A Travessa Possidónio da Silva nascida de um caso de polícia

A Travessa Possidónio da Silva em 1946 (Foto: Fernando Martinez Pozal, Arquivo Municipal de Lisboa)

A Travessa Possidónio da Silva em 1946
(Foto: Fernando Martinez Pozal, Arquivo Municipal de Lisboa)

Logo no ano seguinte à sua morte o arquiteto e arqueólogo Possidónio da Silva, que tanto defendeu a preservação do património cultural português, teve o seu nome dado a uma Rua de Lisboa, mas  110 anos e 9 dias após o seu nascimento teve também de ser o topónimo de uma Travessa para se resolver um caso de polícia.

O caso conta-se da seguinte forma: a Seção da Polícia Municipal em 26 de abril de 1916 fez uma informação à câmara dando conta de 4 requerimentos de proprietários que solicitavam numeração para os seus prédios na Rua Possidónio da Silva, aos quais não se podia dar andamento porque «a numeração das propriedades situadas no mencionado local, encontra-se irregularissima e para se poder efectuar a sua regularisação, torna-se indispensavel que a Ex.mª Camara determine que seja desanexado da dita via publica um troço de terreno, que forma uma travessa, onde existe um chafariz e uma ponte, compreendendo também os predios com os nºs 37 a 71, a qual começa, do lado do Nascente da Rua Possidonio da Silva e termina na Parada dos Prazeres, podendo, caso a Ex.mª Camara assim o entender, dár-se ao dito troço de terreno o nome de Travessa de Possidonio da Silva, publicando-se depois o competente edital, em harmonia com o que a Ex.mª Camara resolver». 

Os vereadores presentes na sessão de câmara de 4 de maio de 1916 aprovaram a sugestão por unanimidade e, consequentemente, por Edital municipal de 16 de maio de 1916 nasceu a Travessa Possidónio da Silva, ficando resolvido o caso de numeração de polícia a contento dos proprietários. Mais tarde, por via do falecimento em 1966 do Comandante dos Sapadores Bombeiros de Lisboa, e dada a carestia de novas ruas na cidade a Travessa Possidónio da Silva passou, pelo Edital de 22/06/1971, a designar-se como Rua Coronel Ribeiro Viana.

Branco e Negro, 5 de abril de 1896

Branco e Negro, nº 1, 5 de abril de 1896

Joaquim Possidónio Narciso da Silva  (Lisboa/07.05.1806 – 03.03.1896/Lisboa)  já havia sido homenageado em 1897 com o seu nome na antiga Rua da Fonte Santa, por ser essa a morada do  Albergue dos Inválidos do Trabalho que ele havia ali fundado em 1891, para apoiar a classe operária inválida. Mas Possidónio da Silva desempenhou também um papel determinante como precursor do ensino e da investigação arqueológica bem como na salvaguarda e valorização do património histórico-artístico e monumental português.

Devido à invasão napoleónica em 1807, ele foi com a sua família para o Rio de Janeiro onde passou parte da sua juventude. Regressou em 1821 e estudou com Domingos Sequeira, Maurício Sendim e Germano de Magalhães seguindo aos dezoitos anos para Paris para estudar Arquitetura e, cinco anos mais tarde, foi para Roma. Em 1831 regressou a Paris e trabalhou no Palais Royal e no Palácio das Tulherias. Retornou em definitivo a Portugal em 1833 tendo então publicado O que foi e é a architectura, e o que aprendem os architectos fora de Portugal. Possidónio tornou-se o arquiteto da Casa Real, com intervenção nas obras dos Palácios de São Bento para o adaptar a Parlamento (1833), da Ajuda (1834 e 1861), das Necessidades (1844-1846) e o Palácio do Alfeite (antes de 1857). Trabalhou também na remodelação do Teatro de São Carlos e do Palácio do Manteigueiro – na esquina da Rua da Horta Seca com a Rua da Emenda- a que acrescentou a autoria de muitos estabelecimentos comerciais da Baixa lisboeta, assim como o projeto de uns banhos públicos na zona do Passeio Público (1835).

Paralelamente, desde 1850 que Possidónio da Silva se interessava pelos monumentos megalíticos em Portugal,  após ter participado na escavação de um dólmen entre Sintra e Colares.  Escavou mais duas antas na zona de Tomar  e acabou por depois conseguir apoio do Governo para o primeiro levantamento dos monumentos nacionais, enquanto nos jornais redigia artigos a defender a necessidade de preservar o património arquitetónico português. Em 1858, D. Pedro V encarregou-o de proceder a um estudo técnico dos monumentos nacionais. Participou em 1867 na 2ª sessão do Congresso Internacional de Antropologia e Arqueologia Pré-Histórica, em Paris, tendo em 1878 publicado Noções Elementares de Archeologia, uma síntese dos métodos de escavação estratigráfica e sectorial.

Joaquim Possidónio da Silva fundou em 1863 e presidiu à Associação dos Arquitectos Civis Portugueses que passou a designar-se Real Associação dos Arquitectos Civis e Arqueólogos Portugueses, antes de se cindir, já depois da morte de Possidónio, para originar as que hoje conhecemos como Ordem dos Arquitetos e Associação do Arqueólogos Portugueses.  Assim nasceu em  1866 um museu arqueológico, depois instalado nas ruínas do Convento do Carmo, bem como um boletim da associação, a partir de 1865. Possidónio foi ainda membro de diferentes academias e sociedades nacionais e estrangeiras como o Instituto de França e a Société française d’archéologie.

Em 1882 o escultor francês Anatole Vasselot fez um busto de bronze de Possidónio da Silva mas este nunca permitiu a divulgação da sua imagem em nenhum meio até à sua morte e assim, este busto  foi colocado sobre um pedestal de pedra  na Praceta da Rua Possidónio da Silva e inaugurado em 5 de julho de 1968.

A Travessa Possidónio da Silva em 1961 (Foto: Artur João Goulart, Arquivo Municipal de Lisboa)

A Travessa Possidónio da Silva em 1961
(Foto: Artur João Goulart, Arquivo Municipal de Lisboa)

 

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