A quinhentista Travessa da Espera dos antigos joalheiros da Coroa e do Farta-Brutos

Freguesia da Misericórdia
(Foto: Sérgio Dias)

A quinhentista Travessa da Espera, no Bairro Alto, ainda nos dias de hoje alberga diversos comércios, de que se destacam o  restaurante Farta Brutos desde 1904, bem como uma loja  dos antigos joalheiros da Coroa – Leitão & Irmão – que desde 1887 se estabeleceram em Lisboa.

Sobre o significado do topónimo desta artéria que liga a  Rua da Misericórdia à Rua da Atalaia, ou seja, que faz a ligação do exterior ao interior do Bairro Alto, e que assim aparece denominada logo nas suas primeiras plantas, apenas se podem fazer suposições. Seria este arruamento o escolhido como ponto de encontro para se entrar neste Bairro implantado extra-muros mas adjacente à cerca fernandina, a partir da Rua Larga de São Roque [hoje, Rua da Misericórdia]?…

Recorde-se que o Bairro Alto de São Roque, de 1513, resulta da expansão urbana quinhentista próxima de uma porta da muralha fernandina e caracteriza-se por traçado quase ortogonal, com um esquema hierarquizado de ruas e travessas, em que as primeiras são eixos estruturantes perpendiculares ao rio e as travessas, os eixos secundários paralelos ao Tejo. A definição clara dos limites do Bairro em relação à cidade envolvente, manteve-o inalterado, único e original até aos nossos dias. Talvez a Travessa da Espera fosse o ponto de encontro para entrar nesse mundo íntimo do Bairro Alto de São Roque.

Na década de trinta do séc. XX, o olisipógrafo Norberto de Araújo caracterizou esta Travessa de uma forma que parece indiciar a predisposição para ponto de encontro: «A Travessa da Espera – pela qual vamos sair do interior do Bairro Alto – e que liga a Rua da Atalaia com a Rua Larga de S. Roque, é das serventias do Bairro mais movimentadas e tradicionais de turbulência. Porquê? – perguntas tu. Pela circunstância de ser uma saída natural do íntimo do sítio bairrista para o exterior, por S. Roque. Foi sempre servida por baiúcas de esquina, que desapareceram; hoje possue dois restaurantes pequenos, bem frequentados, de fundação recente em relação à antiguidade do sítio, mas sem nenhuma característica típica: o “Primavera“, e o “Farta-Brutos”, respectivamente nos nºs 45 e 53, êste mais antigo».

O Farta Brutos, no segundo quarteirão da Travessa da Espera, conforme Esculápio afirmou em 1941 numa conferência no Grupo Amigos de Lisboa, era uma «baiúca instalada em uma loja para a qual se descia por dois degraus, e administrada por um galego hercúleo, antigo cosinheiro de bordo, casado com uma mulher muito franzina que servia às mesas. Chamam-me o Farta Brutos, dizia o galego, para me chamarem bruto, quando, afinal, os brutos são êles. A casa era muito bem freqüentada por gente de jornais e de teatros. »

Já no primeiro quarteirão, nos 8 a 14, encontramos hoje a loja da oficina da joalharia Leitão & Irmão, ocupando parte do espaço onde foi a Imprensa Minerva – nos nºs 12 a 14 – em que se imprimia o António Maria, de Rafael Bordalo Pinheiro, e no qual Esculápio trabalhou.

A portuense Casa Leitão, na altura do cerco do Porto (1832 -1833), ocasionou relações do proprietário José Teixeira da Trindade com D. Pedro IV de Portugal e I do Brasil, que cinquenta anos depois lhe concedeu o título de Ourives da Casa Imperial do Brasil. Cerca de 15 anos depois, em 1 de dezembro de 1887, D. Luís I,  nomeou-os Joalheiros da Coroa Portuguesa, pelo que a Casa Leitão  se transferiu do Porto para Lisboa nesse ano e estabeleceu a sua primeira loja no então conhecido popularmente Largo das Duas Igrejas [hoje, Largo do Chiado]. Referia-se que a ourivesaria produziu uma baixela criada por Columbano Bordalo Pinheiro e em 1917, um faqueiro de prata com peças desenhadas por Jaime de Castro Leitão e René Lalique.

Freguesia da Misericórdia
(Planta: Sérgio Dias)

 

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