Viúva de Faria de Vasconcelos pediu rua de maior grandeza cinco anos após atribuição de topónimo

Freguesia do Beato
(Foto: Sérgio Dias)

Faria de Vasconcelos, professor universitário defensor da Escola Nova e criador da Orientação Profissional do nosso país, estava desde 1970 como topónimo de uma Rua do Beato mas em 1975 a sua viúva solicitou que o seu nome passasse para um «arruamento de maior grandeza».

Celsa Quiroga Faria de Vasconcelos enviou uma carta à edilidade lisboeta para que o nome de seu falecido marido ficasse numa artéria maior, assunto que a Comissão Municipal de Toponímia de Lisboa tomou em consideração na sua reunião de 22 de julho de 1975,  emitindo o parecer de que «Neste momento, não se vê possibilidade de satisfazer o pedido.» Para além da escassez de novos arruamentos nessa época havia a impossibilidade de alteração de topónimos tradicionais.

A Rua Doutor Faria de Vasconcelos, com a legenda «1880 – 1939», por via do Edital municipal de 20 de maio de 1970 ocupou a artéria identificada como Rua GKH  ou Rua F à Calçada da Picheleira, ou ainda Rua Particular à Calçada da Picheleira,  ficando a ligar a Calçada da Picheleira ao arruamento constituído pelas Ruas LG e GE e Impasse GJ do plano de Urbanização das Olaias – Quinta dos Machados à Picheleira que em 1971 passou a ser a Rua Professor Mira Fernandes.

António de Sena Faria de Vasconcelos Azevedo (Castelo Branco/02.03.1880 – 11.08.1939/Lisboa – Freguesia de Benfica), publicou o seu primeiro livro em 1900 com o título O Materialismo Histórico e a Reforma Religiosa do Século XVI e  no ano seguinte, em 12 de junho, concluiu a sua formação como bacharel em Leis pela Universidade de Coimbra, seguindo aí a tradição familiar, mas logo partiu para a Bélgica, onde concluiu um doutoramento em Ciências Sociais na Universidade Nova de Bruxelas, com a tese Esquisse d’une théorie de la sensibilité sociale. A partir daí desenvolveu então uma carreira de pedagogo e professor universitário, ligado ao movimento Escola Nova. Foi docente na Universidade de Bruxelas a partir de 1904 e em outubro de 1912 fundou na proximidade de Bruxelas a Escola de Bierges 28, de acordo com os princípios da Escola Nova e os 30 pontos definidos por Ferrière (cumprindo 28 como o nome indicava), experiência que relatou sob o título Une École Nouvelle en Belgique (1915), o caso da escola nova que criara como contributo para a implementação de uma aprendizagem inclusiva e individualizada. Durante a permanência na Bélgica publicou em Portugal O Pessimismo-Semiologia e Terapêutica (1902)  e Lições de Pedologia e Pedagogia Experimental (1908) e contraiu matrimónio com uma belga.

Com a invasão da Bélgica pela Alemanha Faria de Vasconcelos fugiu para Genebra, para o Instituto Jean-Jacques Rousseau (hoje, é a Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação), onde se integrou na equipa de docentes de Ferrière, Claparède  e Bovet no ano letivo de 1914/15, tendo sido assistente do Laboratório de Psicologia Experimental e secretário do Bureau International des Écoles Nouvelles, pelo que não é de estranhar que quando em 1921 editou a primeira série dos seus Problemas Escolares tenha feito a dedicatória para Pierre Bovet e Edouard Claparéde.

Por indicação de Ferrière foi  para Cuba, de 1915  até 1917, onde como Inspetor Especial do Ministério da Beneficência orientou a Reforma Pedagógica, assim como fundou Escolas Novas. Daqui seguiu para a Bolívia, para gerar Escolas Novas, em La Paz e em Sucre, tendo exercido funções como professor e diretor da Escola Normal Superior de La Paz, na qual fundou a secção de Psicologia, bem como dirigiu a Escola Normal Mista de Precetores em Sucre, onde criou  o  Curso de Organização e Direção de Escolas. Foi também na Bolívia que conheceu Celsa Quiroga, com quem casou em 1923 e de quem teve dois filhos.

Regressou a Portugal em dezembro de 1920 para ser Professor de Pedagogia na Escola Normal Superior. Ligou-se também à revista Educação Popular da Universidade Popular Portuguesa,  à Seara Nova e ao jornal A Batalha. A partir de 1922 tornou-se docente da Faculdade de Letras de Lisboa e regente do curso de Psicologia Geral, a cujo propósito publicou Lições de Psicologia Geral (1924), uma súmula das suas aulas. Refira-se ainda que os seus artigos sobre «Bases para a Solução dos Problemas da Educação Nacional», estiveram na base da proposta de Lei de Bases da Educação Nacional apresentada pelo Ministro João Camoesas ao Congresso da República em 1923.

Em 1925 fundou em Lisboa o Instituto de Orientação Profissional, e se torna o estratega da Orientação Escolar e Profissional, ao mesmo tempo que cria a Biblioteca de Cultura Pedagógica. Concluiu que a população criminosa tende a ter a mesma curva de distribuição da inteligência que a restante população e defende que «O combate ao crime para surtir efeitos tem que remontar até à infância, idade capital na formação do indivíduo.» Passados seis anos, em articulação com o Instituto de Reeducação Mental e Pedagógica participou na organização do Instituto Dr. Navarro de Paiva, atento aos 30% a 40 % de alunos com dificuldades de aprendizagem.

Freguesia do Beato
(Planta: Sérgio Dias)

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