Da Praça da Alegria à Praça do Suplício

Praça da Alegria e Jardim Alfredo Keil – Freguesia de Santo António
(Foto: Artur Matos)

A Cotovia foi um termo usado até ao séc. XVIII para designar a cumeada desde a Rua D. Pedro V até ao Largo do Rato assim como a Cotovia de Baixo passou a ser sítio da Alegria, tendo a sua Praça da Alegria sido também um Campo de Forca que por algum tempo a população denominou como Praça do Suplício.

O olisipógrafo Norberto de Araújo recorda que esta Praça da Alegria também foi conhecida como Praça do Suplício durante uns três anos, após ter sido lá enforcada Isabel Xavier Clesse, em 31 de março de 1771. O marido da enforcada, Tomaz Goilão, viajou para a Índia e ela passou esse tempo a viver com um porta-bandeira e quando o marido regressou, envenenou-o com ácido nítrico.

Também na Cotovia de Cima, onde em 1756 fora inaugurada a Basílica Patriarcal que acabou destruída por fogo posto em 1769, teve o culpado do incêndio, um tal Alexandre Vicente, a pena de ser  garrotado e queimado vivo no local.

Sobre a origem deste topónimo Norberto de Araújo sugeriu que o sítio da Alegria era a antiga Patriarcal Queimada ou Praça do Príncipe Real de hoje, que se prolongava até ao Rato: «Ora vamos ver – a Alegria, sítio a-par da velha Cotovia de Baixo (a Cotovia de Cima, ou simplesmente a “Cotovia” era a actual Praça do Rio de Janeiro [hoje Praça do Príncipe Real], em prolongamento até o sítio do Rato). » Por documentos que referem a praça da Alegria de Cima e a praça da Alegria de Baixo ligadas por uma rampa, podemos mesmo considerar viável que a de Cima fosse a do Príncipe Real e a de Baixo, a da Alegria. Na primeira metade do século XVIII esta zona era ainda um local de terrenos de cultivo, conforme também esclarece o mesmo olisipógrafo: «(…) Repizo que na primeira metade do século XVIII tudo por aqui eram terrenos de cultivo, abaixo da quinta ou da cêrca dos Padres da Companhia (Jardim Botânico de hoje), ligados a S. José, razão porque esta zona arrabaldina se chamou também Cotovia de S. José. (Para se entender isto melhor é preciso fechar os olhos, e não ver a Avenida actual)». Depois do Terramoto de 1755 é que as populações se sentiram atraídas para esta área descampada e pouco povoada: «A Alegria, pois, é posterior ao Terramoto; (…) Com a construção e desenvolvimento do Passeio Público, cresceu a Alegria; com a abertura da Avenida tornou-se de maioridade». A partir de 1773 passou a realizar-se na Cotovia de Baixo, ou Alegria, a Feira da Alegria, sendo de 9 de fevereiro o aviso do Marquês de Pombal ao Senado municipal para que ordene a transferência das vendedeiras do Rossio e do Largo de São Domingos para a Praça da Alegria e aí se foi realizando até 1882.

No final do séc. XVII, de 1792 a 1796, encontram-se vários requerimentos de indivíduos que querem ser aguadeiros do Chafariz da Praça da Alegria e até de um mestre marceneiro que quer fazer obras na sua loja na Praça da Alegria. Na cartografia de Lisboa, a Praça da Alegria surge já na planta de Duarte Fava de 1807, no Atlas de Filipe Folque em 1857. Norberto de Araújo defende que a maioria dos prédios da Praça da Alegria são do período de 1840 a 1850 e os registos encontrados no Arquivo Municipal têm 1846, 1852 e 1856 como os anos com maior número de pedido de construção de novos prédios nesta artéria. Em 1881, muitos prédios da Praça foram expropriados e demolidos para a construção da Avenida da Liberdade mas nesse mesmo ano também começou a ser plantado nesta Praça um Jardim.

Em termos da toponímia oficial a Câmara através do Edital de 08/06/1889 atribuiu à antiga Rua Nova da Alegria o topónimo Rua da Alegria. Sabemos que quanto à Praça da Alegria uma deliberação camarária de 24 de maio de 1920 passada a Edital em 8 de junho de 1925 mudou-lhe o nome para  Praça Alfredo Keil. Contudo, no ano seguinte,  a Comissão Executiva da Câmara na sua sessão de 31 de maio  aprovou a proposta do vereador Alfredo Guisado para que o antigo Jardim da Praça da Alegria, denominado Jardim Fialho de Almeida, passasse a denominar-se Jardim Alfredo Keil, por estar autorizada a construção naquele jardim de um monumento à memória de Alfredo Keil por Teixeira Lopes, do que foi feito Edital em 17 de junho de 1926. E desde aí fixaram-se os dois topónimos deste local:  por Edital municipal ficou o Jardim Alfredo Keil e, pelo uso, a Praça da Alegria.

Freguesia de Santo António
(Planta: Sérgio Dias | NT do DPC)

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