A rua do mercador quatrocentista a quem D. Afonso V arrendou a costa africana

Freguesia de Belém
(Foto: Sérgio Dias)

A Rua Fernam Gomes perpetua na Encosta do Restelo o nome do mercador do séc. XV a quem D. Afonso V arrendou a exploração comercial da costa africana pela contrapartida de avanço na exploração de novos territórios no litoral de África.

O topónimo foi fixado na Rua BM1 à Encosta do Restelo pelo edital municipal de 19/10/1964, somando-se aos inúmeros topónimos de navegadores, missionários, e bandeirantes que desde a década de quarenta do século XX caracterizam a toponímia da zona, centrada na Expansão Portuguesa, tendo recebido a legenda «Navegador do Século XV».

Pelo mesmo edital fixaram-se no local mais 10 topónimos, todos de navegadores do século XV, a saber, Álvaro Esteves que até navegou com Fernão Gomes, Gonçalo Nunes, Gonçalo Velho Cabral, João Coimbra, João Fernandes Labrador, Jorge Álvares, Paulo da Gama, Pedro de Barcelos, Pero de Alenquer e Tristão Vaz, dando assim o edital municipal cumprimento ao parecer da Comissão Municipal de Toponímia, na sua reunião de 27 de maio de 1960, no qual se enunciava que «A Comissão começou por se ocupar, novamente, do processo nº 3545/60, no sentido de os arruamentos do Bairro de Casas Económicas da Encosta do Restelo serem todos denominados com nomes de figuras relacionadas com a nossa Epopeia Marítima, tendo, para o efeito, visitado aqueles arruamentos e o Bairro residencial.»

Fernam Gomes, também grafado como Fernão Gomes da Mina, foi o mercador a quem D. Afonso V por carta de 12 de abril de 1455 tornou recebedor dos resgastes da Guiné, fosse de mouros fosse de mercadorias. Consta que já antes  servira D. Afonso V em Ceuta e  João de Barros refere-o também na conquista de Alcácer Ceguer (1458).

Mas foi de novembro de 1468 a 1 de junho de 1473 que vigorou o contrato de arrendamento da Costa da Guiné em que o rei D. Afonso  V lhe arrendou por 5 anos, depois prolongado por mais um ano, o exclusivo do comércio do golfo da Guiné, com a obrigação de pagar uma renda anual de 200 mil réis e de ir explorando 100 léguas da costa da África por ano, a sul da Guiné, a partir da Mata de Santa Maria, tendo até 1475 alcançado o cabo de Santa Catarina e as ilhas do golfo da Guiné.

A documentação conhecida refere-o como escudeiro da Casa Real pelo menos desde 4 de setembro de 1469, sendo dois anos depois, aquando da conquista de Arzila, armado cavaleiro da Casa Real. A 14 de dezembro de 1472 recebeu autorização para ele e os seus acompanhantes usarem espadas e todas as outras armas, enquanto durasse o contrato de arrendamento com a Coroa. Terão trabalhado com Fernão Gomes os cavaleiros de D. Afonso V João de Santarém e Pêro Escobar (que em 1471 descobriram a região onde se viria a erguer o forte de S. Jorge da Mina onde conseguiram o primeiro resgate de ouro), Soeiro da Costa, Fernando Pó (que chegou à Baía de Biafra e descobriu a ilha que ficou com o seu nome, agora Bioko) e Rui de Sequeira, bem como os pilotos Álvaro Esteves e Martim Fernandes, e ainda os navegadores Pedro de Sintra, Lopo Gonçalves e Lopo de Sequeira (passaram a linha do Equador, atingindo o Gabão e descobrindo as ilhas de S. Tomé, Príncipe e Ano Bom).

Também foi concedido a Fernão Gomes o monopólio do comércio da malagueta (ou pimenta-da-guiné), por mais 100 mil réis anuais, produto que era então um popular substituto da pimenta. Por outro lado, a Coroa reservava para si o monopólio da revenda do marfim, ao preço de 1500 réis por quintal, que Fernão Gomes teria que ceder integralmente a Martim Eanes de Boaviagem, a quem o rei concedera o exclusivo da venda deste produto em Portugal.

Aliás, os propósitos mercantis foram neste contexto evidentes, a ponto de se terem sido perpetuados nas designações atribuídas pelos navegadores às partes da Costa da Guiné que iam explorando, identificando-as pelas principais mercadorias que aí se obtinham através do comércio com os nativos: Costa da Malagueta (Libéria), Costa do Marfim, Costa do Ouro (Gana) e Costa dos Escravos (Togo e Benim).

Fernão Gomes foi agraciado pelo rei com o  apelido Mina (Carta régia de 29 de Agosto de 1474) e um brasão de armas em escudo de prata,  com três cabeças de negros com colares e argolas de ouro nas orelhas e nas faces, para além de ter sido nomeado membro do Conselho Real em 1478.

Na sua vida privada, Fernam Gomes  casou-se em Lisboa com Catarina Leme, filha bastarda do mercador flamengo Martim Leme, «O Velho».

Freguesia de Belém
(Planta: Sérgio Dias)

 

 

 

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