Ferreira de Castro, emigrante no Brasil e autor de «A Selva», numa rua de Marvila

Freguesia de Marvila (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de Marvila
(Foto: Sérgio Dias)

Ferreira de Castro, o autor de A Selva – fruto da sua experiência como emigrante no Brasil-, desde a publicação do Edital municipal de 28 de fevereiro de 1984 é o topónimo de uma rua de Marvila, identificada até então como Rua E da Zona N 1 de Chelas.

O mesmo Edital colocou numa rua da mesma freguesia, mas na Zona L de Chelas,  a escritora brasileira Dinah Silveira de Queiroz. Cinco anos depois,  junto à Rua Ferreira de Castro nasceu a Rua como o nome da poetisa Luísa Neto Jorge e em 1997, paralela, surgiu a Avenida José Régio.

Ilustração, 1 de novembro de 1933

Ilustração, 1 de novembro de 1933

José Maria Ferreira de Castro (Oliveira de Azeméis- Ossela/24.05.1898 – 29.06.1974/Porto) foi um escritor e jornalista que retratou na sua obra a vida dos emigrantes no Brasil, nomeadamente no romance Os Emigrantes (1926), e em A Selva (1930), no qual narra a vida nos seringais da Amazónia inspirando-se na sua própria experiência de trabalho. A Selva, romance focado no drama dos trabalhadores dos seringais na Amazónia, com muito de reportagem e objetividade quase fotográfica, foi traduzida para dezenas de línguas e tornar-se-ia num dos romances portugueses mais lidos desde sempre, sendo em 1973 um dos dez romances mais lidos em todo o mundo segundo a UNESCO. A edição de A Selva no Brasil, em 1935, foi prefaciada por Afrânio Peixoto  e, em 2002, numa produção luso-hispano-brasileira, a obra foi adaptada ao cinema por Leonel Vieira.

Ferreira de Castro foi considerado precursor do neorrealismo, pela sua inovadora obra marcada pelo sofrimento e pobreza causados pela morte prematura do pai em 1906, assim como pela sua dura experiência de emigração no Brasil desde os 12 anos (1910). Viveu durante quatro anos como caixeiro, no seringal Paraíso, em plena selva amazónica e depois teve de  recorrer a trabalhos como colar cartazes em Belém ou ser embarcadiço em navios entre Belém e a Guiana Francesa.

Escreveu o seu primeiro romance Criminoso por ambição (1916) no seringal e publicou-o em fascículos no Brasil. Do conjunto das suas 31 obras refiram-se ainda a peça A Alma Lusitana (1916), O Êxito Fácil (1923), Sangue Negro (1923),  A Metamorfose (1924), A Epopeia do Trabalho (1926), O voo nas Trevas (1927), Terra Fria (1934) – que foi Prémio Ricardo Malheiros da Academia das Ciênciastambém adaptada a filme de António Campos em 1992-  A Tempestade (1940), A Lã e a Neve (1947), O Instinto Supremo (1968) , Os Fragmentos (1974) e os dois volumes de  As Maravilhas Artísticas do Mundo (1959-1963), que receberam em 1965 Prémio Catenacci da Academia de Belas Artes de Paris. Duas das suas obras, que terminou em 1936- O Intervalo e a peça Sim, uma Dúvida Basta, feita para o Teatro Nacional e censurada  por despacho governamental – só foram publicadas em 1974 e 1994.

No jornalismo, colaborou logo em 1916 no Jornal do Novos (em Belém). Fundou e dirigiu com outro emigrante, João Pinto Monteiro, em 1917, o semanário Portugal , destinado à comunidade lusa de Belém do Pará e dois anos depois, também O Luso, com a intenção de promover a aproximação luso-brasileira para além de A Hora, «revista panfleto de arte, actualidades e questões sociais» (1922), a revista Civilização (1928) com Campos Monteiro, para além de ter colaborado nas revistas O domingo ilustrado e Ilustração (1934), o jornal O Diabo (1935) e ainda, co-dirigido com António Ferro, a «Página Portuguesa» da Gaceta Literaria. Tornou-se colaborador do jornal Imprensa Livre (1921), revista A. B. C. dirigida por Rocha Martins (1922), «Suplemento Literário» do diário A Batalha e da revista Renovação (1925),  ambos da Confederação Geral do Trabalho anarco-sindicalista, do jornal O Século (1927) e do jornal carioca A Noite (1938). Assinou crónicas vibrantes, como o dia em que se deixou prender no Limoeiro para testemunhar a vida dos reclusos nas cadeias portuguesas ou a sua entrevista exclusiva em 1930, em Dublin, com Eamon de Valera, líder do Sinn Fein , ao serviço do jornal de João Pereira da Rosa.

Em 1926 foi eleito presidente do Sindicato dos Profissionais da Imprensa de Lisboa. Em 1945, denunciou os efeitos nefastos da censura sobre os escritores portugueses numa entrevista ao Diário de Lisboa, integrou a Comissão Consultiva e a Comissão de Escritores Jornalistas e Artistas do Movimento da Unidade Democrática (MUD) e em 1949, apoiou vivamente a candidatura de Norton de Matos à presidência da República. Em 1962, foi eleito por unanimidade presidente da Sociedade Portuguesa de Escritores, da qual era o sócio nº 2 e Aquilino o nº 1. em 1974 acolheu o 25 de Abril com grande emoção e participou logo no primeiro 1º de Maio.

Em 1959  visitou o Brasil a convite da União Brasileira de Escritores e tornou-se cidadão honorário do Rio de Janeiro com entrega da chave da cidade. Em 1966, nos 50 anos da sua vida literária foi inaugurado um monumento à sua obra numa praça de Oliveira de Azeméis. Recebeu o prémio Águia de Ouro Internacional no Festival do Livro de Nice em 1970 e no ano seguinte, a Academia do Mundo Latino atribui-lhe o Prémio da Latinidade e o seu nome foi dado a um troço da Rodovia Transamazónica, no Brasil. De outras homenagens que recebeu, refiram-se ainda uma biblioteca e uma escola secundária com o seu nome em Oliveira de Azeméis e em Ossela, a Casa-Museu Ferreira de Castro na Rua Escritor José Maria Ferreira de Castro, para além de ter um busto seu no espaço público de Manaus e de dar nome a um Prémio Literário e a um Museu  da Câmara Municipal de Sintra.

Dá ainda o seu nome a artérias de Águas Santas, Almada, Amadora, Barreiro, Bragança, Casal de Cambra, Coimbra, Corroios, Fafe, Mafra, Mem Martins, Miratejo, Ovar, Paio Pires, Pinhal Novo, Porto, Póvoa de Santa Iria, Rio de Mouro, Santa Maria da Feira, São João da Madeira, Sassoeiros, Sintra, Trofa, Viana do Castelo, bem como no Brasil, em Manaus, Ourinhos, Porto Novo, São Paulo e Teresópolis.

Freguesia de Marvila (Planta: Sérgio Dias)

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3 thoughts on “Ferreira de Castro, emigrante no Brasil e autor de «A Selva», numa rua de Marvila

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