A toponímia das ruas que não o são

O Poço do Borratém em 1951
(Foto: Eduardo Portugal, Arquivo Municipal de Lisboa)

A toponímia das ruas que o não são foi o título da  comunicação de Áppio Sottomayor às III Jornadas de Toponímia de Lisboa (1998), que agora recuperamos para agrupar os doze topónimos que permanecem sem uma das categorias referidas nos anteriores artigos deste mês. Assim acontece em doze casos: o Caracol da Graça e o já desaparecido Caracol da Penha, o Corredor da Torrinha, a Costa do Castelo, as Cruzes da Sé, o Cunhal das Bolas, as Escolas Gerais (que coexistem com a Rua das Escolas Gerais), o Paço da Rainha, o Poço do Borratém, a Rocha do Conde de Óbidos já também extinta, o Telheiro de São Vicente e a Triste Feia. Estes  topónimos são geralmente únicos, antigos e encontram-se nas freguesias seculares da cidade de Lisboa.

Começando pela freguesia de Santa Maria Maior, na confluência da Rua da Madalena, Rua dos Condes de Monsanto e Rua do Arco do Marquês de Alegrete, deparamos com o Poço do Borratém , um pleonasmo, já que de acordo com o arabista David Lopes significa Poço do «poço da figueira». A fixação deste topónimo deve ser pelo menos quinhentista já que Gil Vicente o menciona no seu Pranto de Maria Parda. Norberto de Araújo adianta que «O poço é antiquíssimo, e foi sempre do domínio público. Quando o Estado adquiriu as propriedades, êle continuou a ser respeitado na sua serventia. (…) No meado do século passado [séc. XIX] explorava a água uma companhia de aguadeiros, e, antes, em 1818, existia uma Irmandade de Santo André e das Almas que cobrava um tributo a quem aproveitava o líquido, fiado nas suas virtudes. O poço do Borratem, pertença da Câmara, desde 1849 que não traz encargos para quem bebe a “virtuosa” água.»

Cruzes da Sé – Freguesia de Santa Maria Maior – Placa Tipo I
(Foto: Mário Marzagão)

Ainda em Santa Maria Maior, estendendo-se do Largo da Sé à Rua de São João da Praça fica o arruamento denominado Cruzes da Sé, por se situar nas costas da Igreja de Santa Maria Maior, a Sé Catedral de Lisboa, classificada como Monumento Nacional desde 1910. A fixação deste topónimo na memória de Lisboa tem assim de ser posterior à edificação da Igreja de Santa Maria Maior, que pouco depois de 1147 começou a ser construída , assente sobre uma mesquita que, por sua vez, também terá sido erguida sobre um primitivo templo cristão visigodo. Em termos documentais, o topónimo Cruzes da Sé aparece referido num livro de óbitos de 1690.

Partilhado pelas freguesias de Santa Maria Maior e São Vicente temos o Caracol da Graça, artéria que em escadinhas estabelece a ligação da Rua dos Lagares à Calçada da Graça, ganhando o seu nome do ziguezague ou espiral que faz para galgar tão íngreme subida. Sabe-se da existência do Postigo do Caracol da Graça, aberto na Cerca Fernandina, até à sua destruição em 1700, que servia para se descer da Graça aos Lagares e Olarias.

Referimos aqui também o extinto Caracol da Penha,  que unia a Avenida dos Anjos (veio a ser a Avenida Almirante Reis) à Rua de Arroios e veio a ser transformado na Rua Marques da Silva ( freguesias de Arroios e Penha de França) pelo Edital municipal de 05/10/1891, em agradecimento ao proprietário da Quinta da Imagem, João Marques da Silva, que cedeu à Câmara gratuitamente terrenos para alargamento das ruas próximas.

Escolas Gerais – Freguesias de Santa Maria Maior e de São Vicente – Placa Tipo I
(Foto: Mário Marzagão)

Ainda nas freguesias de Santa Maria Maior e  São Vicente, deparamos com a Costa do Castelo, que  alastra da Rua do Milagre de Santo António até à Calçada de Santo André, que teve honras de título de filme português e deve o seu topónimo à proximidade ao Castelo de São Jorge, que aliás contorna numa grande extensão. De igual modo, encontramos as Escolas Gerais, arruamento que vai da Rua das Escolas Gerais à Calçada de São Vicente, sobre o qual o olisipógrafo Luís Pastor de Macedo explica o seguinte:  «Como decerto o leitor já viu, ao Bairro dos Escolares chamaríamos hoje Bairro Universitário, e as Escolas Gerais ou o Estudo Geral são a Universidade transferida definitivamente para Coimbra em tempo de El-Rei D. João III (1537).  Também com certeza sabe o leitor que na Lisboa de hoje existem duas serventias públicas com nomes determinados pelo Estudo fundado por El-Rei D. Dinis: as Escolas Gerais, artéria inclassificada que pertenceu às antigas freguesias de Santa Marinha e de S. Vicente, que a compartilhavam, e a Rua das Escolas Gerais que pertenceu à antiga freguesia de S. Tomé, e durante algum tempo, pelo menos, também à do Salvador.»

Só da freguesia de São Vicente, junto ao Arco Grande de Cima, temos o Telheiro de São Vicente, que tal como a Calçada, o Largo, a Rua e a Travessa é um topónimo indubitavelmente ligado à Igreja que aí se situa e que Norberto de Araújo, revela do seguinte modo: «A Igreja de S. Vicente foi construída por D. Afonso Henriques, em obediência ao voto que fizera, e revelara ao Arcebispo de Braga, D. João Peculiar, quando do Cerco de Lisboa. A primeira pedra foi lançada em 21 de Novembro de 1147. (…) O primitivo Mosteiro de S. Vicente não tinha a mais leve semelhança com o actual, nem dele resta memória descritiva ou simples alçado” (…) A inauguração do novo Mosteiro e Igreja de São Vicente fêz-se a 28 de Agosto de 1629, sem que as obras estivessem concluídas, pois se prolongaram interiormente quase durante um século.»

Em Arroios, deparamos com o Paço da Rainha que remete para o Palácio da Bemposta e para a Rainha D. Catarina de Bragança (? – 1705) que ao enviuvar de Carlos II de Inglaterra regressou a Portugal (em 1693) e acabou por fazer casa no lugar do Campo da Bemposta, onde é certo já habitava em 1702. A partir daí ficou o local conhecido como Paço da Rainha e assim se manteve até o primeiro edital de toponímia após a implantação da República, de 5 de novembro de 1910, o tornar no Largo da Escola do Exército, por aí se situar esse estabelecimento de ensino. Contudo, cerca de 12 anos mais tarde, o edital de  17/10/1924 designou-o como Largo General Pereira de Eça, topónimo que assim permaneceu perto de 32 anos até o Edital de 23/03/1954 o renomear como Paço da Rainha.

Cunhal das Bolas – Freguesia da Misericórdia – Placa de azulejo
(Foto: Artur Matos)

Na freguesia da Misericórdia, encontramos uma pequena artéria  entre a Rua da Rosa e a Rua Luz Soriano que é o Cunhal das Bolas, por  derivar do quinhentista Palácio do Cunhal das Bolas.

Na freguesia da Estrela, temos o Corredor da Torrinha, ao qual se acede a partir do Beco da Galheta, que o liga à Avenida 24 de Julho, sendo esta artéria o prolongamento natural da Travessa José António Pereira.

Na mesma freguesia a Rocha do Conde de Óbidos, topónimo do século XVII, derivado da proximidade ao Palácio do Conde de Óbidos (actual sede da Cruz Vermelha Portuguesa). Contudo, no âmbito da reconversão paisagística desta zona, que envolveram o aterro entre a Praça de Dom Luís I e Alcântara, após longas negociações entre o Município e a Casa de Óbidos-Sabugal, em 1880, a CML mandou dinamitar a rocha e morro e no seu espaço foi construída uma escadaria dupla que liga a Avenida 24 de Julho ao Jardim 9 de Abril, que mais um século mais tarde foi designada como Escadaria José António Marques, em homenagem ao fundador da Cruz Vermelha Portuguesa.

Ainda na Estrela deparamos com a Triste Feia, artéria na confluência da Rua Maria Pia, Rua da Costa e Rua Prior do Crato, paralela à Rua da Costa e nas costas da estação de comboios de Alcântara-Terra. Após a remodelação paroquial de 1770 já a encontramos nas plantas e descrições das freguesias de Lisboa na «Nova Freguezia do Snr Jezus da Boa Morte» como «Rua da Triste Feya» e igualmente como «rua chamada a Triste-fea». No Atlas de Filipe Folque, a planta nº 39 de 1856 menciona a Triste Feia e a calçada da Triste Feia. E a partir desta data, tanto nos levantamentos de Francisco Goulard (1882) como de Silva Pinto e Alberto Correia de Sá (1910), surge sempre designada como Triste Feia.

Triste Feia em 1965 e nos dias de hoje
(Fotos: Augusto de Jesus Fernandes – Arquivo Municipal de Lisboa; José Carlos Batista)

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