A Senhora do Monte de S. Gens em 5 artérias

A Ermida de Nossa Senhora do Monte, no Largo do Monte (Foto: Artur Pastor, anos 80 do séc. XX, Arquivo Municipal de Lisboa)

A Ermida de Nossa Senhora do Monte, no Largo do Monte
(Foto: Artur Pastor, anos 80 do séc. XX, Arquivo Municipal de Lisboa)

No ponto mais alto do Bairro da Graça, a Ermida de Nossa Senhora do Monte e de S. Gens foi fundada no próprio ano da tomada de Lisboa aos mouros, em 1147, e dela derivaram os 5 topónimos que ainda hoje encontramos: a Calçada do Monte, as Escadas do Monte, o Largo do Monte, a Rua da Senhora do Monte e a Travessa do Monte.

Norberto de Araújo precisa que «O Bairro do Monte, urbanizado, data de 1902, embora anteriormente existisse na sua Calçada, no seu alto de S. Gens, e num ou noutro arruamento impreciso. (…) Data desta época o Bairro (novo) do Monte, definindo-se, em plano de urbanização, as Ruas de S. Gens e da Senhora do Monte, esta já existente antes, como natural descida do alto de S. Gens à Rua da Graça. (…)».  Desta urbanização de 1902, encontramos a escritura de concessão  de licença municipal a Higino de Magalhães Mendonça para construir a Rua da Senhora do Monte, datada de 21 de junho de 1901, bem como a escritura de entrega de rua a 21 de novembro de 1903. Este Higino de Mendonça era pintor e  herdeiro de Damasceno Monteiro (por ser sobrinho da esposa dele), pelo que assim separou a ermida das restantes propriedades e no local procedeu ao parcelamento e à urbanização do Bairro do Monte, bem como à construção do seu palacete na Rua da Senhora do Monte, que nos anos 60 foi substituído por dois prédios mais modernos.

Em 1903, o Edital municipal de 18 de dezembro atribuíu o  topónimo Rua da Senhora do Monte, à via entre a Rua da Graça e a Calçada do Monte e, por este mesmo edital foi  deu  também nas proximidades a Rua de S. Gens, tanto mais que desde o ano anterior a Ermida tinha tido obras e passara para a Coroa com o título de Real Ermida de Nossa Senhora e S. Gens.

Aliás, a Ermida de Nossa Senhora do Monte que encontramos no Largo do Monte, foi erigida no Monte de S. Gens e também consagrada a este padroeiro dos atores cómicos, que terá sido o 1º bispo de Lisboa e martirizado em 284 no sopé do monte, nas Olarias, segundo a tradição. A cadeira de pedra de S. Gens foi colocada na Ermida em consideração às suas virtudes milagrosas no aumento da fertilidade e numa boa hora no parto. Em 1243 foi construído um segundo ermitério dos frades Agostinhos Calçados para o qual foi deslocada a cadeira, bem como o obelisco para o Largo do Monte.  A Ermida e o ermitério sofreram com o Terramoto de 1755 e a igreja foi reedificada com risco de Honorato José Cordeiro, mantendo a cadeira no interior. Em 1815, os Agostinhos plantaram árvores no Largo do Monte que duraram até ao ciclone de Lisboa de 1941. Com a extinção das ordens religiosas em 1834, o Estado vendeu toda a propriedade (ermida e quinta) a Clemente José Monteiro, cuja viúva, Henriqueta de Mendonça  casou em segundas núpcias com Damasceno Monteiro, o qual criou em 1857 uma nova Irmandade de Nossa Senhora do Monte e S. Gens, tendo no ano seguinte os devotos lisboetas  oferecido uma imagem de Nossa Senhora do Monte para o altar-mor. O herdeiro, Higino de Mendonça, parcelou e urbanizou a zona no início do séc. XX, como acima referimos.

A Calçada do Monte será a mais antiga já que, como frisa Norberto de Araújo, «A empinada Calçada do Monte, defronte do Largo, é, como estás vendo, a resultante de um caminho ou vereda que nos séculos velhos dividia a Cerca do Convento da Graça da encosta poente do Monte de S. Gens.» Por seu turno,  o Largo do Monte está ao cimo da Calçada do Monte, razão para o Edital municipal de 17/10/1924 ter integrado no Largo do Monte o prédio nº 1 da Calçada do Monte.

Já as Escadas do Monte, partilhadas pelas freguesias de São Vicente  e de Arroios, ligam a Rua Damasceno Monteiro à Rua das Olarias, desde a publicação do Edital do Governo Civil de 11 de janeiro de 1876. Em 1893, no nº 6 foi erguida uma vila operária.

Por último, a Travessa do Monte, liga o Largo da Graça à Calçada do Monte e já aparece num prospeto do prédio que Nuno António de Jesus pretendia construir na Travessa de Nossa Senhora do Monte, n.º 17 a 19, em 28 de junho de 1860.

Freguesia de São Vicente (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia de São Vicente
(Planta: Sérgio Dias)

 

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