Forcas e fogueiras no Campo de Santa Bárbara, hoje Largo

Largo de Santa Bárbara – Freguesia de Arroios
(Foto: Luís Pavão, 2011, Arquivo Municipal de Lisboa)

O Largo de Santa Bárbara começou por ser o Campo de Santa Bárbara e pelo menos desde o séc. XV foi lugar de execuções pela forca e pelo fogo.

Ao certo, encontramos um documento de 16 de agosto de 1450, de D. Afonso V, em que manda o corregedor em Lisboa atender aos  montantes gastos pelo concelho na cerca feita em redor da forca de Santa Bárbara. Depois, em 19 de maio de 1500, D. Manuel I determina que as execuções por fogo devem ter lugar no Rossio de Santa Bárbara ou noutro local do exterior da cidade. Após o Terramoto de 1755 foi também no Campo de Santa Bárbara que se ergueram as forcas onde foram executados aqueles que aproveitando a confusão gerada pela catástrofe roubaram os bens das vítimas.

Alguns indícios parecem também apontar para que o Campo de Santa Bárbara tenha sido designado também como Campo da Forca na época de D. João V. Nos documentos municipais encontramos uma petição de 1700 de Manuel Antunes, morador a São Lázaro que diz ter umas casas em frente do muro da forca dos padres Bernardos [no Desterro]; em  1702, o  secretário de Estado Mendo de Fóios Pereira, no seu aviso sobre os locais de depósito dos lixos da cidade determina que os lixos da Mouraria podem ser depositados no Campo da Forca ou nas covas perto da Calçada do Monte, sendo que os restantes escolhidos são sempre locais relativamente próximos da origem do lixo; em 1705, Francisca João, proprietária de casas situadas na rua dos Anjos junto ao Campo da Forca, solicitou uma vistoria para construir outra casa no mesmo local; e em 1712, Bernardino de Andrade faz uma petição para aforar um chão junto a Fontaínha do Campo, antigo Campo da Forca.

O Campo de Santa Bárbara na planta de 1858 de Filipe Folque (carregue na imagem para ver em tamanho maior)

O Campo de Santa Bárbara era nos arrabaldes da cidade de Lisboa, era  no campo. Por isso, em 20 de abril de 1523, D. João III ordenou mesmo à Câmara de Lisboa que devido à peste passasse temporariamente  a reunir em Santa Bárbara, certamente com melhores e bons ares. Em 1573, D. Sebastião determinou que não se fizessem aforamentos sem o seu consentimento no Campo de Santa Bárbara. No século seguinte ainda era um lugar de hortas, quintas, olivais, fontaínhas e arroios de água. No séc. XVIII, de 1703 a 1749, deparamos com inúmeros aforamentos e vistorias no Campo de Santa Bárbara. Já no séc. XIX, a planta de Lisboa de Filipe Folque, de 1858, continua a denominá-lo Campo de Santa Bárbara. Em 11 de dezembro de 1874, a Câmara aprovou que lá fosse feita calçada e em 1878 a planta de Francisco Goullard mantém a designação de Campo de Santa Bárbara. Cinco anos depois, em 1881, Francisco Goullard já usa Largo de Santa Bárbara numa planta do local, assim como a Câmara aprova a expropriação parcial da quinta de Santa Bárbara, situada na Travessa da Cruz do Tabuado, para a abertura da nova rua que há-de ligar o Largo de Santa Bárbara com a dita travessa, bem como para a construção de uma escola municipal e ainda nesse ano, os Diretores da Companhia Carris de Ferro de Lisboa solicitam à edilidade a aprovação do projeto n.º 1 para a conclusão da 3ª linha de caminho de ferro americano, traçada do Largo do Intendente pela Rua Direita dos Anjos até ao Largo de Santa Bárbara, e daqui pela rua nova traçada até à avenida Estefânia, terminando nas portas da cidade. Em 1910, a planta do levantamento de Silva Pinto também  já identifica o Largo de Santa Bárbara. Três anos depois, o Edital municipal de 18/10/1913 altera-lhe o nome para Largo 28 de Janeiro, data do movimento de 1908 com o propósito de proclamar a república que acabou gorado e ficou conhecido como a Janeirada. Quase 24 anos depois novo Edital camarário de 19/08/1937, volta a designá-lo Largo de Santa Bárbara. Este mesmo edital, removeu outros topónimos dados pela vereação republicana, a saber, atribuiu a Rua da Misericórdia que havia sido a Rua do Mundo (edital de 18/11/1910) e antes Rua de São Roque (edital de 08/06/1889), assim como  atribuiu Rua das Trinas à Rua Sara de Matos (edital de 17/10/1924) que antes fora a Rua das Trinas de Mocambo.

Finalmente, a origem do topónimo radica na proximidade à antiga Ermida de Santa Bárbara, sendo que no séc. XVII foi erguida uma nova Capela de Santa Bárbara, por Inácio Lopes de Moura, no seu palácio.  D. António Caetano de Sousa, no seu Agiológio lusitano de 1744 , explica que « ‎Neste Campo de Santa Barbara, naõ havia outra Ermida, mais que a antiga de que falamos; porque a que hoje vemos dedicada a Santa Barbara, he obra moderna, que em nossos dias edificou Ignacio Lopes de Moura, desembargador dos Agravos, grande devoto de Santa Barbara (…) em cujo louvor compoz hum livrinho , que imprimio em Lisboa, no anno de 1701, intitulado “Flores de Devoção colhidas no Campo de Santa Bárbara”, a que deu nome à Ermida antiga.»

Com o mesmo topónimo existe ainda a Rua de Santa Bárbara, a ligar o Largo de Santa Bárbara ao Largo do Conde de Pombeiro, que de acordo com o olisipógrafo Luís Pastor de Macedo «deveria ter sido rasgada nos fins do primeiro ou no princípio do segundo quartel do século XVIII. A primeira vez que a topamos é em 1727 sob o nome de rua Nova de Santa Bárbara [Livro V de óbitos – Anjos] e a prova de que ela deveria ter sido então aberta é que pouco depois ainda era a “rua nova que se abrio de novo e vay da Bemposta para o campo de Stª Barbara (1737) ».

Freguesia de Arroios
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

 

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s