O Fado A minha rua por Camané

Mudou muito a minha rua
Quando o Outono chegou
Deixou de se ver a lua
Todo o trânsito parou

Muitas portas estão fechadas
Já ninguém entra por elas
Não há roupas penduradas
Nem há cravos nas janelas

Não há marujos na esquina
De manhã não há mercado
Nunca mais vi a varina
A namorar o soldado

O padeiro foi-se embora
Foi-se embora o professor
Na rua só passa agora
O abade e o doutor

O homem do realejo
Nunca mais por lá passou
O Tejo já não o vejo
Um grande prédio o tapou

O relógio da estação
Marca as horas em atraso
E o menino do pião
Anda a brincar ao acaso

A livraria fechou
A tasca tem outro dono
A minha rua mudou
Quando chegou o Outono

Há quem diga “ainda bem,
Está muito mais sossegada”
Não se vê quase ninguém
E não se ouve quase nada

Eu vou-lhes dando razão
Que lhes faça bom proveito
E só espero pelo Verão
P´ra pôr a rua a meu jeito

Letra: Manuela de Freitas