O Carrasco num Beco

Freguesia da Misericórdia
(Foto: José Vicente| Departamento de Património Cultural)

O algoz, executor último de uma pena de morte, está também inscrito na toponímia de Lisboa através do Beco do Carrasco, artéria que existe pelo menos desde 1733 e se abre junto ao nº 77 da Rua do Poço dos Negros, hoje território da Freguesia da Misericórdia.

Francisco Santana, na sua comunicação às 3ªs jornadas de Toponímia de Lisboa, em 1998, recordou a este propósito que «Ligado à morte e, mais, agente dela, o carrasco foi e é também objecto de sentimentos contraditórios: as sociedades pedem-lhe que exerça uma função que consideram necessária mas desprezam-no por a exercer. Mas vá lá, isso não levou a que desaparecessem como topónimos o Beco do Carrasco, ao Poço dos Negros, e o Pátio do Carrasco, ao Largo do Limoeiro». Os carrascos, pagos  pelo Estado, foram muitas vezes também homens que haviam sido eles próprios condenados à forca, que viram sua pena comutada tendo sido profissão. De acordo com o investigador Luís Farinha «A pena de morte é cada vez mais rara, fora do período das Invasões Francesas e da Guerra Civil, de 1826 e 1833. Nesses períodos era mais fácil o carrasco justificar a sua própria existência. A partir os anos 1840, as notícias são caricatas nesse sentido, porque não há carrasco, o carrasco desiste, não há pessoas que estejam dispostas a fazer aquele trabalho.» Com a abolição da pena de morte em Portugal em 1 de julho de 1867 deixou também de existir esta profissão.

Freguesia da Misericórdia – Placa de azulejo
(Foto: José Vicente| Departamento de Património Cultural)

O Beco do Carrasco  fixa neste arruamento um seu morador que exercia essa função. É um topónimo já firmado em 1733 nos registos paroquiais, dado que conforme relata Luís Pastor de Macedo foi neste Beco do Carrasco,  da então Freguesia de Santa Catarina de Monte Sinai,  que em 3 de outubro de 1733, nasceu Diogo Inácio de Pina Manique, filho de Pedro Damião de Pina Manique e Helena Inácia de Faria, personalidade que se viria a notabilizar como Intendente-Geral da Polícia do reinado de D. Maria I, orientado para a repressão das ideias oriundas da Revolução Francesa, designadamente através da proibição de circulação de livros e perseguição a diversos intelectuais.

Para além deste registo o topónimo Beco do Carrasco surge em mais documentos do séc. XVIII, como as descrições paroquiais imediatamente anteriores ao Terramoto de 1755, bem como nas plantas da remodelação paroquial de 1770 e posteriores em que aparece como a artéria paralela à Rua Marcos Marreiros (ou Barreiro ou Marreyro) e à Rua João Brás (ou João Braz), com a diferença de que estas duas artérias surgem já em documentos seiscentistas, mencionadas à Rua da Cruz de São Bento que era então a Rua dos Poços dos Negros que hoje conhecemos. Recordemos  que na passagem do séc. XVI para o XVII foi encomendado um plano de urbanização dos arruamentos da Bica, da Boa Vista e Poço dos Negros ao arquiteto contemporâneo Teodósio de Frias que escolheu uma tipologia da malha regular ordenada por eixos direccionais que articularam a zona com o exterior, formando um traçado em forma de espinha, mais solto na zona do Poço dos Negros/Boa Vista.

Lisboa comporta ainda um Pátio do Carrasco, junto ao Largo do Limoeiro, que amanhã será o tema do nosso artigo.

Freguesia da Misericórdia
(Planta: Sérgio Dias| NT do Departamento de Património Cultural)

 

 

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