O Largo da Senhora da Anunciada que ocupou o Convento de Santo Antão

O Largo da Anunciada em 1960 (Foto: Arnaldo Madureira, Arquivo Municipal de Lisboa)

O Largo da Anunciada em 1960
(Foto: Arnaldo Madureira, Arquivo Municipal de Lisboa)

O Largo da Anunciada, com que hoje deparamos na confluência da Avenida da Liberdade, Rua das Portas de Santo Antão e Rua de São José, na freguesia de Santo António, é um topónimo que advém do seiscentista Mosteiro de Nossa Senhora da Anunciada que ocupou o Convento de Santo Antão por determinação do rei D. Manuel, em cujo lugar encontramos agora a Igreja paroquial de São José da Anunciada.

Norberto de Araújo refere o Largo da Anunciada como «invocação de ressonância lisboeta, que deriva do nome do Convento que neste sítio existiu. No local, onde está a paroquial de S. José, para norte e para nascente, caindo sôbre as hortas, onde hoje passa a Avenida, levantava-se o Mosteiro, com sua Igreja e Cêrca, das religiosas dominicanas; a Casa fôra reedificada, por D. Manuel, em 1539, sôbre um anterior Convento de frades agostinhos descalços de Santo Antão, que datava de 1400 -, e foi dele que derivou o nome à Rua das Portas de Santo Antão. As religiosas da Anunciada já tinham desde 1519 a sua casa conventual, na Mouraria (Coleginho) – em local que fôra de uma mesquita moura. No citado ano de 1539 os frades e as freiras trocaram a sede das suas casas: assim os agostinhos de Santo Antão foram para o Coleginho, e as religiosas da Anunciada vieram para êste sítio, que passou por isso a ser chamado de Anunciada; a Rua é que se manteve fiel a Santo Antão.»

largo-da-anunciadaEm 1496 o rei D. Manuel  expulsou do país os mouros  e os judeus, e nessa sequência fez mercê da Mesquita da Mouraria – onde hoje é a Rua Marquês de Ponte de Lima – ao Hospital Real de Todos os Santos, que a aforou para conseguir algum lucro. Mas como os foreiros não pagavam o devido o rei anulou o contrato e converteu a mesquita em templo dedicado a Nossa Senhora da Anunciada que entregou, no ano de 1511, a mulheres que viviam em recolhimento segundo a Ordem Terceira de São Francisco. Oito anos mais tarde, em 1519, foi transformado em convento de freiras dominicanas,  da Ordem dos Pregadores, com orago de Nossa Senhora da Sagrada Anunciação.

Contudo, dada a insalubridade do local e a devassa da vida claustral pelas casas vizinhas na encosta do Castelo, trocaram de morada em 1539, com os monges do Convento de Santo Antão, na zona norte extramuros de Lisboa, no ~espaço que hoje é o Largo da Anunciada, na estrada que ia das Portas de Santo Antão ao lugar de Nossa Senhora da Luz,  a antiga Corredoura. Parte dessa antiga estrada é ainda hoje a Rua de São José, que constituía o limite nascente da cerca do Convento da Anunciada. Por outro lado,  D. João III cedeu em 1553 o Convento de Santo Antão da Mouraria aos jesuítas, para ser o seu primeiro colégio em Lisboa.

Para as religiosas serem acolhidas condignamente no Convento da Anunciada, este recebeu obras  patrocinada por Fernão Álvares de Andrade,  fidalgo da Casa Real e proprietário das casas em frente ao convento. Em 1542, D. João III, padroeiro do Convento da Anunciada, autorizou a cedência da capela-mor da igreja para panteão de Fernão Álvares de Andrade, de sua mulher Isabel de Paiva e de seus descendentes. A divisão dos dormitórios em celas foi custeada pela rainha D. Catarina e por D. Joana de Noronha, filha do 2º conde de Linhares, D. Francisco de Noronha, que acabou por lá se recolher junto das suas 4 irmãs religiosas. No último quartel do século XVI o Convento da Anunciada era considerado um dos principais da corte, onde professavam numerosas filhas da nobreza, algumas delas escritoras e artistas.

Excerto da planta de Filipe Folque de 1858 (Arquivo Municipal de Lisboa)

Excerto da planta de Filipe Folque de 1858
(Arquivo Municipal de Lisboa)

O Terramoto de 1755 arruinou o Convento e a Igreja, tendo falecido 16 pessoas, entre elas uma filha do Marquês de Távora, e as freiras abandonaram o espaço para se fixarem em 1756 no Convento de Santa  Joana, na Rua de Santa Marta, por determinação de D. José I. Em 1765, as  religiosas da Anunciada venderam os terrenos da cerca, por 6.400.000 réis, à Irmandade do Santíssimo Sacramento da freguesia de São José – que desde 1567 tinha sede na igreja de São José dos Carpinteiros-, responsável pelo loteamento e urbanização dessa área a partir do final do século XVIII e pela construção da igreja paroquial de São José da Anunciada que se iniciou em 1856, no local do antigo Convento da Anunciada, sendo aberta ao culto em 15 de agosto de 1883.

Freguesia de Santo António (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia de Santo António
(Planta: Sérgio Dias)

Advertisements

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s