Um Largo, uma Rua e uma cadeia ligadas a um limoeiro

O Largo e a Rua do Limoeiro – Freguesia de Santa Maria Maior
(Foto: Toze Ribeiro)

Supõe-se que terá existido um limoeiro que deu nome ao Largo e à Rua do Limoeiro e que a partir desta toponímia local a Cadeia erguida no séc. XV, no fronteiro Largo de São Martinho, ganhou a mesma denominação. A partir da existência secular dessa prisão foi então Limoeiro que passou a ser sinónimo de cárcere.

Assim, tanto o Largo do Limoeiro – na confluência do Largo de São Martinho com a Rua do Limoeiro – , como a Rua do Limoeiro – que liga o Largo do Limoeiro ao Largo de Santa Luzia -, arruamentos sobranceiros a Alfama, da Freguesia de Santa Maria Maior, possuem uma história que se confunde com a do Paço a-par-de-São Martinho.

Em 1186 foi construída a Igreja de São Martinho (demolida em 1838) e algures no reinado de D. Afonso III ( entre 1248 e 1279) foi construído em frente um Paço Real que por isso ficou conhecido como o Paço a-par-de-São Martinho. A partir de 1338, quando lá foi instalada a oficina de fabrico de moeda passou a ser denominado como Paços da Moeda e em 1383, nele morreu o Conde Andeiro  às mãos do Mestre de Avis, futuro D. João I. No início do século XV, o local designava-se como Paços do Infante herdeiro, por ser a residência do futuro rei D. Duarte, estando também lá instaladas as Comendadeiras de Santos-o-Velho enquanto esperavam o seu novo convento.

Com D. João II, o Paço de S. Martinho ficou também sede do Desembargo do Paço – com a Casa da Suplicação e a Casa do Cível – nos pisos superiores, enquanto em baixo funcionavam as prisões (a Cadeia da Cidade e a Cadeia da Corte), sendo então conhecido  como Paço do Limoeiro ou simplesmente, Limoeiro, denominação que vai a partir daqui perdurar. D. Manuel I mandou executar obras de melhoramentos no edifício do Limoeiro.  Em 1642, D. João IV fez um decreto a ordenar o despejo da cadeia do Limoeiro devido às doenças ali existentes e a transferência dos castelhanos lá presos. Depois, na 1ª metade do séc. XVIII, D. João V  também promoveu beneficiações nas instalações, segundo o plano do arq. Volkmar Machado, mas o Terramoto de 1755 arruinou a maioria das instalações e implicou a deslocação dos  seus 500 presos e em definitivo, dos tribunais lá instalados. Entre 1758 e 1759 a Cadeia da Corte já estava reabilitada. Era no Limoeiro que os condenados ao degredo nos territórios ultramarinos aguardavam o dia do embarque. Oliveira Martins refere também que nos tempos miguelistas  a cadeia ficou sobrelotada. Nos finais do século XIX e inícios do século XX, a Penitenciária de Lisboa, de 1885, era insuficiente e apesar de se multiplicarem as críticas à cadeia do Limoeiro esta manteve-se em funcionamento, mesmo após os incêndios de 1918 e de 1933 e durante as diversas obras de remodelação nos anos 30, 40 e 60. O Limoeiro apenas encerrou como cadeia em julho de 1974, acolhendo depois, transitoriamente, alguns portugueses retornados das antigas colónias. Finalmente, no último mês do ano de 1979, as instalações foram atribuídas ao Centro de Estudos Judiciários, espaço dedicado à formação de magistrados.

Saliente-se ainda que estiveram presos na Cadeia do Limoeiro os poetas Correia Garção (em 1771) e Bocage (1797), o pintor Domingos Sequeira (1808) e o escritor Almeida Garrett (1827). Em 1767 também lá estiveram Domingos da Cunha, António João, Policarpo José e António Francisco, carreiros da obra do Arsenal e Praça do Comércio, por ordem do Meirinho da Cidade, e que requereram a liberdade «uma vez que apenas se propuseram descansar um pouco dos trabalhos que têm com os desentulhos da cidade todos os dias».

Para a história da toponímia lisboeta fica que a Rua do Limoeiro seria a antiga Rua Direita do lugar do Limoeiro a ligar a Sé de Lisboa à Igreja de Santa Luzia, sendo que um documento de 1543 a denomina Rua Direita do Limoeiro. Luís Pastor de Macedo adianta que o Largo do Limoeiro é pela primeira vez citado em registos paroquias em 1647, como Terreiro do Limoeiro, e só em 1683 surge como Largo. A planta de 1761 de Guilherme de Menezes menciona o sítio do Limoeiro. A planta da Freguesia de S. Martinho após a remodelação paroquial de 1770 regista a Rua de S. Martinho e a Rua do Limoeiro, embora na descrição seja mencionado o Largo do Limoeiro, enquanto na Freguesia da Sé a planta mostra a Rua do Aljube. Na planta de 1807 de Duarte Fava temos a partir da Sé a Rua do Aljube, seguida de Arco do Limoeiro e Largo do Limoeiro. A de 1812 do Duque de Wellington apenas menciona Largo de São Martinho e Rua do Arco de Limoeiro. O Itinerário Lisbonense de 1818 indica que o Largo do Limoeiro se situava entre a Rua do Arco do Limoeiro e a Rua do Limoeiro, em frente da Cadeia do Limoeiro .Em 1858, Filipe Folque enumera a partir da Sé a Rua do Aljube, a Rua Direita do Limoeiro e a Rua de Santa Luzia, tal como em 1879 o fazem César e Francisco Goullard, assim como em 1911 Silva Pinto. No entanto, em 1892, Ressano Garcia denomina-a Rua do Limoeiro e, em 1910, uma planta do local menciona a Rua do Arco do Limoeiro a nascer junto da Sé onde antes era a Rua do Aljube. Em 1924, o troço  da Rua das Pedras Negras ao Largo de São Martinho, era designado como Rua do Arco do Limoeiro e por Edital municipal de 17 de março, passou a ser a Rua de Augusto Rosa, ator que ali viveu no prédio com o nº 50.

O Largo e a Rua do Limoeiro – Freguesia de Santa Maria Maior
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

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