Da Travessa das Chagas para a Rua de Ruben A.

Freguesia da Misericórdia
(Foto: Sérgio Dias)

O semanário O Tempo, fundado em 29 de maio de 1975 e sediado no nº 4 da Travessa das Chagas, solicitou logo nesse seu 1º ano a alteração do topónimo da artéria onde estava instalado e no ano seguinte, o topónimo mudou para Rua Ruben A. Leitão.

A Comissão Municipal de Toponímia analisou o pedido pela primeira vez na sua reunião de 22 de julho de 1975 mas entendeu que deveria colher o parecer da Junta de Freguesia, que na época era a das Mercês. A 2ª Comissão de Toponímia pós-25 de Abril reapreciou o assunto na sua reunião de 15 de junho de 1976 e «resolveu estudar previamente a origem do topónimo, reservando para uma próxima oportunidade o seu parecer sobre a pretendida alteração», conforme referem as Atas da Comissão. Finalmente, na sua reunião de 6 de julho seguinte,  a Comissão foi do parecer que «o topónimo existente não tem qualquer significado especial nem pode considerar-se tradicional» e sugeriu que passasse a denominar-se Rua Ruben A. Leitão, com a legenda «Escritor/1920 – 1975», o que se concretizou com a publicação do Edital de 6 de outubro de 1976.

Assim, a Travessa das Chagas Velhas ou Travessa das Chagas, entre a Rua da Palmeira e a Rua Eduardo Coelho, passou a ser a Rua Ruben A. Leitão, homenageando o  jornalista e escritor mais conhecido por Ruben A., que nascera no 1º andar do nº 25 da Praça do Príncipe Real e depois residira ali perto, no nº 37 da Rua do Monte Olivete, conforme consta no envelope de uma carta dirigida a Eduardo Lourenço em 1967, tendo aos 55 anos de idade, em setembro de 1975, falecido repentinamente.

Diário Popular, 10 de junho de 1975

Ruben Alfredo Andresen Leitão (Lisboa/26.05.1920 – 23.09.1975/Londres), licenciou-se em Ciências Histórico-Filosóficas em Coimbra e ensinou cultura portuguesa no King’s College da Universidade de Londres, de 1947 a 1952,  tendo também sido convidado para docente na Universidade de Oxford alguns meses antes de falecer.

Enquanto escritor usava o pseudónimo Ruben A.  Das suas obras publicadas  são de destacar a biografia D. Pedro V: um homem e um rei (1950) bem como a edição das Cartas de D. Pedro V aos seus Contemporâneos (1961) até então inéditas; vários verbetes no Dicionário de História de Portugal dirigido por Joel Serrão; os romances Caranguejo (1954) e A Torre da Barbela (1965) que foi Prémio Ricardo Malheiros; a peça Júlia (1963); os três volumes de O Mundo à Minha Procura (1964, 1966 e 1968); O Outro que era Eu (1966); seis diários com ficção sob o título de Páginas ( de 1949 a 1970) ou a novela Silêncio para 4 (1973). A escrita de Ruben A. caracteriza-se pela irreverência linguística, desconstrução dos eixos narrativos tradicionais e mordacidade.

Foi ainda funcionário da Embaixada do Brasil em Lisboa, de 1954 até 1972, ano em passou para membro do  Conselho de Administração da Imprensa Nacional-Casa da Moeda. Também desempenhou funções como diretor-geral dos Assuntos Culturais do Ministério da Educação e Cultura e colaborou em diversos jornais como o Expresso, onde foi membro do conselho editorial, e com recensões críticas no Diário Popular de 1963 a 1974.

Em termos pessoais refira-se que era reconhecido pela sua cultura ilimitada e criatividade excepcional, assim como por ter inventado o nome PPD para um partido de que nunca fez parte.

Freguesia da Misericórdia
(Planta: Sérgio Dias)

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