os lugares vizinhos já lá existiam as antigas Ruas Direitas, de que hoje ainda sobrevivem quatro – a Rua Direita da Ameixoeira, a Rua Direita ao Lumiar, a Rua Direita de Palma e a Rua Direita de Marvila – todas na coroa periférica da cidade o que deve ser a razão para ter sobrevivido até aos nossos dias. Na zona mais central de Lisboa as Ruas Direitas ficaram sem esse qualificativo ainda no séc. XIX, como a Rua Direita da Boavista, a Rua Direita de São Lázaro, a Rua Direita do Loreto, a Rua Direita do Salitre, a Rua Direita de São Paulo, a Rua Direita da Junqueira, a Rua Direita de São Sebastião da Pedreira, a Rua Direita da Esperança, a Rua Direita do Arsenal ou a Rua Direita das Escolas Gerais.

A Rua Direita de Marvila, então parte integrante da Freguesia do Beato António, já aparece como tal num documento municipal de 2 de novembro de 1891, um termo assinado por Joaquim dos Santos Junior, obrigando-se a não exigir maior indemnização do que o valor de 500 réis o m2, quando a Comissão Administrativa da Câmara Municipal de Lisboa resolver expropriar um seu terreno sito na rua Direita de Marvila, para alargamento da mesma.

Freguesia de Marvila (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia de Marvila
(Planta: Sérgio Dias)

A Rua Domingos Rebelo, o pintor etnógrafo dos Açores

Freguesia de Carnide (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de Carnide
(Foto: Sérgio Dias)

O pintor Domingos Rebelo que desde 2004 dá nome a uma rua de Carnide era um dos que, como Eduardo Viana, Emmérico Nunes, Francisco Smith  ou Manuel Bentes -, frequentava o estúdio nº 21 que Amadeu de Sousa Cardoso arrendara em 1908, em Paris, no 14 Cité Falguiére.

Numa entrevista de Domingos Rebelo ao jornal O Século, em 20 de outubro de 1970, o pintor recordou que « […] o atelier de Amadeo de Sousa Cardoso, no 14 Cité Falguière, que era de todos nós o que vivia com maior abastança, pois era filho de uma rica família de Amarante […] tornou-se um centro de reunião. Iam lá todas as noites o Manuel Bentes, o Ferraz, o arquitecto Collin, o Emmérico Nunes e eu. […] .»

A Rua Domingos Rebelo foi um topónimo proposto pelos jornalistas António Valdemar e Appio Sottomayor enquanto membros da Comissão Municipal de Toponímia, e atribuído à Rua C à Quinta do Bom Nome, com início e fim na Rua José Farinha, pelo Edital  municipal de 10/02/2004. Pelo mesmo Edital e na mesma Freguesia de Carnide, foi também atribuído o nome da pintora Maria de Lourdes de Mello e Castro na Rua B à Avenida Professor Francisco da Gama Caeiro.

Autorretrato

Autorretrato

Domingos Maria Xavier Rebelo (Ponta Delgada/03.12.1891 – 11.01.1975/Lisboa) foi um pintor açoriano que se especializou na temática religiosa e nos cenários rurais da sua terra natal o que lhe valeu o título de Pintor Etnógrafo dos Açores, destacando-se da sua obra o quadro Os Emigrantes (1926) e os frescos da Igreja de São João de Deus (1953), em Lisboa.

Domingos Rebelo estudou no Colégio Fisher, e o seu mestre de talha, João Soares Cordeiro, incentivou-o a seguir uma carreira artística pelo que em 1912, quando estudava em Paris, retratou-o. Foi graças ao apoio desse professor que começou a expor logo aos 13 anos e aos 15 partiu para Paris, para estudar a expensas dos Condes de Albuquerque. Em 1911, aos 20 anos, expôs na Exposição dos Livres, ao lado de Alberto Cardoso, Eduardo Viana, Emmérico Nunes, Francisco Álvares Cabral, Francisco Smith e Manuel Bentes. Foi também professor e diretor (1940 – 1942) da Escola Velho Cabral/Escola Industrial e Comercial de Ponta Delgada.  Em 1942, aos 49 anos, veio fixar residência em Lisboa e completou a obra a fresco iniciada pelo pintor Sousa Lopes (quatro dos sete painéis que decoram o Salão Nobre da Assembleia da República), para além de ter dirigido a Biblioteca-Museu do Ensino Primário, em Benfica, junto da Escola do Magistério Primário de Lisboa.

A sua obra artística incluiu ainda composições para tapeçarias, como as que se encontram na Cidade Universitária de Coimbra, bem como miniaturas em barro de cariz etnográfico e foi galardoado com a Medalha da Sociedade Nacional de Belas Artes (1925), os Prémios Silva Porto (1937), Rocha Cabral e Roque Gameiro, bem como com a  Primeira Medalha em aguarela no Salão do Estoril.

Domingos Rebelo foi ainda diretor e vogal da Sociedade Nacional de Belas Artes (1947 – 1970) e a sua obra está representada no Museu do Chiado/Museu de Arte Contemporânea, Museu da Marinha, Museu Carlos Machado de Ponte Delgada e inúmeras igrejas. A Escola de Artes e Ofícios Velho Cabral, inaugurada no ano do seu nascimento e que o artista frequentou,  passou a partir de 1979 a ostentar o seu nome como Escola Secundária Domingos Rebelo.

Freguesia de Carnide (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia de Carnide
(Planta: Sérgio Dias)

 

 

O centenário Bairro de Inglaterra nascido em 29 de agosto de 1916

O Bairro de Inglaterra (Planta: Sérgio Dias)

O Bairro de Inglaterra
(Planta: Sérgio Dias)

Há cem anos, pelo Edital municipal de 29 de agosto de 1916, nasceu nas encostas nascentes do Monte Agudo e colinas da Penha de França o Bairro de Inglaterra, com topónimos todos relacionados com esse país, a saber: a Rua Cidade de Cardiff, a Rua Cidade de Liverpool, a Rua Cidade de Manchester, a Rua Newton (que esteve para ser Lord Byron) e a Rua Poeta Milton.

A Rua Cidade Cardiff (Foto: Sérgio Dias)

A Rua Cidade Cardiff
(Foto: Sérgio Dias)

O Bairro de Inglaterra passou a ser a denominação do Bairro de Brás Simões, já que o proprietário desta urbanização e grande comerciante de Lisboa era José Brás Simões de Sousa, que em 13 de outubro de 1913 entregou os seus arruamentos particulares à Câmara Municipal de Lisboa. O antigo nome do bairro derivava do nome do seu proprietário e os topónimos das suas artérias homenageavam familiares do mesmo, como já acontecera no Bairro Andrade e era costume na época. O novo nome espelhou as alianças que Portugal firmou no contexto da I Grande Guerra: ao incluir modernas cidades inglesas na toponímia da capital portuguesa reforçava diplomaticamente a antiga aliança de Portugal com Inglaterra.

Rua Cidade de Liverpool (Foto: Sérgio Dias)

Rua Cidade de Liverpool
(Foto: Sérgio Dias)

Recorde-se que em fevereiro de 1916 a Inglaterra, país aliado de Portugal desde o casamento de D. João I com D. Filipa de Lencastre (em 1387), pediu ao nosso país que fizesse o apresamento de todos os navios alemães que estavam ancorados na costa portuguesa, e assim feito a Alemanha respondeu com uma declaração oficial de guerra a Portugal, em 9 de março de 1916, não obstante os combates entre Portugal e a Alemanha já ocorrerem desde setembro de 1914, tanto na fronteira sul de Angola como na fronteira norte de Moçambique.

Rua Cidade de Manchester (Foto: Sérgio Dias)

Rua Cidade de Manchester
(Foto: Sérgio Dias)

Foi neste contexto que cinco meses volvidos após a declaração de guerra, na reunião de Câmara de 17 de agosto de 1916, por proposta dos vereadores Santos Neto e Feliciano de Sousa, foi deliberado atribuir topónimos relacionados com Inglaterra.

A Rua Cidade de Cardiff tomou o lugar da Rua Maria Gouveia, fixando uma cidade portuária, como Liverpool ou Lisboa, que em 1916 detinha a maioria do trânsito de carvão no mundo.

A Rua Cidade de Liverpool era antes a Rua José de Sousa, trazendo a memória da cidade inglesa cujo porto prosperou graças à presença de inúmeros mercadores oriundos de Londres, após esta ter sofrido a  grande peste de 1664 e o grande incêndio de 1666.

Já a Rua Cidade de Manchester tinha sido a Rua Isabel Leal até este Edital de 1916 trazer para Lisboa esta cidade do Noroeste da Inglaterra, próspera desde a  Revolução Industrial já que nela se aplicou a máquina a vapor na indústria têxtil logo desde 1789, o que a tornou a segunda cidade inglesa ainda no séc. XIX.

Rua Newton (Foto: Sérgio Dias)

Rua Newton
(Foto: Sérgio Dias)

À Rua Aurora foi dado o nome de Rua Lord Byron na proposta apresentada na reunião de Câmara de 17 de agosto de 1916. Mas na reunião da semana seguinte, a 24 de agosto, foi decidido mudar o topónimo para Rua Newton, já que conforme a Ata dessa reunião «Lord Byron, que sendo uma gloria de Inglaterra e um dos cantores das belezas de Cintra, e da propria capital do nosso paiz, tinha comtudo, devido ao seu temperamento, sido um poeta que agravara os portuguezes, como aliás havia procedido pela mesma forma para com os proprios inglezes. Por esse motivo a resolução da Comissão Executiva sofrera reparos por parte de alguns municipes e de um jornal importante da capital.» Assim, o Edital dos topónimos deste Bairro de Inglaterra só foi publicado a 29 de agosto, sendo a Rua Aurora desde aí designada Rua Newton, resultando assim que as duas personalidades inglesas escolhidas fossem uma da área das letras e outra da área das letras.

À Rua Margarida foi atribuído o topónimo Rua Poeta Milton, que além de ser poeta foi também um defensor da República Inglesa.

Passados 18 anos, em 1934, foram de novo pavimentadas a Rua Cidade de Liverpool, a Rua Cidade de Cardiff e a Rua Newton. O mesmo aconteceu com a Rua Poeta Milton, cuja obra foi adjudicada a Artur Fernandes Alves Ribeiro.

Rua Poeta Milton (Foto: Sérgio Dias)

Rua Poeta Milton
(Foto: Sérgio Dias)

O Largo dos Defensores da República de 1916

Freguesia de Santa Clara (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de Santa Clara
(Foto: Sérgio Dias)

Confinado entre a Avenida de Santos e Castro e a Estrada de São Bartolomeu, encontramos hoje o Largo dos Defensores da República, na Freguesia de Santa Clara, um topónimo de 1916.

Foi pelo Edital municipal de 28 de agosto de 1916 que o Largo da Igreja, espaço onde se encontrava desde 1685 a Igreja  de São Bartolomeu da Charneca – paróquia da freguesia da Charneca que em 1911 tinha 1267 residentes -, e que se constituía como o Rossio do lugar, o espaço de concentração e convívio da população local, passou a denominar-se Largo dos Defensores da República, seguindo a prática da I República de substituir os topónimos religiosos por figuras e valores republicanos, sobretudo quando se tratavam dos arruamentos emblemáticos e de paragem e convívio da população de um bairro, de uma vila ou duma cidade.

No tempo da I República, quando a Rádio era ainda um conjunto de experiências, a Televisão um sonho e o único meio de comunicação existente, o Jornal, servia apenas a minoria da população que sabia ler – cerca de 25% – os topónimos de cada lugar converteram-se num veículo privilegiado de difusão da República e dos seus ideais por todo o país. Os nomes dos arruamentos principais de cada terra e de ponto de encontro foram também um veículo de divulgação dos valores republicanos em Portugal.

O Largo da Igreja em 1906                                   (Planta: Júlio Silva Pinto e Alberto Sá Correia)

Freguesia de Santa Clara (Planta: Sérgio Dias)

O Largo dos Defensores da República hoje, na Freguesia de Santa Clara
(Planta: Sérgio Dias)

A Rua do Inspetor de Incêndios Carlos José Barreiros

Freguesia de Arroios (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de Arroios
(Foto: Sérgio Dias)

A Rua Carlos José Barreiros, com a legenda «Inspector de Incêndios», foi atribuída por edital municipal de 26 de setembro de 1916 no que era o troço da Estrada das Amoreiras que ligava o Largo de Arroios ao do Leão, a partir de uma proposta do vereador Augusto de Magalhães Peixoto, para  homenagear o funcionário camarário que se destacou como Inspetor de Incêndios.

Desconhecem-se as datas de nascimento e morte de Carlos José Barreiros, embora se possa calcular que tenha falecido antes de 1901, ano da atribuição da Rua Tomás Ribeiro, já que para a construção dessa artéria encontramos um documento municipal de expropriação de terrenos aos herdeiros de Carlos José Barreiros, com datas entre 1894 e 1908.

A Câmara Municipal de Lisboa criou a primeira Companhia de Bombeiros em 1834, conhecida como Companhia do Caldo e do Nabo, no mesmo ano em que estabeleceu uma tabela codificada dos toques a rebate. E dezassete anos depois (1851), publicou um novo Regulamento do Serviço de Incêndios. Antes de 1868, Carlos José Barreiros foi nomeado inspetor de incêndios e foi segundo uma proposta sua que os serviços de incêndio passaram a ser uma Repartição da Câmara, resolução que foi publicada em 1867. Recorde-se que no ano anterior Carlos José Barreiros havia publicado o Itinerário para os socorros dos incendios em Lisboa.

Em 18 de outubro de 1868, junto com o vereador Isidro Viana, que detinha o Pelouro dos Incêndios, Carlos José Barreiros participou numa reunião  no edifício da Abegoaria Municipal, na qual se deu corpo à formação da Companhia de Voluntários Bombeiros (CVB), sob a divisa Humanitas, vita nostra tua est, presidida por Guilherme Cossoul, e que mais tarde se denominaria Associação dos Bombeiros Voluntários de Lisboa (ABVL), tendo o seu primeiro quartel funcionado numa casa arrendada na Travessa de André Valente e a sede instalada na Travessa do Carvalho, também em espaço arrendado.

Carlos José Barreiros deu ainda à estampa, através da Tipographia Universal, Incendios: estado do serviço em 1870 (1871) e O incendio da Travessa da Palha: memória dedicada à Exma. Câmara Municipal de Lisboa (1887), sendo que todas suas obras revolucionaram o sistema de organização do combate aos incêndios e tornaram mais eficazes os serviços de luta contra o fogo na cidade de Lisboa. No seu relatório sobre o serviço no ano de 1870 louvou os bombeiros voluntários: «Ocupando-me de bombeiros não posso terminar sem aproveitar o ensejo de pagar o devido tributo de homenagem e reconhecimento à Humanitária Associação que sob modesto titulo de Bombeiros Voluntários tantos e tão apreciáveis serviços tem feito a esta cidade nos dois últimos anos. Alguns dos sócios, que têm procurado instruir-se, já são bombeiros tão aptos como os homens de profissão, e não só se chegam para o fogo, mas como batem-se com tanto acerto e tanto sangue frio como eles. (…) No nosso país é uma ideia apenas nascente, mas prometedora, porque já tem adquirido incontestáveis direitos não só aos aplausos, mas como a bênção do público.»

Em 4 de junho de 1880, Carlos José Barreiros fundou o Montepio de S. Carlos, que no ano seguinte aprovou os seus primeiros estatutos, nos quais são estabelecidos os critérios para atribuição de subsídios, pensões, enterros e legados a que os sócios têm direito. Mais tarde, os bombeiros, em homenagem ao seu fundador resolveram alterar o título da instituição para Associação dos Socorros Mútuos Carlos José Barreiros dos Bombeiros Municipais de Lisboa, que depois passou a Real Associação de Socorros Mútuos Carlos José Barreiros.

Sabe-se também que José Barbosa Leão que em 1864 fundara o Jornal de Lisboa, cedeu pouco depois  sociedade a Carlos José Barreiros, que acabou por ficar com a propriedade exclusiva do jornal.

Os Bombeiros Voluntários da Ajuda, fundados em 1881, deram ao seu quartel na Praça da Alegria, o nome de Carlos José Barreiros.

Freguesia de Arroios (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia de Arroios
(Planta: Sérgio Dias)